EDITORIAL – Porque escrevemos’?

Eduardo Galeano, o grande humanista e escritor uruguaio que ontem morreu, fazia esta pergunta – e respondia  que escrevemos devido à necessidade de comunicação e de comunhão com os outros, para denunciar o que dói e partilhar o que dá alegria. Escrevemos contra a própria solidão e contra a solidão dos outros. Acrescentamos – escrevemos contra a morte. A morte que ontem nos roubou Eduardo Galeano e Günter Grass.

Ontem, 13 de Abril, foi um dia negro para a cultura e particularmente para essa forma específica de cultura que designamos por Literatura. Dois grandes escritores morreram e, com eles, morreu uma parte da nossa inteligência colectiva, uma parte da nossa condição humana pereceu.  A Literatura é uma barreira, um contraforte muralhado com palavras e conceitos, barreira que a nossa espécie ergue contra a morte. Homero, Dante e Petrarca, Camões e Cervantes, mantiveram-se vivos até hoje e com eles a Humanidade sobrevive – a palavra é a nossa arma. Enquanto não inventámos a forma de a preservar, enquanto não pudemos registar por palavras o que ia sucedendo, tudo o que aconteceu foi como se não tivesse ocorrido. Não vamos aqui caracterizar a forma como estes homens conduziram a sua luta pela vida. Temos falado nelesImagem1 neste blogue e continuaremos a falar. Neles e noutros – entre estes dois grandes vultos da Literatura Universal, ergue-se uma outra – a de um português: José Saramago. Saramago, que foi editor e amigo de Grass e cordial adversário de Galeano. Com maneiras diferentes, pessoais, de iludir a velha inimiga, usaram as palavras como tijolos de fogo na construção da grande muralha contra o gelo da morte. A muralhaImagem3 da Utopia.

 

 Há dez anos, na cidade brasileira de Porto Alegre, realizou-se o Fórum Social Mundial, com a Utopia como tema central. Galeano defendeu esse direito que assiste aos homens em geral e aos criadores em particular – o de, arredando as teses religiosas, acreditar na sobrevivência da Humanidade e num futuro mais luminoso para os seres humanos. Saramago opôs argumentos pessimistas e discordou. Günter Grass parecia mais de acordo com o amigo português (para ele a III Guerra Mundial estava  já em curso). Independentemente dos argumentos, todos estes homens, com milhões de homens e mulheres em todo o mundo erguem com o fogo das palavras a muralha da Vida. Ontem duas luzes apagaram-se.

Mas a fogueira continua acesa.

 

 

1 Comment

  1. Obrigada, Carlos Loures!
    Você diz aqui o essencial sobre esse homem, Eduardo Galeano, tão parecido com a palavra que ele mesmo amava: entusiasmo, – “tener a los dioses adentro”. Engajado no Bem, no Belo e no Justo, seu exemplo há de perdurar e inspirar a todos que defendeu: jovens, mulheres, pobres, injustiçados e indignados. Com a doçura do claro azul de seu olhar visionário e lúcido, o mais progressista defensor da nossa triste humanidade não morre, pois deixa palavras, como você diz tão bem. Não perdemos ” la voz de nuestro Tiempo” porque ressoa e continuará a ressoar em nossas esperanças.
    Abraço solidário.

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