A ESPANHA EM SOFRIMENTO: PORQUE É QUE DEIXAR O EURO É O MENOR DE DOIS MALES – por MICHAEL PETTIS – II

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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A Espanha em sofrimento: porque é que deixar o euro é o menor de dois males

Michael Pettis, Spain in Pain: Why Leaving the Euro Is The Lesser of Two Evils: Michael Pettis

Pratclif.com

(continuação)

A economia Humpty Dumpty

A primeira maneira é que a Alemanha passe de balança corrente excedentária a balança corrente deficitária e comece mesmo a ter grandes défices. Isto é, de longe, a melhor maneira, mas acho que é muito pouco improvável. Berlim não tem dado nenhum sinal de que esteja disposta a fazer o que seria necessário para que passe a ter grandes défices, antes pelo continua a falar apenas sobre a necessidade de mais austeridade.

Em parte, isso ocorre porque a Alemanha tem potencialmente um enorme problema de dívida nas suas contas externas. Como consequência das suas políticas de reprimir o consumo durante a década de antes da crise, a taxa de poupança interna da Alemanha foi levada a atingir valores muito mais altos do que seriam alcançados se a realidade económica tivesse sido diferente, se a política sobre o consumo fosse diferente, e a Alemanha teve que exportar o excedente de capital. Não surpreendentemente, dada a dinâmica monetária europeia, este capital foi exportado em grande parte para o resto da Europa, a fim de financiar os défices na balança corrente da Europa periférica que correspondiam aos excedentes que a Alemanha, erradamente, tanto queria que crescessem.

Fê-lo não para acumular reservas em euro, o que ela não podia fazer de qualquer maneira, mas fê-lo sim para acumular empréstimos feitos à Europa periférica através do sistema bancário. Como resultado de todos estes empréstimos, a Alemanha está precisamente aterrorizada com a ideia de que possa haver uma onda de incumprimentos na Europa e com o medo que esta onda faça com que o seu próprio sistema bancário exija um resgate feito pelo Estado alemão, pois que nesta hipótese de incumprimentos e sem resgate estatal seria o próprio sistema financeiro alemão que entraria em colapso; face a este medo não quer cortar nos seus impostos e reduzir na poupança porque acredita (erroneamente) que a austeridade protege muito mais facilmente o valor dos seus créditos.

Mas as políticas de anti-consumo alemãs estão principalmente a conduzir a Alemanha para um problema da dívida da mesma forma que as políticas similares praticadas pelos Estados Unidos no final dos anos 20 criaram uma crise americana da dívida ao longo da década seguinte. Nesta perspectiva penso que as citações abaixo do então candidato presidencial Franklin Delano Roosevelt são muito esclarecedoras:

 Uma Alice perplexa e um pouco céptica colocou à direcção republicana algumas questões simples:

Porque não imprimir e vender mais acções e obrigações na base da construção de novas fábricas e com o aumento da nossa eficiência produzir mais bens do que aqueles que nós podemos comprar?

“Não”, gritou Humpty Dumpty, “ quanto mais nós produzimos mais nós podemos comprar.

 “O que acontece se produzirmos excedentes?”

“Oh, nós podemos vendê-los aos consumidores estrangeiros.”

 “Como é que os estrangeiros nos podem pagar esses bens?”

 “Ora, nós emprestamos-lhes o dinheiro.”

 “Estou a ver,” disse a pequena Alice, “ eles comprarão os nossos excedentes com o nosso próprio dinheiro. Claro, esses estrangeiros pagar-nos-ão então vendendo-nos os seus bens como contrapartida.”

 “Oh não, nada disso, “diz Humpty Dumpty. “Nós criaremos um enorme muro chamado pauta aduaneira, tarifa alfandegária, escolha o termo.”

 “E,” disse Alice por fim,” como é que os estrangeiros nos pagam esses empréstimos ?”

 “Isso é fácil, disse Humpty Dumpty. “Nunca ouviu falar em moratória?”

[E a rematar este exemplo, diz-nos Roosevelt:

E assim, meus amigos, nós alcançámos o coração da formula mágica de 1928. A absorção do excedente deve ser feita como disse anteriormente, alargando a nossa base produtiva [consumindo, investindo] em vez de o destruirmos pelos créditos concedidos.”]

