FRATERNIZAR – Ressurreição de Cristo – O mito que fundamenta o cristianismo – por Mário de Oliveira

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Estão disponíveis, desde o dia 1, os primeiros TEXTOS da Edição 107 do JF. Concretamente, DESTAQUE, ENTREVISTA com Frei Betto sobre o PT, TEXTOS dos colaboradores, A. Pedro Ribeiro, L. Boff, Frei Betto. Recomenda-se vivamente a sua leitura no site www.jornalfraternizar.pt.vu

Reproduz-se, de seguida, na íntegra, o 1.º Texto à luz da Fé e da Teologia de Jesus. Eis:

Ressurreição de Cristo – O mito que fundamenta o cristianismo

A ressurreição de Cristo é o mito que fundamenta o cristianismo. É a maior invenção dos fundadores do (judeo-)cristianismo, das igrejas cristãs, a católica romana e as protestantes Um mito que já dura há dois mil anos. Contra a Humanidade, os seres humanos, os povos das nações. Contra Deus Abba-Mãe, o de Jesus. Semelhante mito não tem nada a ver com Jesus Nazaré, o filho de Maria. Tem tudo a ver com o judeo-cristianismo, mais tarde, apenas cristianismo. Em particular o cristianismo imperial constantiniano, no século IV, depois, o cristianismo papal. Até hoje. Os fundadores do judeo-cristianismo são judeus, da linha mais ortodoxa, a linha de David/Salomão e da sua casa/família, a quem, segundo a Bíblia dos judeus, Deus, o de Moisés-Aarão, dos profetas, dos Salmos, distinguiu entre todas as outras casas/famílias do mundo para governar o seu “povo escolhido”, os judeus e, através dele, todos os demais povos da terra. Uma crença/tradição, com tudo de invenção corporativa, interesseira, que Jesus, em seu tempo e missão, se atreve a pôr em causa. Mais que isso, se atreve a denunciar como mentirosa, e a combatê-la. Até que acaba morto pelos chefes dos judeus, todos seguidores dessa linha davídica, corporativa.

 Só judeus, como Simão de João (Baptista), entenda-se, Simão Pedro; da Galileia, Tiago, o irmão de Jesus; Saulo/Paulo de Tarso, nascido e criado na diáspora grega, estavam em condições de fundar o judeo-cristianismo. Não hesitaram em fazê-lo, após a morte crucificada de Jesus Nazaré. A páscoa que as igrejas cristãs ainda hoje celebram é a primeira grande invenção do judeo-cristianismo davídico. No seu interesseiro entender, o messias/cristo (messias, na língua hebraica; cristo, na língua grega) já veio, mas não chegou a ser reconhecido, nem sequer pelos chefes máximos do judaísmo institucional. Pelo que, em breve – garantiam, então, delirantemente os três aos primeiros aderentes, outros judeus ortodoxos como eles – viria de novo, desta vez, em poder e glória sobre as nuvens do céu, acompanhado dos seus anjos. O mundo seria, então, como por magia, todo judeo-cristão, sob o comando político do novo filho de David/Salomão, precisamente, o messias/cristo vencedor invicto. Um mito que teria de ganhar corpo num judeu descendente directo da dinastia de David. Uma concepção que Jesus, judeu, nascido em Nazaré, recusa liminarmente, porque corporativa, mentirosa, ofensiva dos demais povos das nações e de Deus, o dos povos de todas as nações, não apenas do povo judeu.

 Uns 40 dias depois da festa da páscoa dos chefes dos judeus, no ano 30, realizada no dia imediatamente a seguir à morte crucificada de Jesus Nazaré, Pedro, o negador/traidor-mor de Jesus Nazaré, faz o primeiro anúncio solene desta vinda vitoriosa do cristo/messias, para daí a não muitos anos, sempre naquela geração. Por sua vez, Saulo/Paulo, um fanático fariseu, formado em judaísmo davídico, adere, pouco tempo depois, a esta mesma crença/corrente política judaica. Faz-se judeo-cristão, por puro interesse judaico. Crente fanático nessa mítica vinda do messias/cristo, decide gastar os anos que lhe restam de vida a anunciar esta notícia, este evangelho, aos inúmeros judeus da diáspora, fixados nas principais cidades do império romano, com destaque para as cidades de fala grega, a sua língua materna. É o grande doutrinador/difusor do cristianismo, o qual fica, para sempre, com a sua indelével marca. Ao ponto de se falar hoje em cristianismo paulino, mais do que em cristianismo petrino.

