A ALEMANHA, O SEU PAPEL NOS DESEQUILÍBRIOS DA ECONOMIA REAL- O OUTRO LADO DA CRISE DE QUE NÃO SE FALA – UMA ANÁLISE ASSENTE NA DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO[1] – VII – A ENORME FORÇA DE MERCADO DA ALEMANHA E OS SEUS MECANISMOS – por ONUBRE EINZ – 2

Temaseconomia1 Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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A Alemanha, o seu papel nos desequilíbrios da economia real- o outro lado da crise de que não se fala

Uma análise assente na divisão internacional do trabalho[1]

Uma colecção de artigos de Onubre Einz.

VII – A enorme força de mercado da Alemanha e os seus mecanismos

Onubre Einz, L’irrésistible puissance commerciale de l’Allemagne et ses ressorts

Criseusa.blog.lemonde.fr., 23 juin 2013

(continuação)

A – O grupo dos países do leste (Hungria, Polónia; República Checa)

A análise dos esforços produtivos é feita ligando as componentes dos investimentos brutos ao PIB. É a maneira mais conveniente para comparar a acumulação de capital na Alemanha e nos países do leste.

Os equipamentos (F) são compostos por duas variáveis: máquinas e equipamentos de transporte (F) e máquinas e elementos metálicos (E). O capital produtivo propriamente dito consiste em máquinas e elementos metálicos. É necessário acrescentar os imóveis do sector produtivo (C).

Onubreinvestimento - VII

A análise dos esforços de equipamento mostra duas coisas:

1 ° os esforços da Alemanha estão próximos dos esforços da média europeia (UE-27) que se distinguem ligeiramente desde 2005.

2 ° entre os três países de Leste, a Hungria e a República Checa têm feito consideráveis esforços de investimento em equipamento.

Pode ser a grande surpresa neste gráfico: a Alemanha depois de 2000 não fez muito melhor que a Polónia, que é a economia menos integrada na divisão regional do trabalho implementado pela Alemanha.

Onubreinvestimento - VIII

A análise do núcleo central de qualquer sistema produtivo, máquinas e de elementos metálicos, confirma as análises anteriores. A República Checa e a Hungria fizeram esforços de investimento significativamente maiores do que aqueles que fez a Alemanha, que aparece perto da média europeia. Por ordem crescente de esforço, ela encontra-se distanciada pela Polónia, a Hungria e a República Checa.

O fosso entre a Alemanha e os países que estão na sua esfera de influência económica é, pois, flagrante. Esta diferença é ainda tanto mais marcada quanto a Alemanha desde 2000 tem investido em máquinas e bens de equipamentos em detrimento de bens imobiliários residenciais.

Onubreinvestimento - IX

Esta escolha desfavorável ao imobiliário empresarial é particularmente sensível sobre este terceiro gráfico. O imobiliário das empresas alemães está abaixo da média europeia e dos investimentos da Polónia, Hungria e da República Checa.

Onubreinvestimento - X

A única área onde a Alemanha ocupa o mesmo nível que esses seus vizinhos da Europa Oriental e da UE-27 é a que é constituída pelos meios de transporte. Mas os esforços que a Alemanha realizou estão ultrapassados pelos que foram feitos pela pequena República Checa.

O primeiro conjunto de gráficos acima mostram que a Alemanha não é em nada uma super-potência cujo investimento produtivo é excepcional. A comparação do seu esforço de investimento produtivo com o dos seus vizinhos levou-nos a defender a tese seguinte: a Alemanha foi capaz de negligenciar um intenso investimento produtivo através do esforço produtivo feito pelos seus vizinhos europeus orientais de que ela se aproveitou, colocando-se numa situação de montagem final. Isto explica que as taxas de investimento da Alemanha possam ser tão baixas ou pelo menos longe do peso do seu comércio na Europa e no mundo.

Devem ser estabelecidas um certo número de conclusões: as performances empresariais alemãs teriam sido muito menores se a Alemanha tivesse que contar somente sobre o Made In Germany. Ao dumping de salários mais baixos, deve-se adicionar um dumping do investimento de que não foi a Alemanha a suportá-lo. A competitividade da Alemanha resultou da moderação salarial e das vantagens resultantes de um esforço produtivo mais importante feito por estes países subcontratados.

