CARTA DO RIO – 46 por Rachel Gutiérrez

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Heliodora Carneiro de Mendonça, ou, como ficou mais conhecida e temida: Barbara Heliodora. Talvez não fosse propriamente bonita, mas era imponente. Talvez não fosse à primeira vista muito simpática, mas tornava-se imediatamente fascinante. Uma das figuras mais respeitadas da cultura brasileira, Barbara Heliodora, que nos deixou no dia 10, tinha uma personalidade extraordinariamente forte. Foi sempre Implacável em suas crônicas porque assim a obrigava sua fidelidade a um primoroso conhecimento da arte teatral, pela qual foi apaixonada até o fim. Deixou o mais comovente exemplo de consagração absoluta ao difícil trabalho da crítica, do ensino e da pesquisa rigorosa.

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Perdemos a nossa Rainha!”, lamentou, emocionada, sua grande amiga Fernanda Montenegro, ela mesma considerada a grande dama do teatro brasileiro. E outro grande ator, Marco Nanini, escreveu: “Sua vida mistura-se com o teatro, que acompanhou durante muitos e muitos anos como tradutora, pesquisadora, escritora, diretora, professora, atriz e crítica – temida.. (…) não tinha pudor em expressar sua franca opinião. Um olhar mais calmo percebia bastante humor na indignação de seus comentários.” E o jornal O Globo, no qual publicou suas críticas de 1990 a 2014, revelou o quanto ela sofria ao se sentir obrigada a falar mal de um espetáculo. Pois, muitas vezes, ao entregar os artigos, acrescentava comentários para a redação, como este, por exemplo: “Dentre os inúmeros desastres que vêm afetando o mundo nestes últimos tempos, este não é dos menores. Arrasada!” Sabia, porém, elogiar com generosidade uma boa montagem e o trabalho dos atores que lhe mereciam respeito e admiração.

Além disso, a determinação com que acompanhava o movimento do teatro contemporâneo a levava a recomendar aos editores do jornal os bons espetáculos: “(…) que maravilha ver o Nanini em cena. Ele é realmente extraordinário. Esse espetáculo (‘Vermelho’) paga uma boa parte dos muitos horrores que eu vejo. Não perca! É maravilhoso!” Ou, como no bilhete sobre um grupo de estudantes que realizara um bom trabalho: “Eu não costumo fazer crítica de teatro amador, mas este espetáculo é sensacional e o nível de execução realmente muito bom. Por favor, trate com carinho.”

Barbara Heliodora estava com 91 anos, mas continuava dando aulas, traduzindo e escrevendo. Contou, numa entrevista recente, que calculava ter assistido a mais de 3500 peças ao longo de sua vida. Como diz Macksen Luiz, o crítico que a substituiu no jornal, “foi da plateia que analisou milhares de espetáculos que a fizeram testemunha e participante da cena brasileira por 55 anos.” Diz também o jornalista que ela foi “devotada ao primado da palavra e à grandeza dos clássicos”. Ela mesma dissera: “Nada como o prazer de ver mais uma vez comprovado que o melhor teatro é feito de texto + ator, tratando da condição humana” ao se referir a uma encenação que muito a havia encantado. Macksen Luiz lembra ainda que Barbara discutia os espetáculos no plano das ideias e que o seu humor tinha “sotaque inglês e verve mineiro-carioca.”

A mais dedicada estudiosa de Shakespeare, autor que traduziu quase todo, e que conhecia como poucos, durante as aulas sobre suas peças tinha-se a impressão de que o período elisabetano nos chegava inteiro, tal era a sua capacidade de situá-lo em seu momento histórico e entre seus contemporâneos, além, é claro, de considerá-lo o maior dramaturgo de todos os tempos. Igualmente respeitável era o conhecimento de Barbara do teatro clássico francês. Na verdade, tudo que se refere a essa arte cênica a interessou e apaixonou, como prova seu último livro publicado: Caminhos do Teatro Ocidental, uma coletânea das aulas ministradas de 1966 a 1985.

Atores e alunos que a amavam vão sentir muita falta de Barbara Heliodora, assim como seus inumeráveis leitores, seus amigos e admiradores que se acostumaram a tomar sua crítica como referência ou aval para a apreciação inteligente e bem fundada das peças “levadas às tábuas” em nosso país.

E de todas as homenagens que sua memória vem recebendo, a que mais me comoveu foi a do cartunista Chico, em sua charge de sábado, dia 10 de abril, no jornal O Globo, que mostra Barbara Heliodora sendo recebida no céu por um reverente senhor Shakespeare que beija-lhe a mão e diz: Thank you, Madam.

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