Pelo que ele próprio conta à Agência Ecclesia, Miguel Silva, 43 anos de idade, de uma paróquia em Santa Maria da Feira, emigrante com emprego garantido, nasceu no seio de uma família pobre. Gostava de ser padre, mas os estudos eram dispendiosos. A família não podia suportá-los. Acabou por deixar o gosto de lado. Sem o chegar a concretizar, nem mesmo quando começou a dispor de alguma autonomia financeira. Entretanto, cresceu praticamente na igreja da paróquia – grupo coral, catequese, acólito. Até fundou o grupo de acólitos. Para um frustrado aspirante a padre/sacerdote, não presbítero da igreja-movimento clandestino de Jesus, o camponês-artesão de Nazaré, o filho de Maria, sem dúvida, uma opção/vocação muito mais arriscada, conflituosa, esse era, obviamente, o ambiente quotidiano mais recomendado. Envenenado, diga-se, não vá alguém pensar que é um ambiente saudável. Não é. Sobretudo, para a mente-consciência de quem o frequenta. Assim Miguel cresceu, mas sempre com aquele sonho de um dia, sair da vulgar condição de leigo-ajudante de missa, passar a presidir ao altar, ser o dono-disto-tudo, na paróquia ou paróquias que o bispo da diocese lhe viesse a confiar. Lá de cima, do altar, com as leigas, os leigos, pagantes, a seus pés, o mundo seria, fatalmente, visto de outra maneira por ele. Seria enorme a sua satisfação pessoal, ao passar a fazer no altar, as vezes de Cristo Sacerdote!!!.
Nunca na paróquia lhe terão dito que é também do alto do pináculo do Templo da “cidade santa”, Jerusalém – quando ainda havia templo, até ser derrubado no ano 70 pelas tropas do império romano – que o Diabo tenta Jesus, “Se és o ffilho de Deus, lança-te daqui abaixo, pois está escrito, «Dará a teu respeito ordens aos seus anjos; eles suster-te-ão nas mãos, para que os teus pés não se firam nalguma pedra». Só que Jesus, o filho de Maria, nado-criado em Nazaré, não vai nessa conversa fiada do Poder/Diabo e dá-lhe um nega absoluto. Irrevogável. Nada, ninguém o fará sair da sua condição de ser humano, a crescer de dentro para fora em idade, estatura, sabedoria, graça, até entregar a sua Ruah/Espírito maiêutico ao mundo. Na cruz do império romano, a que foi condenado pelos sumos-sacerdotes, precisamente por se ter recusado a sair da sua condição de ser humano, para se assumir como o Cristo, filho de David, coisa, a seus olhos, mais do que boba, mais sem jeito, toda anti-humanidade, anti-Deus Abba-Mãe, dele e de todos os povos por igual. Entretanto, tudo aquilo que depois de Jesus expirar, vieram a fazer com o seu nome, já não é da sua responsabilidade. Mas da responsabilidade de Pedro, que o negou por três vezes, o líder do grupo dos Doze que também o traíram. Também da responsabilidade de Tiago, irmão carnal de Jesus, que teve Jesus por “louco”. Anda da responsabilidade de Paulo de Tarso, o perseguidor de Jesus, e de Constantino, imperador, o primeiro papa de Roma! Uma traição sem perdão, que, desde então, tanto tem prejudicado a Humanidade, o planeta Terra. A história está aí a gritá-lo aos quatros ventos.