O sentido de balança de pagamentos para Humpty, afinal, não é, de forma nenhuma mais ingénuo do que o sentido que dela têm muitos políticos europeus e suponho mesmo que a Alemanha vai seguir o precedente histórico criado pelos EUA – e por tantos outros países que confundem excedentes comerciais com vigor moral. Ao recusarem-se a tomar medidas que parecem à superfície poderem estar a minar a sua credibilidade, Berlim só garantirá a moratória sobre a dívida que provavelmente irá demolir a sua credibilidade de toda e qualquer maneira.

E é claro que sem uma grande inversão de posição daa balança corrente alemã a restrição da balança de pagamentos impede absolutamente que haja reembolsos líquidos feitos pela Europa periférica. Este jogo irá continuar, enquanto os países do núcleo da UEM continuarem a financiar a periferia, mas quando eles finalmente pararem, os países periféricos estarão quase que certamente na situação de incumprimento ou a terem que reestruturar a sua própria dívida.

Façamos um breve desvio antes de voltarmos à discussão sobre as três vias que a Espanha pode tomar, penso que Berlim está a apostar que, se puderem prolongar a crise durante muito tempo, enquanto vão fingindo que é um problema de liquidez e não de solvência, poderão então recapitalizar os bancos alemães (e outros bancos europeus) até ao ponto em que eles eventualmente sejam capazes de reconhecer o óbvio e assumir então as perdas. Isso era, afinal de contas, a estratégia seguida pelos EUA durante a crise dos países em vias de desenvolvimento da década de 1980, quando esperaram até 1989, sete ou oito anos após o início da crise, para organizarem o primeiro perdão de dívida formal (o Brady Bond mexicano). Durante esse tempo uma curva acentuada de rendimentos (a yield ) projectada pelo Fed permitiu aos bancos dos EUA terem lucros suficientes para se recapitalizarem até ao ponto em que poderiam finalmente poder, pelo menos no plano formal, reconhecer o que desde há muito era bem óbvio.

Há pelo menos duas razões no entanto pelas quais esta estratégia não pode funcionar para os bancos europeus. Primeiro, o buraco nas contas dos bancos europeus é espantosamente um buraco equivalente ao dos bancos americanos durante a crise dos países em vias de desenvolvimento. Levariam muito mais do que sete ou oito anos para corrigir o problema.

Em segundo lugar, adiar a resolução da crise da dívida é extremamente doloroso para os países devedores, que têm de suportar todo o peso do ajustamento que deveria ser assumido tanto pelos países devedores como pelos países credores. Isto reduz o espaço de manobra para a Europa porque o sistema político europeu é menos capaz do que o da América Latina durante a década de 1980 para se adaptar a este processo muito doloroso. Com as democracias a funcionarem bem, afinal, torna-se mais difícil para os banqueiros e para as elites forçarem o custo da adaptação a ser fundamentalmente suportado pela classe média e pelas classes trabalhadoras.

Esta também é a razão pela qual a Espanha não pode seguir a segunda das três vias descritas acima. O segundo caminho requer que a Espanha enfrente a enorme carga dos ajustamentos económicos que, na verdade, a Espanha e a Alemanha deveriam partilhar em conjunto. Os eleitores espanhóis, no entanto, não permitirão (e com razão) que Madrid force uma tal violência em termos do ajustamento económico sobre os seus cidadãos em nome de um ideal de “comportamento responsável” (ou seja, de permanecerem dentro do euro) quando esta permanência não é só errada mas também extremamente dolorosa.

O ajustamento exigirá que os preços e salários espanhóis sejam forçados à descida e substancialmente até que a Espanha possa inverter o diferencial de preços mais elevado em relação à Alemanha, do qual está a sofrer. Não é muito difícil saber como é que isso pode ser feito – temos muitos precedentes históricos a partir dos quais podemos imaginar como fazer. Para simplificar substancialmente, existem basicamente duas coisas que é preciso verificarem-se para forçar a uma baixa nos preços relativos. Primeiro, o desemprego deve permanecer muito alto e durante muitos anos para que os salários declinem, ou para subirem menos do que a inflação e o crescimento relativo da produtividade. Isto é claramente muito simples.

