ESCRITOS NA AREIA – O SOUTIEN MENTAL – por António Mão de Ferro

escritos na areia

O que se faz, diz ou pensa, nem sempre coincide com o que os outros entendem, oupensam. A propósito aqui fica o resumo de um conto de Italo Calvino inserido no livro cujo título é Palomar e que tem como protagonista o senhor Palomar.

“O senhor Palomar caminha ao longo de uma praia solitária. Uma mulher jovem está escondida na areia, a apanhar sol com os seios descobertos.

Ele sabe que nessas circunstâncias quando um desconhecido se aproxima as mulheres apressam-se a cobrir-se. Não a quer importunar e assim que a vê à distância faz com que a trajetória do seu olhar permaneça suspensa no vazio.

Porém enquanto caminha vai pensando que procedendo assim reforça a convenção que considera ilícita a vista do seio, instituindo assim uma espécie de soutien mental entre os seus olhos e aquele peito.

Regressado do seu passeio Palomar volta diante da banhista mas desta vez mantém o olhar fixo de modo que este aflore com imparcial uniformidade a espuma das ondas, os cascos dos barcos, a toalha estendida na areia, a pródiga lua cheia de pele mais clara com a aureola castanha do mamilo.

Vai pensando, consegui fazer com que o seio fosse completamente absorvido pela paisagem e que o meu olhar não tivesse mais peso do que o de uma gaivota ou de um badejo.

Mas, refletia Palomar. Não será isso rebaixar a pessoa humana ao nível das coisas? Não estarei eu a perpetuar o velho hábito da supremacia masculina?

Volta-se e regressa. Agora obriga o seu olhar a percorrer a praia com imparcial objetividade. Logo que o peito da mulher entre no seu campo visual, fazum desvio e fica a pairar no ar, descrevendo uma curva que acompanha o relevo do seio a uma certa distância de forma evasiva, mas simultaneamente protetora. Assim diz Palomar, não há qualquer possibilidade de haver mal entendidos.

Mas … não será isto subestimar o seio e relega-lo para a penumbra em que foi mantido por séculos?

Faz meia volta. Desta vez o seu olhar deter-se-á sobre os seios com especial atenção, mas apressar-se-á a considera-los como parte de um arrebatamento de benevolência e de gratidão pelo todo, pelo sol e pelo céu,pelos pinheiros inclinados, pela duna e a areia e os escolhos e as nuvens e as algas, pelo cosmos que gira em torno daqueles cumes aureolados.

Mas quando ele se volta a aproximar, ela levanta-se de repente, cobre-se respira com ar de enfado, afasta-se e encolhe enfastiadamente os ombros como se estivesse a fugir às insistências de um sátiro.

Então amargamente Palomar conclui que o peso morto de uma tradição de maus costumes não permite que se aprecie com a devida justiça, as intenções mais iluminadas.”

Um incompreendido, como tantos outros!

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