O QUARTO REICH: O QUE ALGUNS EUROPEUS VÊEM QUANDO OLHAM PARA A ALEMANHA – por Nikolaus Blome, Sven Böll, Katrin Kuntz, Dirk Kurbjuweit, Walter Mayr, Mathieu von Rohr, Christoph Scheuermann, Christoph Schult – DER SPIEGEL – I

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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‘O quarto Reich: O que alguns europeus vêem quando olham para a Alemanha

Nikolaus Blome, Sven Böll, Katrin Kuntz, Dirk Kurbjuweit, Walter Mayr, Mathieu von Rohr, Christoph Scheuermann, Christoph Schult,

‘The Fourth Reich’: What Some Europeans See When They Look at Germany

Der Spiegel on-line, 23  de Março de 2015 –

Quarto Reich - I
Foto: Bernhard Riedmann/ DER SPIEGEL

Depois da segunda guerra mundial, um regresso da Alemanha ao domínio da Europa parecia uma impossibilidade. Mas a crise do euro transformou o país num hegemon relutante e as comparações com os nazis  tornaram-se crescentes. E são elas justas ?

Era 30 de maio de 1941 o dia em que Manolis Glezos fez de Adolf Hitler um tolo. E ele e um amigo surpreendentemente alcançaram o cimo do mastro colocado na acrópole em Atenas onde estava hasteada e flutuava uma bandeira gigantesca da suástica. Os alemães tinham colocado a bandeira quatro semanas antes quando ocuparam o país, mas Glezos tiraram a bandeira odiada e rasgou-a a seguir. A acção transformou-os a ambos, a ele e ao seu amigo, em verdadeiros heróis.

Naquela época, Glezos foi um combatente da resistência. Hoje, com 93 anos de idade é um membro grego do Parlamento Europeu e militante do partido Syriza. Sentado no seu gabinete em Bruxelas no terceiro andar do edifício Willy Brandt, conta-nos a história da sua luta contra os nazis no século passado e fala-nos também da sua luta actual contra os alemães de hoje. Os cabelos brancos de Glezos parecem fortes e tem um aspecto de despenteados, dando-lhe ares com alguma semelhança a um Che Guevara envelhecido; no seu rosto enrugado carrega os traços de um século da Europa.

Quarto Reich - II

Inicialmente, ele lutou contra os fascistas italianos, mais tarde, pegou em armas contra a Wehrmacht alemã, como eram conhecidos os militares nazis de então. Glezos combateu então contra a ditadura militar grega. Foi várias vezes enviado para a prisão onde terá permanecido no total quase 12 anos atrás das grades, tempo este que ele utilizou para escrever poesia. Quando saía, regressava à luta, sua e do seu povo. “Aquela época ainda está muito viva em mim”, diz-nos.

Glezos sabe o que pode significar quando os alemães se esforçam por serem predominantes na Europa e diz que é o que está a acontecer agora. Desta vez, porém, não há soldados que estejam a estrangular a Grécia, diz, mas sim dirigentes de empresas e políticos. ” A capital alemã domina a Europa e lucra com a miséria na Grécia”, diz Glezos. “Mas nós não precisamos do dinheiro deles.”

Aos seus olhos, a Alemanha actual está directamente ligada ao seu passado terrível, embora sublinhe que isso não significa o povo alemão, mas sim a classe de dirigentes do país. A Alemanha é para ele hoje, e mais uma vez,  um país agressor : “a sua relação com a Grécia é comparável à de um tirano para com os seus escravos”.

Glezos diz que se lembra  de um texto escrito por Joseph Goebbels em que o Ministro da propaganda nazi reflecte sobre uma futura Europa na base da liderança alemã. Chamava-se “O ano 2000”. “Goebbels apenas errou por 10 anos”, diz Glezos, acrescentando que, em 2010,   o domínio alemão começou com a crise financeira,.

Ao longo de muito tempo, eram principalmente os alemães que estavam obcecados sobre o passado nazi do seu país, mas recentemente, outros países da Europa também se juntaram a eles. A Chanceler Angela Merkel com um bigode de Hitler, tanques alemães a partirem para o sul : tem havido uma inundação deste tipo de caricaturas na Grécia, Espanha, Grã-Bretanha, Polónia, Itália e Portugal. E os símbolos nazis tornaram-se de rigueur em manifestações contra a austeridade.

Quarto Reich - III

As pessoas começaram mesmo a falar  sobre o “quarto Reich,” como uma referência ao terceiro Reich de Adolf Hitler. Isso pode parecer absurdo, dado que a Alemanha de hoje é uma democracia de sucesso,  sem mostrar nenhum  rasto do nacional-socialismo– e em que, na verdade, ninguém associaria Merkel com o nazismo. Mas uma mais detalhada reflexão sobre a palavra “Reich”, ou Império, pode não estar totalmente fora do lugar. O termo refere-se a um domínio sobre os outros, com um poder central a exercer controle sobre muitos povos diferentes. De acordo com esta definição, seria errado falar de um Reich alemão na esfera económica?

Quarto Reich - IV (continua)

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Ver original em:

http://www.spiegel.de/international/germany/german-power-in-the-age-of-the-euro-crisis-a-1024714.html

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