DISCURSO de URSULA LE GUIN em NOVEMBRO de 2014, ao receber a MEDALHA da FUNDAÇÃO NACIONAL do LIVRO, por CONTRIBUIÇÃO NOTÁVEL para a LITERATURA NORTE-AMERICANA

 

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Ursula K. Le Guin’s Website

Speech in Acceptance of the National Book Foundation Medal for Distinguished Contribution to American Letters

To the givers of this beautiful reward, my thanks, from the heart. My family, my agents, my editors, know that my being here is their doing as well as my own, and that the beautiful reward is theirs as much as mine. And I rejoice in accepting it for, and sharing it with, all the writers who’ve been excluded from literature for so long — my fellow authors of fantasy and science fiction, writers of the imagination, who for fifty years have watched the beautiful rewards go to the so-called realists.

Hard times are coming, when we’ll be wanting the voices of writers who can see alternatives to how we live now, can see through our fear-stricken society and its obsessive technologies to other ways of being, and even imagine real grounds for hope. We’ll need writers who can remember freedom — poets, visionaries — realists of a larger reality.

Right now, we need writers who know the difference between production of a market commodity and the practice of an art. Developing written material to suit sales strategies in order to maximise corporate profit and advertising revenue is not the same thing as responsible book publishing or authorship.

Yet I see sales departments given control over editorial. I see my own publishers, in a silly panic of ignorance and greed, charging public libraries for an e-book 6 or 7 times more than they charge customers. We just saw a profiteer try to punish a publisher for disobedience, and writers threatened by corporate fatwa. And I see a lot of us, the producers, who write the books and make the books, accepting this — letting commodity profiteers sell us like deodorant, and tell us what to publish, what to write.

Books aren’t just commodities; the profit motive is often in conflict with the aims of art. We live in capitalism, its power seems inescapable — but then, so did the divine right of kings. Any human power can be resisted and changed by human beings. Resistance and change often begin in art. Very often in our art, the art of words.

I’ve had a long career as a writer, and a good one, in good company. Here at the end of it, I don’t want to watch American literature get sold down the river. We who live by writing and publishing want and should demand our fair share of the proceeds; but the name of our beautiful reward isn’t profit. Its name is freedom.

Thank you.

Ursula K. Le Guin

November 19, 2014

This text may be quoted without obtaining permission from the author, or copied in full so long as the copyright information is included:

Copyright © 2014 Ursula K. Le Guin

 Tradução por João Machado

Aos responsáveis pela atribuição desta bela recompensa, os meus agradecimentos, de todo o meu coração. A minha família, os meus agentes, os meus editores, sabem que se consegui chegar aqui, foi tanto graças a eles como a mim própria, e que esta bela recompensa pertence tanto a eles como a mim. E eu sinto-me feliz ao aceitá-la, e partilhá-la, com todos os escritores que têm sido excluídos da literatura há tanto tempo – os meus companheiros autores de histórias fantásticas e de ficção científica, escritores da imaginação, que desde há cinquenta vêem estas belas recompensas irem parar aos que se auto-intitulam de realistas.

Vêm aí tempos difíceis, em que vamos querer ouvir as vozes de escritores que possam visionar alternativas à maneira como actualmente vivemos, possam avistar para além da nossa sociedade paralisada pelo medo e das suas tecnologias obsessivas outras maneiras de ser, e mesmo imaginar fundamentos reais para a esperança. Vamos precisar de escritores que consigam lembrar-se da liberdade – poetas, visionários – realistas de uma realidade maior.

Agora mesmo, precisamos de escritores que conheçam a diferença entre a produção de um artigo transaccionável e a prática de uma arte. Elaborar material escrito para satisfazer estratégias de venda adequadas à maximização dos lucros das grandes corporações e dos rendimentos publicitários não é o mesmo que edição ou autoria responsáveis.

Contudo continuo a ver ser atribuído a departamentos de vendas o controlo do trabalho editorial. Vejo os meus próprios editores, tomados de pânico por desconhecimento ou ganância,  levarem a uma biblioteca pública por um e-book seis ou sete vezes mais do que aos outros fregueses. Vimos mesmo um aproveitador tentar castigar um editor por desobediência, e escritores serem ameaçados por uma fatwa corporativa. E eu vejo muitos de nós, os produtores, que escrevemos e fazemos os livros, a aceitarem isto – consentindo que aproveitadores do que tem valor nos vendem como a desodorizante, e nos ditem o que vamos publicar, o que vamos escrever.

Os livros não são apenas bens transaccionáveis; o objectivo do lucro entra muitas vezes em conflito com os fins da arte. Vivemos no capitalismo; o seu poder parece inescapável – mas o poder divino dos reis também aparentava o mesmo. Qualquer poder humano pode ser contrariado e mudado por outros seres humanos. A resistência e a mudança muitas vezes começam pela arte. Muitas, muitas vezes pela nossa arte, a arte das palavras.

A minha carreira como escritora foi longa, muito boa, em boa companhia. Agora, que cheguei ao fim, não quero ver a Literatura Americana a saldos por esse rio abaixo. Nós que vivemos de escrever e publicar queremos e devemos exigir a nossa justa parte do produto; mas o nome da nossa bela recompensa não é o lucro. O nome é liberdade.

Obrigado

Ursula Le Guin

19 de Novembro de 2014

 

Veja o discurso no youtube, com upload da National Book:

Obrigado à Ana Cristina Silva, graças a quem pudemos conhecer este discurso da Ursula Le Guin. Para saber mais sobre esta escritora vá a:

http://www.ursulakleguin.com/

http://www.theguardian.com/books/2014/nov/20/ursula-le-guin-wizardry-is-artistry-interview-national-book-awards

 

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