CARTA DO RIO – 49 por Rachel Gutiérrez

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Trecho do diário de Georges Bernanos, escrito em Palma de Maiorca. Tem-se a impressão de que ele se dirige a algum amigo ou, talvez, um confessor. Refere-se ao início de um de seus romances mais famosos,  o Diário de um Pároco de Aldeia ( Journal d’un Curé de Campagne).

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      Palma, janvier 1936 –  J’ai commencé le Journal un soir du dernier hiver, absolument sans savoir ou j’irais. Combien j’ai commencé ainsi de romans qui n’ont pas été jusqu’à la vingtième page, parce qu’ils ne me menaient nulle part! N’importe! Dès que je prends la plume, ce qui se l’ève  tout de suíte em moi c’est mon enfance, mon enfance si ordinaire, qui ressemble à toutes les autres, et dont pourtant je tire tout ce que j’écris comme d’une source inépuisable de rêves. Les visages et les paysages de mon enfance, tous mêlés, confondus, brassés par cette espèce de mémoire inconsciente qui me fait ce que je suis, un romancier, et s’il plaît à Dieu, aussi, un poète, n’est-ce pas, vous comprenez cela?

 

      Que voulez-vous? à partir d’un certain moment je n’invente rien, je raconte ce que je vois. Des êtres que j’ai aimé passent sur l’écran, et je ne les reconnais que longtemps après, quand ils ont cessé d’agir et de parler, ou même je ne les reconnais pas du tout,  parce qu’ils se sont transformés peu às peu, font, mêlés à d’autres, une créature imaginaire plus réelle pour moi qu’un vivant, vous comprenez cela encore, n’est-ce pas?

 

(Em tradução livre):

      Palma, janeiro de 1936 – Comecei o Diário numa noite do inverno passado, sem saber absolutamente para onde isso me levaria. Quantos romances comecei assim que não passaram da vigésima página, porque não me levavam a parte alguma! Pouco importa! Assim que eu pego a caneta, o que se ergue em seguida em mim é a minha infância, minha infância tão comum, que se parece a todas as outras, e da qual, no entanto, retiro tudo o que escrevo como de uma fonte inesgotável de sonhos. Os rostos e as paisagens da minha infância, tudo misturado, confuso, abarcado por essa espécie de memória inconsciente que me faz ser o que sou, um romancista, e quando Deus quer, também poeta, você compreende isso?

      Que é que você quer? a partir de um certo momento, não invento nada, relato o que vejo. Seres que amei passam na tela, e só os reconheço muito depois, ou simplesmente não sei quem são, porque se transformaram pouco a pouco e compõem, misturados com outros, uma criatura imaginária mais real para mim do que alguém vivo, você compreende isso também, não é?

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