EDITORIAL –  DO SEGREDO ADMINISTRATIVO AO ENCOBRIMENTO DE CRIMES – AS CRIANÇAS DA REPÚBLICA CENTRO AFRICANA

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Parece que vai abrir um novo capítulo na vida das populações dos países do que em dada altura se convencionou chamar o terceiro mundo. A noção foi adoptada durante a guerra fria, após a Convenção de Bandung, em 1955, para designar todas as nações que não tivessem aderido ao bloco ocidental, nem ao bloco de leste. Contudo, parece que o demógrafo Alfred Sauvy, quem primeiro usou a expressão, queria com ela designar o conjunto dos países subdesenvolvidos, à semelhança do terceiro estado, dos Estados Gerais que antecederam a Revolução Francesa, o que não seria a mesma coisa, na medida em que não se referiria propriamente à neutralidade em relação aos dois blocos, mas sobretudo ao estado de pobreza e de exploração a que estão sujeitas as suas populações.

As populações desses países, nos tempos mais recentes, têm estado sujeitas ao desprezo e à miséria os mais violentos. São situações que têm raízes muito antigas, bem anteriores ao colonialismo que permitiu às nações ocidentais a acumulação de capital que tornou possível a revolução industrial. Contudo, nos dias de hoje, a situação daquelas populações parece cada vez mais agravada, como o demonstra a situação dos migrantes/refugiados que, em condições tão terríveis, procuram atravessar o Mediterrâneo para alcançarem a Europa, com resultados tão trágicos.

No século passado puseram-se em marcha várias organizações internacionais, nas quais se depositaram muitas esperanças. Não será exagero dizer que foram na sua maior parte (para não dizer na quase totalidade) defraudadas. As populações do terceiro mundo (como o definiu Sauvy), que deveriam ter sido as mais defendidas pela sua acção, aparecem incontroversamente como as maiores vítimas dos desvarios dos governantes.

Apresentamos abaixo um link para uma notícia sobre um relatório das Nações Unidas, que terá sido transmitido às autoridades francesas, e que se referia a abusos cometidos por soldados desta nacionalidade, integrados numa força de manutenção de paz, sobre crianças da República Centro-Africana. O único resultado até ao momento terá a suspensão, com risco de ser demitido, de quem revelou o relatório. Esta situação, deve-se acentuar, tem antecedentes. Como podem as populações, já sujeitas a abusos incontáveis pelos próprios governos, acreditar em tropas, ou nos países que as enviam, que cometem atrocidades desta natureza? O que é preciso fazer para mudar estas coisas?

http://www.theguardian.com/world/2015/apr/29/un-aid-worker-suspended-leaking-report-child-abuse-french-troops-car

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