A IDEIA – LUIZ PACHECO: UMA CONCEPÇÃO IDEOLÓGICA DE LITERATURA QUE SE QUER DESCARNADA – por Sofia Santos

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Luiz Pacheco tem merecido por parte da crítica literária uma atenção invulgar para um escritor comummente designado como marginal [não maldito, nas palavras que o autor procurou bem diferenciar no seu ensaio “O que é um escritor maldito?” (in Literatura Comestível, Lx., Estampa, 1972: 14-15)]. Tendo em conta a importância que um escritor como Luiz Pacheco exerceu não só na história da vanguarda portuguesa do século XX, irmanando-se com certa dissidência surrealista, ao performatizar o ideal de liberdade e de correspondência entre a vida e a arte, mas também na criação de um profundo plano de divulgação e reeducação ideológico-literária da população portuguesa entre 1951 (com a publicação do Discurso sobre a Reabilitação do Real Quotidiano, de Cesariny) e 1999 (com o último livro de autores alheios editados pela sua chancela, Contraponto, Villa Celeste, de Hélia Correia), em muito surpreende que essa atenção se confine apenas a um dos eixos do seu impacto na história da literatura portuguesa do século XX: o das teorias sociais provocadas pelo estranhamento da sua persona, encarnada por um comportamento genesíaco desabitual na sociedade portuguesa desde Almada Negreiros e que, poucos anos depois dos primeiros happenings surrealistas portugueses, recuperava o regresso às “palavras-acto” de António Maria Lisboa por meio de uma noese essencialmente libertária.

O epíteto de “personagem” associado a Luiz Pacheco tem sido erroneamente contemplado pelo seu carácter indiferenciador, lato e, na maior parte das vezes, gratuito. Depois de tantos anos dedicados exclusivamente à personalidade de Pacheco, se o interesse pela sua figura se mantém como um dos pontos fulcrais por que se deve estudar a sua obra textual (imiscuição que considero problemática), então, a fim de se evitar um espraiamento da arbitrariedade de conceitos que deveriam manter-se vinculados a uma significação cuidada e inequívoca, à ideia de “personagem” – noção que habita, de facto, todos os textos do autor, inclusivamente os da crítica – poderia antes considerar-se, pelo seu alcance sígnico, a ideia de persona (conceito que melhor se aplicaria, inclusivamente, ao âmbito dos estudos sociológicos, disciplina que se tem dedicado a estudar mais sistematicamente Luiz Pacheco enquanto carácter invulgar de autor não proscrito mas “maldito”). Se considerarmos, por exemplo, os estudos de Rosemary J. Coombe, aperceber-nos-emos de uma diferença teórica que se desejaria preciosa para estudar o caso da personalidade de Luiz Pacheco: a de noção de persona, mas sistemicamente ancorada à concepção de imagem de celebridade (autor canonizado), e a de autor empírico, imperscrutável (ou que deveria ser, pelo menos por princípio quando se procura estudar os textos de determinado autor), e de que a noção de persona será, portanto, um simulacro[1]. Ainda sem termos em conta o que de simulação, ou representação (o que, desde já, redimensiona determinada concepção ideológica), poderia revestir-se não só a persona que reconfigura a imagem do autor empírico (como de outras noções ligadas à autoria literária, por exemplo, a de personagem), esta metamorfose que se opera no âmbito da ficcionalização literária é-nos suficiente para esclarecer, numa primeira abordagem, os equívocos que se têm urdido em volta da imagem de Luiz Pacheco enquanto personalidade e, sobretudo, enquanto autor predominantemente autobiografista. Sem recorrer a estas noções específicas do âmbito dos estudos literários, Luiz Pacheco compreendia não só o alcance da tradição vanguardista da sua obra e o que nela poderia implicar o revolucionarismo de uma prosa estilisticamente confessional, como também os perigos interpretativos que se gerariam quando a crítica procurasse estudar a sua obra a partir da sua vida e vice-versa. É Luiz Pacheco quem adverte um dos seus editores, Serafim Ferreira, da necessidade absoluta de, em literatura, separar o que será do âmbito do interdito (a vida do autor empírico que deveria ser por principio, repetimos, imperscrutável) e do que, a partir da quintessência do autor, se pode construir como ficcionação dessa mesma idiossincrasia: A unidade de Textos Locais é, creio eu, um tanto enganadora. Funda-se à primeira vista na unidade da personagem (subentende-se: o Autor), partindo do texto mais geral ao declaradamente datado, localizado, assinado (como V. bem viu). E também, unidade de ambiente, temática (parte erótica, histórica). Mas…/ tudo o que se escreve é ficção (…)”. (…) Noutra situação que não nesta talvez eu preferisse que V. abordasse o caso literário dos textos, de presumir que é isso, afinal, que poderá contar para a sua sobrevivência que não eu, como bicho transitório. (Luiz Pacheco, Cartas na Mesa: 1966-1996, apre. Serafim Ferreira, 2ª ed., Lx., Escritor, 1996: 89 e 91.)