 De resto, o cristianismo paulino é o único que sobrevive à destruição de Jerusalém e do templo, no ano 70. Precisamente, quando se aguardava, por esses mesmos dias, a vinda em poder e glória do messias/cristo, já Paulo, seu anunciador, havia morrido, ele que sempre garantira que seria um dos que estaria vivo, aquando da sua chegada! Mais tarde, com Constantino imperador, o cristianismo é reconhecido como religião oficial e única do império romano. Os concílios de Niceia-Constantinopla, depois, Calcedónia, fizeram o resto, com a aprovação do Credo que ainda hoje é recitado mecanicamente nas missas do domingo. Um Credo sem pés nem cabeça, todo tecido de mitos do primeiro ao último artigo de “fé”. Que os intelectuais cristãos – doutores, catedráticos, biblistas – engolem, reproduzem, como se fossem criancinhas de infantário, numa manifestação de imaturidade intelectual e corporativa, de partir o coração. O mais absurdo de tudo isto, é que já lá vão dois mil anos, sempre à espera do messias/cristo, dois mil anos de mentira-e-crime, auto-apresentados como o que há de melhor, de mais santo, sobre a face da terra!

A mentira do cristianismo tem por base o testemunho de Pedro-e-Paulo, de que o crucificado Jesus lhes apareceu, pessoalmente, vivo, ressuscitado, e a mais de quinhentos irmãos. Uma afirmação puramente conceptual, doutrinal, não factual, histórica. Puro delírio, por um lado, pura ambição davídica de domínio do mundo, a partir das mentes/consciências dos povos, por outro lado.

Pensemos bem por uns momentos. Que credibilidade pode ter Simão Pedro, que traiu Jesus, negou-o por três vezes, quando ele estava preso e a ser interrogado no tribunal judaico, desapareceu depois de cena, quando viu que, afinal, Deus, o de David e da Bíblia, não lhe valeu, quando ele é preso, julgado, condenado à morte, executado e o seu cadáver é lançado à vala comum? Que credibilidade pode ter Paulo, se, quando ainda Saulo, foi um perseguidor de Jesus, um acérrimo defensor de Cristo/Messias, contra Jesus, a quem nunca conheceu, nem quis que lhe testemunhassem acerca dele?

Ambos têm credibilidade, e muita, mas para o judeo-cristianismo que fundaram e cujas bases doutrinais lançaram, sobretudo, Paulo. Já no que respeita a Jesus, não têm nenhuma credibilidade. A verdade histórica, no que respeita a Jesus, é que nunca mais ninguém o viu, depois da sua morte na cruz como o maldito dos malditos. Por mais que Pedro e Paulo digam que o viram, não viram. Os seus testemunhos não dizem respeito a Jesus, o filho de Maria. Apenas ao mito messias/cristo, o filho de David, alimentado também por eles. É deste que ambos testemunham. Corporativamente. Sem este mito, apresentado por eles como realidade histórica, não haveria judeo-cristianismo, por isso, não haveria cristianismo.

Por mais que ambos queiram identificar Jesus com o messias/cristo, o filho de David, mais não fazem do que reincidir na mentira, no delírio. Porque o filho de Maria, a fragilidade humana desarmada em grau máximo, jamais pode ser o filho de David, o Poder vencedor invicto em grau máximo. De nada vale, pois, virem as igrejas cristãs todas apelar às narrativas dos 4 Evangelhos em 5 volumes e às aparições do ressuscitado que três deles – a excepção é de Marcos, precisamente, o mais antigo dos 4 – apresentam. Aliás, relatos de aparições de mortos, era coisa habitual, naquele então, quando são escritos os evangelhos canónicos. Todos esses relatos de aparições de Jesus ressuscitado – nunca os Evangelhos que as apresentam falam de “Cristo ressuscitado”, apenas de Jesus – eram entendidas então por toda a gente como narrativas que tentam dizer o indizível, que apontam para dimensões outras que a vida humana adquire com a morte, como coroamento da vida histórica de cada ser vivo-consciência. Não são entendidos por ninguém, na época, como factos reais, históricos.

