MUNDO CÃO – ISLÂNDIA- por José Goulão

José GoulãoA notícia foi convenientemente abafada pelos papagaios e fazedores de opinião, mas nem por isso deixou de ser realidade. A Islândia retirou o seu pedido de adesão à União Europeia num contexto sem mácula que corresponde à vontade popular.

Embora parecendo viver numa espécie de exílio lá pelos extremos norte da Europa, afastada da prodigiosa civilização que os papás e mamãs da Germânia prodigalizam aos europeus do rebanho de 28, o povo da Islândia teve ocasião de provar o maná proporcionado pelo casino financeiro. Provou e não gostou, porque ainda hoje está a pagar por isso, embora segundo os métodos que determinou, sem aceitar que troikas e correlativos lhe impusessem os seus diktats. É verdade que negociou com o FMI, mas a utilização do verbo negociar justifica-se no caso islandês, uma vez que, ao contrário do que aconteceu em Portugal e na generalidade dos “clientes”, não estiveram os dois lados a cavaquear amenamente sobre as vias para sugar o povo até ao tutano. Na Islândia houve negociação, o FMI não conseguiu o que pretendia e – vejam lá como são as coisas – a Islândia sobreviveu.

E sobrevive de outras maneiras em relação às quais, sobretudo a propósito da Grécia mas com recados explícitos a Portugal, muitos profetas da desgraça têm sentenciado dilúvios e outras tragédias sem nome.

A Islândia decidiu retirar o pedido de adesão à União Europeia porque foi essa a conclusão a que o seu povo chegou depois de ter passado os últimos anos a recuperar dos efeitos da bolha neoliberal em que os bancos mergulharam o país depois de, à revelia dos interesses dos clientes, se terem transformado em grandes apostadores do seu dinheiro na roleta da finança mundial. Para terem uma ideia do estado a que chegou a Islândia, pequeno país com menos de 400 mil habitantes – saibam que a sua dívida soberana em 2008 atingiu os mil por cento do PIB, enquanto na Grécia é de 170 e em Portugal já vai nos 130 por cento. Foi a bancarrota.

Quando o governo de então se preparava para fazer o mesmo que os outros, por as cangas no povo para garantir as “ajudas” das troikas e aparentadas, o povo desceu às ruas e disse não, que não queria suportar o fardo de falcatruas que não cometeu. E continuou nas ruas, num país frio como poucos, acendendo fogueiras e não deixando que a voz lhe gelasse.

E o povo conseguiu, o que não significa ter encontrado o paraíso. Os principais culpados foram julgados e condenados, os bancos e o Estado estão a pagar o que devem – mas em prazos e montantes negociados, decididos de acordo com os islandeses. E depois da experiência desses anos difíceis o povo da Islândia tirou as suas conclusões e decidiu que o melhor é viver com as próprias forças num quadro de interdependência e cooperação com todas as nações do mundo. Isto quer dizer que o povo da Islândia é dono das suas riquezas naturais – a energia, as pescas e o turismo, que não hipotecou a ninguém por mais sonante que seja o nome – e, sobretudo, é dono da sua moeda.

Foi a gestão da moeda nacional que permitiu ao povo da Islândia trabalhar sobre os mecanismos da dívida e valorizar os seus bens nos mercados internacionais – não será isto a competitividade de que tantos falam explicando, quantas vezes, o filme ao contrário? O povo islandês pode parecer exilado nos extremos norte da Europa mas sabe muito bem o que aconteceria às suas pescas, à sua energia, ao seu turismo, à sua moeda se a devassa da União Europeia entrasse por ali adentro.

Pois é, os islandeses decidiram que não querem a União Europeia e que desejam continuar a usar a sua moeda sua em vez do marco alemão travestido de euro. E vejam que o céu não lhes caiu em cima da cabeça.

Provavelmente nem será amanhã a véspera desse dia.

11 Comments

  1. Os papagaios e fazedores de opiniao sao aqueles que pretendem fazer noticia e demagogia com falsas noticias e falsas afirmacoes.
    Esta noticia foi amplamente noticiada em todos os media. E nao so foi noticia em 2015 como tambem como ja havia sido em 2014.

    Basta estar atento e ler os jornais em papel e online para se ter sabido disto. O problema e que alguns so leem as paginas do desporto .

    Pelos vistos o mal informado e o ultimo a saber sera este sr. Jose Goulao.

    1 – Islândia retira pedido de adesão à União Europeia – Expresso
    22 Feb 2014 Expresso.sapo.pt

    A coligação de centro direita que governa a Islândia decidiu retirar o pedido de adesão à União Europeia (UE)

    2 – 22.02.2014 17:32 Correio da Manha
    Islândia retira pedido de adesão à UE
    A Islândia vai retirar a candidatura à adesão à União Europeia (UE) apresentada pelo país em 2010.

    3 – Islândia retira pedido de adesão à UE
    13/03/2015 – 12:53 Correio da Manha
    “Os interesses da Islândia ficam mais bem servidos ficando fora da UE”, considerou o ministro dos Negócios Estrangeiros.

    4 – Islândia retira pedido de adesão à UE
    13/03/2015 – 12:53 Jornal O Publico
    “Os interesses da Islândia ficam mais bem servidos ficando fora da UE”, considerou o ministro dos Negócios Estrangeiros.
    Islândia retira pedido de adesão à UE

    5 – Islândia retira pedido de adesão à UE
    12/3/2015, 20:41 O Observador

    6 – 13-03-2015 Dinheiro Digital
    A Islândia decidiu retirar a candidatura de adesão à União Europeia (UE), segundo um comunicado do Executivo de Reykjavik citado pelas agências internacionais

    7 – Islândia retira pedido de entrada na União Europeia
    25 de março de 2015 · WEB JORNAL
    Governo eurocético havia prometido a desistência de fazer parte do bloco nas eleições de 2013; a decisão, porém, não deve afetar acordos já existentes entre as partes

    8 – 22.02.2014 17:32 CM
    Islândia retira pedido de adesão à UE
    A Islândia vai retirar a candidatura à adesão à União Europeia (UE) apresentada pelo país em 2010.

