O GIGANTE COM PÉS DE BARRO – de PHILIPPE LEGRAIN – I

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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O gigante com pés de barro

Philippe Legrain, Don’t envy Germany-Its success is lauded by politicians of all stripes, but the model is breaking down/Le colosse aux semelles de plomb

Prospect – the leading magazine of ideas/Books – le monde à la lumière des livres, 20 de Agosto de 2014/Dezembro de 2014 

Os líderes políticos ocidentais fazem com muito agrado da Alemanha um modelo a seguir. Os especialistas predizem mesmo que será daqui até 2030 o país rico do planeta em termos de rendimento per capita. É uma perfeita ilusão. O balanço desde há quinze anos? Uma taxa de crescimento entre as mais fracas de Europa, baixa do poder de compra dos assalariados, forte aumento das desigualdades, investimentos enganadores, infra-estruturas em ruína, fraco crescimento na produtividade …

Philippe Legrain,  Novembro de  2014

Aquando do nascimento do euro, em 1999, a Alemanha era considerada como “o homem doente da Europa”. Demasiadamente carregada de impostos, demasiadamente regulamentada, a sua economia estagnava e tinha quatro milhões de pessoas  desempregadas. Neste início de milénio, o país andava ao ralenti, eclipsado pela Grã-Bretanha e pelo Sul da Europa de crescimento mais enérgico. Mas após a crise financeira de 2008, a paisagem apareceu sob uma nova luz. Enquanto que a maior parte das nações ocidentais era destroçada por uma engenharia financeira de forte fachada, mas finalmente extremamente frágil, este país,  conhecido pela sua base industrial estável e sólida,  parecia gozar de uma invejável segurança. Enquanto que os outros tinham construído castelos de cartas fundados sobre a dívida, a Alemanha tinha poupado prudentemente. Enquanto que a maior parte dos países da Europa parecia mal equipada para fazer face à concorrência  chinesa, as exportações alemãs para o império do Meio explodiam. Enquanto que o desemprego atinge hoje níveis recordes sobre todo o continente, a taxa alemã é mais baixa do que antes da crise.

Nestes tempos de intemperança orçamental, Berlim teve até êxito a equilibrar o seu orçamento. Quando o pânico tomou conta da zona euro em 2010, o país por conseguinte fez-se  aparecer aos investidores como um refúgio seguro: os investidores estavam mesmo prontos a pagar para que o Estado alemão assumisse guardar o seu dinheiro [em euros] (1).   O país parece decididamente ter todos as cartas na mão: é a primeira economia europeia, é também o primeiro exportador do continente e é a  nação da Europa  mais credora, dotada ainda da população mais numerosa. Muitos temem a Alemanha, alguns odeiam-na mas poucos põem em questão a sua supremacia.

Homens políticos e peritos de todos os quadrantes, de Bill Clinton a Nicolas Sarkozy, rivalizaram em elogios a seu respeito. Na Grã-Bretanha, onde a admiração pelo modelo renano era anteriormente o privilégio de pensadores do centro esquerda de pouco influência sobre o último governo trabalhista, mesmo os conservadores zeladores do mercado vêem agora na Alemanha  uma fonte de inspiração. O Primeiro-ministro David Cameron considera que o Reino Unido tem necessidade “de uma abordagem germânica das competências”. George Osborne, o ministro das Finanças, cantou os elogios da Alemanha num recente texto no Financial Times co-escrito com o seu homólogo Wolfgang Schäuble. E a estratégia económica do líder trabalhista Ed Miliband parece consistir, essencialmente, em seguir o modelo alemão. Como o escreveu Philip Collins, editorialista de Times, “o projeto de Ed para a Grã-Bretanha: assemelhar-se mais à Alemanha”.