Tais narrativas são o dedo que aponta para a realidade que não estamos a ver. Cabe-nos concentrar toda a nossa atenção na realidade apontada pelo dedo, no caso, pelas narrativas, não no dedo, nas narrativas, que aponta(m) para ela. Por outro lado, não há fé digna dos seres humanos, que não tenha por base-fundamento, experiências humanas indiscutíveis, vividas pelo comum das pessoas. Ora, nenhum dos 4 volumes que contêm narrativas de aparições de Jesus vivo, depois de ter sido morto e bem morto na cruz, coincide nas aparições escritas por cada um dos outros. Além disso, são todas narrativas escritas com objectivos muito determinados. Nenhum, porém, para, com elas, fundamentar/justificar o judeo-cristianismo. Muito pelo contrário, todas são escritas com o objectivo de testemunhar Jesus Nazaré, definitivamente vivente, contra o messias/cristo do judeo-cristianismo e contra o próprio judeo-cristianismo, já em fase de expansão, também fora da Palestina. Portanto, todas são escritas contra Paulo e o falso evangelho que ele diz ter recebido directamente de Deus, tal como, séculos depois, Maomé virá dizer que o “seu Alcorão foi ditado pelo anjo Gabriel (ah! Ah! Ah!).

Interessante é constatar que o mais antigo dos 4 Evangelhos, Marcos, na sua mais antiga versão, termina – vejam só! – no final do versículo 41, cap. 15. Só mais tarde, é que veio a ser alongado até ao final da narrativa do túmulo vazio, uma realidade teológica, não histórica, já que nem sequer houve túmulo para o cadáver de Jesus crucificado, uma vez que o cadáver dos crucificados era lançado à vala comum, com cal por cima, para desaparecer num curto período de tempo. Pode falar-se em túmulo vazio, porque, efectivamente, nunca chegou a estar túmulo cheio, já que o cadáver de Jesus não foi para nenhum. Por mais que as narrativas dos outros evangelhos, com destaque paro o Evangelho de João, digam explicitamente que sim. O sentido desse seu falar é antropológico-teológico, não factual, histórico.

É sempre num sentido outro, que é premente descobrirmos, em cada tempo e lugar. Aponta para uma mensagem surpreendente demais, porventura, escandalosa demais, para os critérios religiosos, políticos, culturais dominantes, precisamente, os do cristianismo, para poder ser entendida/acolhida pela generalidade das populações. Sobretudo, para poder ser vivida-praticada. Em síntese, o que todas elas querem dizer, de múltiplos modos, é que Deus que nunca ninguém viu e se nos dá a conhecer em Jesus, o filho de Maria, no seu ser-viver histórico e no seu morrer na cruz como o maldito, é com Jesus, o maldito segundo a Bíblia, que está e em quem se revê, não com os chefes sacerdotes que o mataram. Nem com a Bíblia deles. Semelhante Boa Notícia, Evangelho, dificilmente tem acolhimento. então e hoje. E a prova é que as populações continuam a temer/reverenciar os chefes e a desprezar as vítimas fabricadas por eles!

Finalmente, falar em ressurreição, como reanimação do cadáver de Jesus, como sempre fazem, pelo menos, dão a entender, as catequeses das igrejas cristãs, é uma agressão assassina que se faz a Jesus, à inteligência humana, ao comum dos seres humanos. Nada pode ser dito de Jesus que não possa ser dito de qualquer outro ser humano, nascido de mulher, como ele. Este é um princípio que não admite excepções. Uma excepção, aplicada a Jesus, seria um insulto a Jesus. Concretamente, seria retirar-lhe a condição de ser humano, em tudo igual aos demais, excepto na idolatria que ele, felizmente, nunca cometeu, pelo contrário, sempre combateu até ao limite das suas forças e até para lá do limite das suas forças.

Infelizmente, outra coisa não faz o cristianismo, quando fala de ressurreição de Jesus, como reanimação do seu cadáver. É, pois, um sistema mentiroso, pai de mentira. Tal como o judaísmo, que o precede. Com as narrativas teológicas de aparições, os Evangelhos que as criaram e incluem, querem simplesmente afirmar, contra o cristo/messias davídico, que Deus Abba-Mãe, o de Jesus e dos povos todos da terra, indistintamente, é com o seu filho Jesus que está e, nele, com todas as vítimas humanas, suas filhas, seus filhos, produzidas pelos agentes históricos do Poder, nos três poderes. Não com os agentes históricos que as produzem. Por mais que os livros que formam a Bíblia judeo-cristã digam que é com os agentes históricos do Poder que Deus está. E se há um Deus que está com os agentes históricos do Poder, só pode ser um falso Deus, um ídolo, ao qual os povos da terra hão-de resistir, desobedecer, nunca alimentar, muito menos, dar-lhes as filhas, os filhos. Ou o voto nas urnas eleitorais.

 

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