A notícia sobre Miguel surge na Ecclesia como um estímulo mais, à chamada “Semana de Oração pelas Vocações”, a realizar domingo 26 de Abril. Entendida pelos seus promotores, como semana das vocações a clérios-sacerdotes, a frades, freiras, com a exclusão, pelo menos, o silenciamento, da vocação ao matrimónio, realizado por duas pessoas que se amam, qualquer que seja a sua tendência sexual, mulher com homem, mulher com mulher, homem com homem. Para esta dimensão profundamente humana, não há, pelos vistos, “vocação”. Tão pouco, uma Semana de Oração pelas vocações matrimoniais. Houvesse, fosse reiteradamente anunciada, despertada-estimulada nas paróquias e, certamente, Miguel Silva, ao crescer em anos, longe de qualquer seminário diocesano ou de qualquer congregação religiosa masculina – as mulheres estão, à partida, excluídas do chamado sacerdócio, o que é bom, uma vez que também Jesus nunca foi sacerdote, ainda que o cristianismo paulino o apresente, depois da morte na cruz, como o “sumo-sacerdote”, inclusive, o único sacerdote – provavelmente, hoje, já com 43 anos de idade, seria um homem casado, pai de filhas, filhos.
Como nas paróquias, também na que foi dele, nunca se “reza pelas vocações matrimoniais”, só pelas vocações sacerdotais, para celibatários à força de uma lei eclesiástica, pelas vocações religiosas femininas e masculinas, com voto de castidade, de obediência, de pobreza, Miguel lá acabou por desistir de ser sacerdote, mas não de ser, pelo menos, religioso, numa congregação religiosa, ou instituto, ou mosteiro. Frustrado, desde a infância, por ser um “leigo”, um ninguém, a ter de viver num tipo de mundo, onde os povos das nações estão a passar inúmeras, inenarráveis dificuldades a todos os níveis, lá acabou por se aproximar, em 2010, do Mosteiro beneditino, em Singeverga, Stº Tirso, diocese do Porto. Ao que confidencia à Ecclesia, “ficou fascinado com a casa”, com aquele estilo de viver todo vestido de preto, horas e horas a salmodiar no coro do Mosteiro, cama-e-mesa garantidas, total segurança quanto ao futuro, se o vier a ter lá dentro, fama de homem santo para quantos o conhecem. Nesta altura, já lá vive, como postulante a monge. Nem ele sabe nas que se meteu. Virá a saber, com o passar dos meses, dos anos. Um estilo de ser-viver na história, comoo dos beneditinos, só mesmo para homens que fogem do mundo, da política praticada, dos afectos realizados, da realidade de todos os dias. Se era isto que, desde a infância, lhe faltava, estará, agora, no seu mundo. Um mundo de eunucos que o poder religioso/sacerdotal faz tais. Já que os eunucos que a si mesmos se fazem eunucos, por amor do Reino-Projecto político maiêutico de Deus, como Jesus Nazaré, nunca caem nessa tentação de fugir do mundo, pelo contrário, metem-se, inteiros, nele, para o transformarem com as suas práticas políticas-económicas alternativas.
A “martelada” que diz ter levado na cabeça, como garante que também Stº Agostinho levou no seu tempo, leva-o a confessar à Ecclesia que se sente lá muito “feliz”. Só que essa “martelada” pode muito bem tê-lo anestesiado, atirado para fora da Humanidade. Nesse caso, a felicidade que hoje sente como “postulante” a caminho de se tornar monge beneditino de 2ª, é o pior que lhe poderia ter acontecido, nesta sua idade. O que mais se lhe deseja, por isso, é que um destes dias, ao acordar/levantar-se para ir ao coro salmodiar com os confrades, Miguel se pergunte, Mas, afinal, o que estou eu aqui a fazer? Então, depois de 43 anos, ainda não me dei conta de que o meu ser-viver humano só mesmo no mundo se pode realizar, não num mosteiro, a salmodiar em louvor de um Deus com tudo de ídolo, como se pode concluir, ao vermos quais os gostos que Ele tem?! Uns gostos nos antípodas dos de Deus Abba-Mãe que se nos dá a conhecer em Jesus, o seu filho muito amado, tal comosão suas filhas muito amadas, seus filhos munito amados, quantas, quantos o (pros)seguem e às suas mesmas práticas políticas-económicas. Nesse dia, Miguel renuncia a monge beneditino, regressa ao mundo, para crescer em Humano, de dentro para fora, como Jesus. Chegue depressa esse dia.
Já chegou.. Há mais de 1 ano,!