SINAIS DE FOGO -ARY – POETA E CIDADÃO DE ABRIL E MAIO* – por Soares Novais

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Evocar Ary, hoje, é resgatá-lo à sua campa rasa no cemitério do Alto de S. João.

Evocar Ary, hoje, é lembrar o Poeta que sentenciou sobre si próprio: “… Serei tudo o que disserem/por temor ou negação: Demagogo mau profeta/Falso médico ladrão/Prostituta proxeneta/Espoleta televisão./Serei tudo o que disserem:/Poeta castrado não!”. (1)

Evocar Ary, hoje, é falar de um Poeta e Cidadão de Abril e Maio que em 1969 fintou os coronéis da Censura e colocou um país inteiro a cantar com Simone de Oliveira: Corpo de linho/lábios de mosto/meu corpo lindo/meu fogo posto./Eira de milho/luar de Agosto/quem faz um filho/fá-lo por gosto./ É milho-rei/milho vermelho/cravo de carne/bago de amor/filho de um rei/que sendo velho/volta a nascer quando há calor.” (2)

Evocar Ary, hoje, é falar de um Poeta e Cidadão de Abril e Maio que em 1973, através da voz de Fernando Tordo, anunciou: “Com bandarilhas de esperança/afugentamos a fera/estamos na praça da Primavera./Nós vamos pegar o mundo/pelos cornos da desgraça/e fazermos da tristeza graça.” (3)

Evocar Ary, hoje, é falar de um Poeta “…que se origina a si mesmo/que numa sílaba é seta/noutra pasmo ou cataclismo/o que se atira ao poema/como se fosse ao abismo./Original é o poeta capaz de escrever em sismo…” (4)

Evocar Ary, hoje, é trazer à lembrança as palavras que espalhou por mais de 600 canções e 20 livros (e relembrar as três linhas que integram a sua poesia: a lírica, a satírica e a de intervenção).

Evocar Ary, hoje, é lembrar o “poeta do povo”, pois para ele “a poesia, é em primeiro lugar, a maneira que eu tenho de falar com o meu povo. Depois é por causa desse povo, a própria razão da minha vida. É pesquisa, luta, trabalho e força”. (5)

 Evocar Ary, hoje, é relembrar um valoroso soldado da Língua Portuguesa; (um general da genialidade que se recusou a ficar entre as quatro paredes da sua casa da Rua da Saudade e que, por assim ter decidido, percorreu centenas de aldeias, vilas e cidades a disparar poemas pesados e canções ligeiras.)

Evocar Ary, hoje, é (re)lembrar um trovador e um grande poeta português. Com invenção verbal e coluna vertebral. Erudita e popular. Tendo a boa companhia de Bocage, Junqueiro, Aleixo, Brecht e O’Neill. (ou seja: de porta-vozes do Verbo e da Consciência Contra a Poesia da Resignação. (6)

Evocar Ary, hoje, é prestar homenagem a um Poeta que, por razões políticas e académico-literárias, alguns querem esconder numa gaveta da história da literatura portuguesa (literatura portuguesa que cada vez mais só tem lugar para quem embrulha as palavras em papel de celofane, que a generalidade das editoras enfiam em vistosos pacotes disfarçados de livros).

Evocar Ary, hoje, é impedir que calem a sua voz. É impedir que calem uma das vozes que nos ensinou a cantar Abril. E nós bem precisamos dela, da sua voz. (sobretudo, agora, neste tempo de retrocesso de conquistas democráticas e civilizacionais, num país que tem um governo duro com os mais fracos e mole com os mais poderosos).

Evocar Ary, hoje, é justiciar um filho da alta burguesia lisboeta que preferiu ser um aristocrata da Rebeldia e da Camaradagem.

Evocar Ary, hoje, é lembrar que, depois de abandonar o conforto da casa paterna, por decisão própria, o Poeta exerceu vários e modestos ofícios no ofício de sobreviver.

 Evocar Ary, hoje, é (re)lembrar o Publicitário, excelente, a quem os empresários tiveram de recorrer para revolucionar o discurso social dos produtos, mas a quem Ary nunca prestou vassalagem. (“…Aqui ninguém me diz /quando me vendo/a não ser os que eu amo/ os que eu entendo/ os que podem ser tanto como eu.”(7)

Evocar Ary, hoje, é pedir-lhe que continue a nosso lado a “pegar o mundo/pelos cornos da desgraça”;

Evocar Ary, hoje, é convocá-lo para as lutas de hoje e os combates de amanhã.

 Evocar Ary, hoje, é garantir-lhe que continuaremos a disparar os seus poemas pesados contra um sistema criminoso:

 – que dita a morte de cinco crianças por fome, a cada minuto, no mundo;

– transforma o Mediterrâneo num mar de cadáveres de homens, mulheres e crianças que fogem à miséria extrema e à guerra em África;

– que produz milhões de sem-terra no Brasil;

– e milhões de sem-abrigo na velha Europa entregue a indignos governantes;

– e pretos pobres assassinados pelas balas de polícias brancos nos Estados Unidos;

– Um sistema que esmaga o povo Palestiniano contra o muro da vergonha na Faixa de Gaza.

E é jurar-te, Ary, que aqui na tua e nossa mátria, por mais que alguns queiram, ninguém cerrará “As Portas Que Abril Abriu”.

Viva Ary. Poeta/Cidadão de Abril e Maio.

Viva o 25 de Abril!

(1 ) Excerto do poema “Poeta Castrado, Não!”. RESUMO, Edição de Autor, Lisboa, 1972, p.13. Distribuição da Livraria Quadrante.
 (2) Primeiro verso da “Desfolhada Portuguesa”, canção vencedora do Festival da Canção RTP/1969, interpretada por Simone de Oliveira e que representou o nosso país no Festival da Eurovisão, que nesse ano se realizou em Madrid. No regresso da capital espanhola, e segundo testemunho da cantora, “as pessoas apareciam nas estações de comboio, manifestando-se com espigas vermelhas” (sessão de homenagem a Ary, Livraria-Galeria de Arte Arca das Letras, Gondomar, 17 de Janeiro de 2004)
(3) Excerto de “Tourada”, canção vencedora do Festival RTP /1973, letra de Ary dos Santos e música de Nuno Nazareth Fernandes, interpretada por Fernando Tordo.
(4) Excerto de “O Poema Original”.. RESUMO, Edição de Autor, Lisboa, 1972.
(5) O Poeta morreu a voz continua, in Diário de Notícias (Suplemento de Domingo), colectânea de textos, a partir de entrevistas, Lisboa, 22 de Janeiro de 1984, pp. 38-40.
(6)Príncipe, César in “Poemas de Megafone”, Edição Seara de Letras, Porto, Abril de 2011
(7)Excerto de Soneto Presente.

 Soares Novais – Intervenção realizada na Biblioteca de Fânzeres (Gondomar) no dia 23 de Abril de 2015

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