Aparentemente acinzentado por tantas adulações, um homem político de primeiro plano de além-Reno [o conservador Volker Kauder] declarou: “A Europa, muito de repente pôs-se a falar alemão. ” A chanceler Angela Merkel afirmava, depois da sua reeleição no ano passado: “o que nós fizemos, todos podem fazê-lo. ” E os fervorosos adeptos do modelo alemão anunciam mesmo dias ainda mais brilhantes para a Alemanha. No seu bestseller de 2012, “os anos de vacas gordas”, Bert Rürup, antigo membro do Conselho alemão dos peritos económicos, e Dirk Heilmann, jornalista no Handelsblatt, prediz que a Alemanha será daqui até 2030 o mais rico país do planeta por habitante.

No entanto, a Alemanha não é o líder mundial que se pensa. A sua economia não é particularmente próspera, ainda menos é um modelo a seguir. Os seus bancos estão em dificuldade, o crescimento da sua produtividade é medíocre e os seus investimentos insuficientes. Tendo em conta da inflação, o alemão médio ganhou menos no ano último que em 1999 – ou seja mais de catorze anos de estagnação. O país permanece ligeiramente mais próspero – se tomarmos como critério o PIB per capita à paridade de poder de compra – que a Grã-Bretanha e a França, mas menos que doze outras economias desenvolvidas, nomeadamente a Austrália, a Áustria, o Canadá, os Países Baixos, a Suécia, a Suíça e os Estados Unidos.

Latinos malandros e Celtas irreverentes

Desde a crise, o desempenho do país foi menos atroz do que o de muitos – no início de 2014, a riqueza nacional francesa era apenas levemente acima da verificado no início de 2008 e o PIB britânico ligeiramente mais fraco, enquanto a Europa do Sul tinha caído de um penhasco – mas também sem ser nada que espantasse. A dimensão da economia alemã aumentou de 3,6% em apenas seis anos – mas contraiu-se de 0,2% entre os meses de Março e Junho passado   (2) –, quando a Suíça e a Suécia viam a sua riqueza aumentar mais de 7%. Mesmo os Estados Unidos, no epicentro da crise financeira, beneficiaram de uma expansão semelhante.

Se observarmos desta vez a situação em termos de longa duração, a perspectiva  muda completamente. Desde o início do novo milénio, a Alemanha deixou de estar à frente para estar atrás. Entre 2000 e 2013, o seu crescimento foi apenas de 15% – um magro 1,1% por ano – praticamente a par com a França. É mais lento que os despreocupados dos anglo-saxónicos, a Grã-Bretanha (+ 21%) e os Estados Unidos (+ 25%), sem mesmo estar a falar destes Latinos supostamente malandros (o crescimento espanhol foi de 19% sobre todo o período) e os outros Celtas irreverentes (o PIB irlandês progrediu nesse mesmo período de 30%). No total, o país chega agora em décimo quinto das dezoito nações da zona euro. Um crescimento económico sustentado é o fruto combinado de investimentos produtivos e de ganhos de produtividade; ora o desempenho da Alemanha é medíocre nestes dois  domínios. O investimento caiu de 22,3% do PIB em 2000 para 17% em 2013. Certamente, a taxa de investimento britânica é mais fraca ainda, mas a Alemanha está atrás de países como a França, a Espanha e mesmo a Itália. Os investimentos públicos são particularmente reduzidos – um magro 1,6% do PIB em 2013 –, abaixo dos níveis italianos e britânicos (2%) e muito atrás de países como a França e a Suécia (3,3%) . Depois de anos de negligência, as infra-estruturas estão altamente degradadas. Como o explica Sebastian Dullien, do Conselho europeu das relações estrangeiras, um think tank: “As pontes das auto-estradas estão num tão mau estado que os veículos pesados frequentemente são forçados a fazer desvios e certas infraestruturas das vias navegáveis são velhas e de mais de um século.” Em Março de 2013, o canal de  Kiel que liga o mar do Norte e o Báltico, artéria vital para o comércio mundial (3), teve que ser provisoriamente fechado porque duas das suas comportas estavam completamente degradadas. O que não impediu Angela Merkel, nos seus últimos projectos de orçamento, de reduzir ainda mais o investimento público.

