A GALIZA COMO TAREFA – Pampooties – Ernesto V. Souza

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George Pickow, 1952 : Peter Phatch Faherty sitting on the ground putting holes in cow hide to make pampooties, Inishmore, Aran Islands

Aquele observador delicado de pessoas, sucessos, momentos e sombras que foi John M. Synge, deixou no seu contar das ilhas do arquipélago de Aran, toda uma escola literária, e neste primeiro ensaio da sua prosa madura um dos alicerces da moderna literatura irlandesa.

As casas, a chuva, o vento, as pedras, o mar, as cores, as gentes, os vermelhos das saias das mulheres, os pardos e brancos dos homens, as conversas nas cozinhas e no trabalho tomadas “ao natural” e reproduzidas em intensos e breves flashes de instantânea, conferem à escrita do encantador solitário, uma credibilidade e um ritmo magistral.P103401

Em finais da década de 1890, as ilhas cinzentas e esmeralda, da Baía de Galway, apresentavam uma rusticidade e frágil dependência, uma imagem de desolação e primitivismo, e ao mesmo tempo um atrativo de pureza étnica e conservação do idioma que cumpria resgatar, divulgar, mitificar e dar uso, convertendo-se até hoje num espaço natural de aprendizado do gaélico.

Caminhadas dos eruditos europeus à moda, etnógrafos e filólogos, armados de caderno e dispostos a gravar na memória a cantiga, o dito, a palavra, o tom e os elementos lexicais, fonéticos e morfológicos com que dar testemunho e refazer uma língua.

Primeiro Yeats,P103407 entusiasta, e depois por cinco verãos Synge, foram pioneiros nesta recuperação e ensaio de imersão, num espaço e momento em que ainda ecoava a queda de Parnell e se temiam as consequências do choque naval para o comércio transatlântico entre os nascentes Estados Unidos e o crepuscular Império Espanhol.

Notas e anedotas, cenas, descrições, entre as quais destaca quase no início a dos sapatos crus que empregam os habitantes e que Synge, por causa dos afiados croios que lhe esgaçam as botinhas de cavaleiro, é obrigado a usar.

Consistiam, diz “num simples troço de coiro de vaca, com a pele volta, atado sobre o pé e arredor do tornozelo, com linha grossa de pescar que passa por uns buracos ”.

No uso deste calçado primitivo, mais adequado ao terreno, calçado sobre grossas peúgasP103509 de lã, a choutar pelas pedras e caminhar as areias e caminhos de terra, sentindo e usando as dedas, Synge descobre logo o caminhar natural, a ritmo, dos paisanos, abandonando pouco a pouco o aprendido com o peso no calcanhar das pesadas botas europeias.

Sentimos como reflete, mas ele não diz, nunca explicita, ou conclui, apenas descreve. Mas quem lê dos pés pode ler da língua que vai aprendendo aos poucos, para abandonar os pesados entraves e reaprender outra forma mais natural.

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