    A mulher de Cesar nao basta parecer……

    Tambem ao contrario do que este sr pretende fazer crer , e apesar das promessas do governo, nao foi feito nenhum referendo. A decisao foi tomada pelo governo eleito e contra a vontade popular.

    ” No ano passado (2014), milhares de manifestantes CRITICARAM nas ruas de Reiquejavique, a intenção do Governo de ANULAR o pedido SEM LEVAR O ASSUNTO A REFERENDO.
    Em Janeiro, o primeiro-ministro, Sigmundur Gunnlaugsson, classificado de eurocéptico, recuperou a promessa eleitoral. “Já não é válido participarmos nas conversações com a União Europeia”, disse, considerando que a UE não atravessa um bom momento e perdeu apelo e explicando que o actual Governo não está disponível para “aceitar tudo” o que o executivo anterior estava disposto a acatar.
    A Islândia continuará a ser membro da EFTA, do espaço Schengen e da Área Económica Europeia, o que lhe permite exportar pescado e manter-se aberta ao turismo, duas áreas essenciais da sua economia. Um dos pontos polémicos nas discussões da adesão era a imposição, por parte de Bruxelas, de cotas de pesca, o que Reiquejavique sempre rejeitou.

  2. No entanto, a Islândia continua membro da Associação Europeia de Comércio Livre (EFTA), do Espaço Económico Europeu (EEE) e faz parte do Acordo de Schengen .

  3. Estimado senhor David Silva, fica-lhe bem sofrer dores de papagaios e fazedores de opinião que, repito, chutaram a notícia para canto, como se lê nas páginas desportivas que frequento, sim senhor, com todo o gosto e desde muito novinho porque nelas se aprende muito e até foram usadas para lutar contra quê? Enfim contra uma coisa que provavelmente pouco lhe diz, ocupado como está a retorcer textos para falar de um referendo de que no texto não se fala, nem insinua. Mas talvez porque os periódicos que cita e os fazedores de opinião que o senhor admira não se tenham dado ao incómodo de escalpelizar o fenómeno islandês – é disso que se trata – recordo-lhe que se fizeram vários referendos na Islândia e todos serviram para basear a política seguida. Se o governo de centro de direita prometeu e não cumpriu, provavelmente é um problema dos governos de centro direita na Islândia e na Conchichina, fez mal. Talvez se houvesse referendo os islandeses lhe fizessem a vontade e batessem à porta da União Europeia. Mas para lhe ser franco, não creio. E como acho que gastei demasiada cera por aqui me fico. E pode trazer mais dores porque irá ficar com elas, isso lhe garanto.

  4. Tambem , e parafraseando, nao vou gastar mais cera e muito menos perder tempo com demogogos que fingem que sabem muito mas no fundo o que sabem e so o que lhes cheira . Pois aprende muito, de facto, nas paginas desportivas , sobretudo sobre “outsiders” mas aprenderia mais se fosse lendo as noticias dos outros pasquins , dos que tratam dos assuntos seriamente, ate ao fim e talvez por la encontra se a resposta que tanto procura e assim nao dizia tantos disparates. Respeitosos cumprimentos.

  5. Será que o senhor David Silva é mesmo um “papagaio” e “um fazedor de opiniões….encomendadas ?Respeite o que os outros naturalmente escrevem mesmo que não concorde, mas que certamente tem mais conhecimentos. , mesmo que seja contra a sua vontade e opinião Procure. Ser mais correto

  6. Não só foi amplamente difundida (como já foi referido) como a crise na Islândia foi radicalemtne diferente da que nos afectou a nós. Além disso, existe uma diferença substâncial em já ter a moeda (EUR) e aidna ter uma moeda própria, qe nos permite através da desvalorização, encarar estes problemas (como o PS e o sr.Mário Soares tiveram na décda de 80). Não me vou alongar na explicação da realidade Islandesa e no porque de ser muito mais simples de resolver do que a nossa, proponhoq eu deixe os jornais desportivos e comece a ler notícias a sério em jornais e fontes noticiosas sérias, assim poderá escrever artigos de opinião muito mais funamentados e correctos.

  7. “Amplamente difundido” é o suave milagre que este governo e em especial a governanta das finanças portuguesas sob orientação estrangeira vêm fazendo todos os dias em benefício de Portugal. Isso é que abundantemente difundido, também todos os dias, há anos. Tem de ler essa magnífica coletânea de propaganda para perceber a diferença entre o “amplamente difundido” e o “convenientemente abafado”, Mas já sei que isso não interessa nada aos senhores doutores David Silva e Paulo Santos.

  8. Tomara o ignorante povo português ser tão franco e corajoso como o islandês! Invejosos, laxistas e por aí fora, nunca teremos (a populaça) “direito a nada”. Sobra tudo para os Miguéis Vasconcelos, vassalos de Bruxelas e IV Reich! Miséria!

  9. => Pela leitura resumida e na diagonal, fica-se com a impressão da presença “clubística”, dos vários comentadores. Estamos a caminho do naufrágio mas como ainda respiramos, é um fartar de debitar alarvidades, e prosseguindo neste rumo resta-nos a subser-dependência e “boa vontade” dos “donos disto tudo DDT.
    => Passem bem enquanto a vaca tem leite.

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