EDITORIAL – Mudar a vida e transformar o mundo?

logo editorialMudar a vida e transformar o mundo, dois objectivos que o século XIX nos legou pelas vozes de um rapazito francês e de um barbudo alemão, continuam a ser metas por alcançar. O jovem deixou-nos um mapa poético que ensinava a descer ao Inferno e a regressar purificado, enquanto o barbaças nos traçou um itinerário que ia das trevas de minas e insalubres naves industriais, onde máquinas a vapor marcavam o ritmo cardíaco, ao prado verdejante de uma terra sem amos. Os mapas estavam errados?

Os episódios das candidaturas às eleições presidenciais alimentam a fome de falsa informação que caracteriza o jornalismo moderno – a notícia não tem de noticiar ou seja, de informar – a notícia tem de alimentar a curiosidade. Vários candidatos vão sendo revelados, esgrimem-se argumentos, pró e contra, indicam-se apoios… Discute-se tudo, menos o essencial – e o essencial não é quem vai ganhar. Sem prejuízo de reconhecermos que, por exemplo, entre Cavaco Silva e Henrique Neto ou Sampaio da Nóvoa, há diferenças muito grandes e que é quase impossível que entre os putativos candidatos surja alguém pior do ponto de vista cultural, alguém que possa ser menos indicado para o cargo do que o actual presidente, o importante ou o mais importante seria mudar as regras do jogo. Um presidente sério e digno não poderá coabitar com um governo de gente incapaz, de serventuários do poder económico, de rapazes e raparigas vindos das «canteras» do PSD, do CDS ou do PS.

Um presidente sério e digno à partida e que queira durante o mandato manter a seriedade e a dignidade, coabitando com um governo saído do actual leque partidário, terá de renunciar ao cargo. Não há possibilidade de conciliar honradez com a prática de um pragmatismo que outra coisa não é do que a aceitação de negociatas. E repetimos o exemplo de um obscuro deputado do Partido Socialista que condena a candidatura do ex-reitor da Universidade de Lisboa , acusando-o de fazer o elogio da pobreza . E depois de achincalhar a «demagogia venezuelana do Podemos e de tentar ridicularizar o ex-presidente do Uruguai , termina com a frase «Esta não é a minha esquerda». Qual será a esquerda deste energúmeno? A que estado chegou o PS para que todos os princípios que configuram o ideal socialista sejam traídos por gente sem honra e que faz da política um pinhal da Azambuja onde a arte de furtar é promovida a valor essencial? E a traição seja promovida a valor, sendo a dignidade considerada um pecado?

Do socialismo, estes senhores conservaram apenas o nome. Aquilo que estes políticos corruptos fizeram, em termos comerciais é designado por uma «usurpação de marca». Com este passe de mágica, prepararam o socialismo para os novos tempos: pegaram na embalagem e meteram-lhe dentro um produto diferente. São pragmáticos. Alain Touraine:, define-os bem «Os que são proprietários do socialismo como se duma marca comercial se tratasse já não sabem em nome do que é que falam; reduzem a politica à táctica; tornam-se estranhos à vida das ideias. São padres pretensiosos de uma religião sem fiéis».

Sem fiéis, mas com muitos cúmplices.

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