Em segundo lugar, deve haver alguma maneira de tratar o verdadeiro aumento da carga da dívida interna. Porquê? Porque existem duas vias através das quais os preços relativos podem ser forçados a descer, e essas duas vias resultam num verdadeiro aumento da carga da dívida. Em primeiro lugar, uma inflação na Alemanha pode exceder a inflação espanhola, e em segundo lugar, a Espanha pode deflacionar. Em ambos os casos o custo real da dívida deve aumentar substancialmente – no primeiro caso porque a inflação alemã a ser mais alta que a espanhola forçará as taxas de juros do euro a subir de modo que os custos de refinanciamento da Espanha irão exceder a sua taxa de crescimento interno enquanto que no último caso o custo da dívida deve aumentar porque a deflação aumenta automaticamente a carga real da dívida.

Como é que se pode lidar com o crescente peso da dívida? Normalmente fazemo-lo confiscando a riqueza das pequenas e médias empresas ou confiscando a poupança das classes médias, e geralmente podemos fazer até utilizar as duas práticas.

Assim, para a Espanha ajustar precisamos tanto do desemprego muito elevado e por muitos anos e precisamos igualmente de minar as classes médias. Qualquer política que requer uma enorme e injusta sobrecarga para os trabalhadores e para as classes médias é improvável vir a ser recompensada nas mesas de voto.

A enorme impopularidade do recém-eleito primeiro-ministro Mariano Rajoy, nesse contexto, não deve ser uma surpresa. Pessoalmente, escrevi no ano passado logo após a eleição que isto ia acontecer, embora pensasse que levaria um ano ou dois antes que a população realmente se começasse a virar contra ele e lhe tornasse impossível governar. Mas os espanhóis, desde os dirigentes das empresas até aos trabalhadores, estão furiosos com o governo de Rajoy e essa raiva continuará até que ambos os dois maiores partidos expulsem os seus dirigentes que continuam a exigir que a Espanha se comportam de maneira “responsável” ou então os partidos extremistas de linha mais difícil substituirão estes dois partidos tradicionais do arco do poder..

Coloco a palavra “responsável”, entre aspas, não porque me oponha ao comportamento responsável, mas sim porque a tentativa de apertar o orçamento e impor a austeridade em nome de querer permanecer no euro é apresentada como a atitude “responsável” a tomar. Isto, no entanto, não é mais responsável do que as políticas que a França utilizou na década de 1920 para revalorizar o franco até à paridade de antes da guerra, decisão que também foi vendida ao povo francês, como a atitude “responsável” a dever ser tomada.

Em ambos os casos (e em muitos outras tentativas delirantes para proteger moedas desesperadamente sobrevalorizadas e sustentadas pelo aumento da dívida eterna), os decisores não compreendiam que as suas políticas tinham apenas como garantia o irem falhar e até porque estavam baseadas num enorme mal-entendido sobre as causas subjacentes à crise A atitude responsável a tomar é a de reconhecer que o euro é indefensável e que a recusa da Alemanha em partilhar o fardo do ajustamento, depois de ter absorvido a maior parte dos benefícios da posição monetária incoerente que impôs ao resto da Europa, significa que a Espanha será forçada a pagar muito mais do que a sua parte do respectivo custo.

Mas concordem todos ou não com a minha análise do que realmente é o comportamento “responsável”, penso que a maioria das pessoas vai concordar que, com ou sem razão, os eleitores espanhóis não estão disponíveis para aceitar o desemprego elevado e um assalto à poupança da classe média por muitos anos sem que se isso não se veja bem nas urnas. A Espanha, simplesmente não pode aceitar o fardo completo do ajustamento.

Isto significa que as primeiras duas vias dos três trajectos acima citados não podem ser seguidos. Se estou certo, somos forçados automaticamente a tomar o terceiro caminho. A Espanha (e por extensão muitos outros países) devem sair do euro. Será muito doloroso e caótico para eles abandonarem o euro, mas quanto mais cedo o fizerem, menos dolorosa será a sua saída.

(continua)

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Michael Pettis, Spain in Pain: Why Leaving the Euro Is The Lesser of Two Evils, texto disponível em:

http://pratclif.com/mpettis/mpettis2.htm

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Para ler a Parte I deste trabalho de Michael Pettis, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

http://aviagemdosargonautas.net/2015/04/14/a-espanha-em-sofrimento-porque-e-que-deixar-o-euro-e-o-menor-de-dois-males-por-michael-pettis-i/

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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