Publicámos ontem um interessante artigo do coronel David Martelo que nos chegou através da Associação 25 de Abril, texto de uma alocução proferida no IASFA/Porto, por ocasião do convívio de oficiais comemorativo do 41.º aniversário do 25 de Abril. Estamos de acordo com o essencial des afirmações contidas no referido texto. No entanto concordando no essencial, não podemos deixar de fazer uma observação. Em 25 de Abril de 1974, o MFA devolveu ao povo português o regime democrático que um golpe de Estado militar extinguira em 1926. As Forças Armadas nesse dia 28 de Maio de há quase 90 anos, interpretaram o sentimento generalizado de cansaço que os portugueses manifestavam face às lutas políticas. Até personalidades inequivocamente democráticas, como o esclarecido grupo da Biblioteca Nacional, que escrevia e editava a Seara Nova, apoiou tacitamente o movimento liderado pelo general Gomes da Costa.
As palavra do coronel David Martelo descrevem com rigor a situação que vivemos: «A degradação da actividade política e da ética que deve presidir à sua implementação tem sido motivo de grande desilusão, criando nos cidadãos a amarga ideia de que grande parte dos agentes políticos, em vez de constituírem exemplos de probidade e de civismo, são, pelo contrário, incumpridores de leis e de promessas eleitorais. […] A acção da Justiça, por outro lado, tarda a convencer os cidadãos da sua eficácia, discrição e independência.[…]Os sintomas de desordem vão-se acumulando. Já não se trata da desordem nas ruas. É a desordem ao mais alto nível, na indizível liderança política e empresarial. Verdadeiras hecatombes financeiras são fabricadas em bancos e empresas de topo, a uma cadência de autêntico pesadelo. […] Aqui e ali, ouvem-se vozes clamando que é necessário fazer um novo 25 de Abril. Portugal teve, infelizmente, demasiadas intervenções militares na política, desde 1820. Algumas delas destinaram-se, sem dúvida, a pôr fim a algum tipo de “desordem”. Deve sublinhar-se que o Exército sentiu, por diversas vezes, esse chamamento dos Portugueses, mesmo quando em regime democrático».
E é a partir desta conclusão que discordamos do teor da alocução, quando afirma que «é indispensável ter a lucidez necessária para reconhecer que a solução da força militar – por muitas razões de queixa que os cidadãos tenham do funcionamento do regime – é completamente desajustada nos nossos tempos. A simpatia internacional que o 25 de Abril suscitou há 41 anos, transformar-se-ia agora em condenação e boicote […] fazer algo equivalente a um 25 de Abril é tarefa que está ao alcance de todos os Portugueses. Em cada ocasião que se realizem eleições, passa diante dos cidadãos uma oportunidade de mudança. Se há fenómeno que doa aos militares de Abril é, justamente, constatar a alta percentagem de abstenções verificadas nas idas às urnas, dilapidando uma das armas mais importantes da liberdade que a revolução restituiu ao povo. […] É desconsolador ouvir dizer que os partidos são todos a mesma coisa e que não vale a pena votar. Se pensarmos deste modo, jamais conseguiremos a salvação. Não há Democracia sem partidos políticos. Os partidos, mesmo quando falham na sua acção, podem regenerar- se, modificar-se ou desaparecer. Novos partidos se poderão formar. Não, a esperança não é militar. É civil e está onde deve estar: nas mãos das Portuguesas e dos Portugueses».
Formalmente correcta, esta conclusão, parece ignorar a realidade de uma massa eleitoral manipulada pela comunicação social. Na sua maioria, os cidadãos eleitores parecem dissociar o real quotidiano das suas causas profundas. De outro modo, como explicar que partidos como o PSD, o PS ou o CDS, mergulhados até à ponta dos cabelos no pântano da corrupção, do assalto despudorado aos dinheiros públicos, da alienação do património nacional, como explicar o facto dessas corporações criminosas, coligadas ou não, vencerem todas as eleições «democráticas»? Como explicar que, por via da vontade popular expressa livremente nos votos, um ser desprezível, com um passado que o liga ao salazarismo e com um presente de gaffes culturais e de obscuras cumplicidades políticas, se sente na cadeira da mais alta magistratura da Nação?
A crença em que «as maiorias têm sempre razão» convém às ratazanas que, há 41 anos, numa manhã luminosa de Abril, as nossas Forças Armadas obrigaram a esconder-se. Com cravos na lapela voltaram os herdeiros do partido único e foram reocupando os lugares que detinham durante a ditadura, Aprenderam que através da estupidificação manipulada, induzida pelos chamados «órgãos de comunicação social» podem, «democraticamente», obter melhores resultados do que os conseguidos pelos fascistas de camisa verde e braço estendido. Chamar Democracia a este espectáculo degradante, é como chamar patriota a Miguel de Vasconcelos. E confiar nos partidos maioritários e nos órgãos de soberania como garantes dessa democracia, é como acreditar, como dizia há dias José Goulão, que o lobo vai guardar bem o galinheiro.
As Forças Armadas são (deviam ser) o povo fardado e em armas. Quando o poder foi tomado por gente sem escrúpulos, quando os partidos se transformaram em associações de criminosos, onde se preparam os «quadros» para esse assalto ao poder, quem, senão os militares que, ao jurar bandeira, se comprometeram a lutar e a dar a vida, se necessário for, para defender o Povo e a Nação, nos podem restituir a legalidade democrática?
Sabemos que as Forças Armadas já não são o que eram há 40 anos. Hoje, os militares são profissionais e não faz sentido falar de «povo fardado». Mas não nos iludamos com a esperança de que os eleitores (cada vez em menor número) tenham um colectivo assomo de lucidez e reponham a democracia. Enfrentemos a realidade em que, além das amarras que nos ligam à União Europeia e à União Monetária, há um conceito de democracia que serve os interesses de uma oligarquia corrupta. Ao acreditarmos que o «sistema funciona», estamos a dar corda à bomba de relógio que, mais tarde ou mais cedo, vai ser detonada. A maioria democrática está, senhores militares, entre os que votam contra os partidos do poder, somados aos que desistiram de votar por estar fartos de respeitar um «jogo»cujas regras são ajustadas aos interesses dos gangues dominantes.

Tot i el respecte i la prudència a què m’obliga la meva condició de persona forana, no em puc estar de dir que, a parer meu, els militars que se sentin cridats a la regeneració democràtica de la societat només tenen un camí: abandonar l’exèrcit i dedicar-se a la política. De segur que la seva convicció democràtica contribuirà a fer arribar a la societat la necessitat d’un canvi i a dilucidar els camins que portin a l’objectiu de la regeneració política i social. Però, la “resposta estrictament militar” no és la solució. No ho ha estat mai i no ho serà ara.