Luiz Pacheco, como qualquer autor, pretenderia que a sua obra sobrevivesse à sua vida. E, como qualquer autor, pensou a sua obra de acordo com um projecto literário ficcional, representativo, estudado para assumir uma ideologia interligada com a vivência literária sua contemporânea, que tão bem conheceu e em que tão bem se movimentou. De facto, é condizente com a importância do seu papel como editor e dinamizador cultural a atenção que se tem dedicado a essa vertente da sua obra, mas que não evidencia, contudo, as causas e os resultados desse conhecimento que, para si próprio, era uma forma de estudo das suas influências estéticas e ideológicas que, mais tarde, viria a aplicar às suas criações. Paralelamente a esta natural criação metaliterária, a ideia abordada de simulacro traz-nos ao cerne da metapoiesis de Luiz Pacheco: tendo-se irmanado com o Surrealismo – cujas relações pessoais, estéticas e, sobretudo, ideológicas estão presentes no automatismo de “Os Namorados”, na experimentação imagética de “Comunidade” e na assunção libertária de “O que é O Neo-Abjeccionismo” –, e conhecendo a essência libertária do “Mago” teorizador do movimento, António Maria Lisboa, Pacheco “dessubstantivou-se” enquanto cidadão, abandonando o trabalho e sua contribuição financeira, a instituição familiar, a política, a religião e qualquer comportamento social normativo não como osmose esquizofrénica diante de uma obra literária já de si terminada mas sim como principio revitalizador de uma obra que estava prestes a ser criada como representação não de uma literatura viva, como defenderia Régio, mas de uma literatura que tem no destino do poeta a sua principal realização. Por isso Luiz Pacheco é criador e criação, narrador e personagem, diria quase, como sugere Vítor Silva Tavares, um continuador da heteronímia de Pessoa (Vítor Silva Tavares, “A crónica por fazer”, Diário de Lisboa, 2-9-1971, p. 3), mas esta plenamente intrincada com a pele de um seu homónimo. Luiz Pacheco terá criado uma personagem, sua homónima; terá sido editor, crítico, cronista, epistológrafo e ficcionista, sem nunca descurar a coerência ideológica e estilística que lhe permitiram edificar-se enquanto autor surrealista, configurando um projeto único no panorama literário português. Questionamo-nos se, na literatura portuguesa, alguma vez a vida de um autor foi redimensionada de acordo com as características de uma personagem por ele criada. Parece-nos que até Luiz Pacheco, nunca se pôde conhecer uma realização original e performativa da utopia literária da vida como arte, que, no caso deste autor, terá sido levada até às últimas consequências. Essa metamorfose terá sido irreversível e Luiz Pacheco, autor empírico, jamais conseguiu despir a pele da sua personagem; tanto que, nas suas palavras, “[ficou] possuído de tal maneira da sua própria personagem, enredado e marcado por uma experiência” (L.P., “A nota do autor aos quarenta anos”, Crítica de Circunstância, Lx., Ulisseia, 1996: 247) que deu a conhecer o seu Luiz Pacheco, tal como pretendia, em todas as circunstâncias sociais e literárias. A rememoração de uma vida conhecida, a metaforização de uma verdade enquanto concretização de um ideal – neste caso o surrealista –, a rasura impiedosa da importância física do autor empírico, essa sim, personagem sem nome e existência que os críticos encarnaram e reanimaram, todas estas questões eminentemente vanguardistas ainda não encontraram, infelizmente, neste presente de cultura pós-moderno, a distanciação necessária para a sua justificação e, em último caso, sublimação. Porque, apesar de Lisboa acreditar que “não existe sobrevivência na escravatura” (“Erro Próprio”, Poesia, Lx., Assírio & Alvim, 1977: 41), no final, o engano acaba sempre por subjacer ao “resultado de querer ser[-se] livre em português” (“O que é o neo-abjeccionismo”, Exercícios de Estilo, Lx., Estampa, 1998, 3ª ed., p.139).

[1] No ensaio Em busca do autor perdido (Lx., Cosmos, 1998: 13-14), Helena Buescu dedica alguns parágrafos aos estudos desta professora da universidade de York, Toronto, estabelecendo um paralelismo entre o conceito de “imagem de celebridade”, contemplado pela professora, o de autor como nome de um problema, de Derrida, e os de autor textual – autor empírico / autor e leitor modelos de Eco.

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