A análise dos gráficos 1,2,3,4 mostra também que as taxas de acumulação alemãs são demasiado fracas para explicar o peso crescente da Alemanha no comércio mundial. Insistimos já num texto anterior sobre o facto que a Alemanha registou resultados comerciais modestos na Ásia e na América Latina, e estes resultados teriam sido ainda mais medíocres se a Alemanha não tivesse beneficiado dos esforços produtivos dos países que lhe estão subordinados economicamente. Os resultados da Alemanha na Europa e fora da Europa são por conseguinte inseparáveis de esforços produtivos não-alemães que a Alemanha soube pôr a funcionar para seu próprio proveito. Retornaremos a este ponto quando examinarmos a maneira como funciona uma economia alemão fortemente adaptada ao modelo americano.

Onubreinvestimento - XI

A análise do crescimento das produtividades horárias é um dos mais interessantes. A progressão da produtividade horária da Alemanha alinha-se sobre a média europeia desde 2000. Os dados não são disponíveis para os anos anteriores. O que é interessante em contrapartida é verificar que os investimentos muito importantes feitos nos nossos três países do Leste provocaram um crescimento da produtividade horária que alcançou o nível de progressão da produtividade do trabalho durante o período de 1993-2005. Desde esta data, a Hungria tem tido um comportamento igual ao da Alemanha, a Polónia e a República Checa fazem melhor que ela.

Se nos lembrarmos que o crescimento da produtividade horária é constituído pelo aumento do valor das mercadorias produzidas por hora de trabalho, chega-se ao centro da análise deste trabalho. Os investimentos nacionalmente intensivos na Polónia, na República Checa e na Hungria tiveram como efeito aumentar o valor produzido nestes três países. Este valor não foi pago inteiramente pela Alemanha que teve um esforço produtivo nacionalmente mais fraco, este fenómeno explica-se pelas razões seguintes: o valor produzido sob a égide de By Germany aproveitou-se por um lado dos efeitos normais da subcontratação numa cadeia de produção de mercadorias e de valor. É o elemento final da cadeia, quem monta e conclui o produto final, que determina o preço pago aos subcontratantes. O pagamento das peças montadas in situ germânico é tanto mais vantajoso quanto o pagador dispõe de uma divisa forte: o Euro.

O não-pagamento do valor dos produtos pelo país que conclui o processo de produção, o país montador, traduz-se por uma realidade muito simples: por uma diferença de esforço de investimento e dos salários existentes entre estes países e a Alemanha assim como pelos elementos de produção que não são pagos aos preços alemães enquanto que o produto montado é vendido a um preço compatível com os preços de concorrência do Made in Germany. O mesmo é dizer, todos os benefícios são para a Alemanha. É muito benefício para a Alemanha.

Podemos completar a análise do Made in By quando uma produção é feita inteiramente fora da Alemanha por conta de uma empresa alemã: se este produto é um produto realizado fora da Alemanha, é no final a gestão dos lucros pelas sociedades alemãs que permite beneficiar dos esforços de investimentos do país de produção e das diferenças de salário com a Alemanha. Que os capitais sejam alemães muda pouco nesta repartição de lucros.

A lógica do Made by Germany permite assim à Alemanha adicionar a uma competitividade produto indiscutível, uma competitividade preço notável e que a moderação salarial alemã acentua. A força da Alemanha é de ter conseguido não suportar a carga de investimentos produtivos que em parte delega aos outros países, tirando sempre proveito de uma divisão regional do trabalho que ela própria organiza produtiva e monetariamente para seu próprio proveito.

(continua)

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Ver o original em:

http://criseusa.blog.lemonde.fr/2013/06/23/iv-lirresistible-puissance-commerciale-de-lallemagne-et-ses-ressorts/

Para ler a parte 1 deste trabalho de Onubre Einz, A enorme força de mercado da Alemanha e os seus mecanismos, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

A ALEMANHA, O SEU PAPEL NOS DESEQUILÍBRIOS DA ECONOMIA REAL- O OUTRO LADO DA CRISE DE QUE NÃO SE FALA – UMA ANÁLISE ASSENTE NA DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO[1] – VII – A ENORME FORÇA DE MERCADO DA ALEMANHA E OS SEUS MECANISMOS – por ONUBRE EINZ – 1

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