O ERRO DO MONETARISMO – por J. BRADFORD DELONG

Temaseconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Bradford Delong
J. Bradford DeLong

 

O  erro  do Monetarismo

 J. Bradford DeLong, The Monetarist Mistake

Project Syndicate, 30 de Março de 2015

BERKELEY – As ideias são importantes. . Essa é a lição de Hall of Mirrors, do economista americano Barry Eichengreen, que são  crónicas das duas  maiores crises económicas dos últimos 100 anos: a da Grande Depressão do século XX e da Grande Recessão em curso, contra a qual  ainda hoje nos estamos a debater sem  sermos capazes de saír dela e começar a retoma das economias.

Eichengreen é meu amigo, professor e meu patrono, e o seu livro é para mim  a melhor explicação até ao momento das razões  pelas quais  os formuladores de políticas na Europa e nos Estados Unidos reagiram ao colapso económico mais dramático em quase quatro gerações com meias medidas , com meias intervenções, com intervenções que não levaram até ao fim.

De acordo com Eichengreen, a Grande Depressão e a Grande Recessão estão intimamente relacionadas. A resposta inadequada para os nossos problemas actuais pode ter sido traçada para ser o triunfo dos monetaristas discípulos de Milton Friedman sobre os seus colegas  vindos de Keynes e de Minsky  na descrição da história da Grande Depressão.

Em Uma História Monetária dos Estados Unidos, publicado em 1963, Friedman e Anna Jacobson Schwartz tornaram célebre a sua argumentação  de que a Grande Depressão foi devido exclusiva  e totalmente ao fracasso do Federal Reserve dos EUA em expandir a base monetária do país e, assim, manter a economia numa trajectória  de crescimento estável. Se não tivesse havido  queda no volume da massa monetária , segundo esse argumento, não se teria verificado a  Grande Depressão.

Esta interpretação tem um certo tipo de sentido, mas  baseia-se  numa  premissa altamente crítica. A prescrição  de  Friedman e Schwartz teria  funcionado  apenas se as taxas de juros e o que os economistas chamam de “velocidade de circulação do  dinheiro” – a taxa a que o dinheiro muda de mãos – fossem  em grande parte independentes uma da outra.

O que é mais provável, no entanto, é que a queda nas taxas de juro resultantes das intervenções necessárias para expandir a oferta de dinheiro do país teria colocado um freio na velocidade do dinheiro, o que prejudicaria  a cura proposta. Nesse caso, terminar  a Grande Depressão também teria exigido a expansão orçamental  pretendida e defendida por  John Maynard Keynes assim como teria exigido igualmente  as políticas de apoio ao  mercado de crédito defendidas por  Hyman Minsky.

O debate sobre quais as intervenções que seriam necessárias para pôr fim a algo como a Grande Depressão deveria ter sido uma simples questão de analisar as evidências. Em tempos económicos difíceis, terão as taxas de juros pouco impacto sobre a velocidade do dinheiro, como Friedman sugeriu? Estava  Keynes correcto  quando descreveu o conceito de uma armadilha de liquidez, uma situação em que a flexibilização da política monetária prova ser ainda mais ineficaz? É o stock  de dinheiro numa economia um estimador adequado da despesa total,  como Friedman defendeu,  ou é o bom funcionamento dos canais de crédito um factor bem mais importante, como Minsky argumentou ?

Essas questões podem ser debatidas. Mas é bastante claro que, mesmo na década de 1970 não havia evidência empírica suficiente para estar a apoiar as ideias de Friedman e assim   justificar a sua dominação crescente. E, em boa verdade, não se pode negar o facto de que a cura proposta por Friedman se tenha revelado uma resposta inadequada à Grande Recessão – sugerindo fortemente que teria sido igualmente e rapidamente insuficiente se tivesse sido aplicada durante a Grande Depressão.

A predominância das ideias de Friedman no início da Grande Recessão tem menos a ver com os elementos de prova em que se possam sustentar do que com o facto de que a ciência económica é muitas vezes contaminada pela política. Neste caso, a contaminação era tão má  que os formuladores de políticas não estavam sequer dispostos a ir além para além de Friedman e aplicar as políticas de matriz  keynesiana e de Minsky numa escala suficientemente grande para lidar com os problemas que a Grande Recessão apresentava.

Admitir que a terapêutica  dos monetaristas era inadequada exigiria que os economistas de pensamento neoliberal, a maioria, remasse contra a própria maré  neoliberal do nosso tempo.  Exigiria o reconhecimento que as causas da Grande Depressão têm raízes muito mais profundas do que uma falha tecnocrática no  controlar correctamente a massa monetária.  E fazendo-o, contestando o pensamento  dominante,  seria  equivalente  a admitir os méritos da democracia social e reconhecer  que a falha dos mercados pode às vezes ser um perigo ainda maior do que a incapacidade dos governos.

O resultado foi um conjunto de  políticas baseadas não na realidade  mas em ideias inadequadamente estudadas até agora.  E nós estamos ainda hoje a pagar o preço por essa enorme falha intelectual.

J. Bradford DeLong, The Monetarist Mistake. Texto disponível em :

http://www.project-syndicate.org/commentary/friedman-ideas-great-recession-by-j–bradford-delong-2015-03

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