De maneira mais grave ainda, a Alemanha deixou-se distanciar sobre o plano da qualificação da sua mão-de-obra. A Alemanha apenas consagra 5,7% do seu PIB para a educação e a formação, menos que a França e muitos outros países, entre os quais a Grã-Bretanha, onde o valor correspondente é de 7,6%. E se há numerosos estrangeiros a admirarem o seu sistema de aprendizagem, este mesmo sistema atrai cada vez menos os jovens alemães: o número de novos aprendizes caiu para o seu nível mais baixo desde a reunificação, em 1990, e numerosos lugares doravante permanecem vagos. Além disso, menos do quarto da população activa possui um diploma universitário, menos que nos vários outros países europeus, incluindo a Espanha, a França e a Grã-Bretanha. Há menos jovens alemães titulares de uma licenciatura (29%) que jovens Gregos (34%), sem mesmo estar falar dos jovens Britânicos (45%). “A Alemanha não soube investir no ensino superior público”, observa Adam Posen, presidente de Peterson Institute for Internacional Economics, um think tank americano. À escala mundial, a universidade alemã melhor colocada é a universidade técnica de Munique, no 49º lugar.   (4).

O desenvolvimento das startup está bloqueado. É mais difícil montar a sua sociedade na Alemanha do que na Rússia ou no Senegal, de acordo com o relatório Doing Business do Banco Mundial sobre o ambiente regulamentar das empresas. No duodécimo lugar da classificação, a Irlanda nem se compara com a Alemanha ( que está no 111º lugar). O conjunto das grandes empresas do país está, enquanto conjunto, envelhecido e instalado desde há muito tempo: não há Google aqui. Como ficarmos espantados  por 50.000 empresários alemães emigrarem para o Silicon Valley?

Fraco nível de investimento, infra-estruturas decrépitas, sistema educativo degradado, falta de espírito de empresa… São tantos os indicadores inquietantes. Mas a prova decisiva do fraco resultado da economia alemã é o fraco crescimento da sua produtividade: 0,9% por ano durante a última década, ou seja menos que Portugal. Para ter êxito de maneira duradoura, o país tem necessidade de que a eficácia da sua mão‑de‑obra progrida bem mais rapidamente. A Alemanha sobretudo deve todo o pouco crescimento que conheceu praticamente só às suas exportações de bens manufacturados – domínio onde se distingue. No segundo lugar mundial, imediatamente atrás de Pequim, é mais ou menos responsável por metade das exportações europeias para a China e as suas vendas para o estrangeiro duplicaram desde o ano 2000. Faz melhor, sobre este plano, que qualquer outra economia europeia desenvolvida. Além disso, enquanto que a indústria se estiola na maior parte dos países ricos, ela desenvolve-se na Alemanha   (5).

Mas esta forte expansão das exportações é menos impressionante do que pode parecer à primeira vista, e o facto de que este boom assenta sobre o sector industrial poderá revelar-se no futuro uma fraqueza. O sucesso do país nas exportações está sobreavaliado, devido à subcontratação das firmas germânicas na Europa central e oriental. Os automóveis “fabricados” na Alemanha contêm numerosas peças produzidas na Eslováquia, na Hungria e noutros lugares; quando um veículo é exportado, o seu valor total é atribuído ao país, enquanto que uma parte apenas desse valor é gerado na Alemanha. A Alemanha também teve muita sorte. Os bens que exporta tradicionalmente – os bens de equipamento, as máquinas ferramenta e os produtos químicos – são precisamente os bens de que a China tinha necessidade na sua fase de desenvolvimento industrial fulgurante.

O euro constituiu igualmente um estimulante essencial. A moeda europeia foi bem mais fraca do que teria sido sem nenhuma dúvida o deutschemark, o que aumenta as suas vendas para o estrangeiro. Assim, o euro impede concorrentes como a Itália de poderem desvalorizar de modo a conseguirem  poder  apresentar melhores preços que as empresas alemãs. Até a crise rebentar, o euro também abriu às exportações do país os mercados em plena expansão do Sul da Europa. Mas, depois, a recessão privou Berlim de um mercado, no momento em que a economia chinesa reduz por sua vez o seu crescimento e se afasta ela do esquema de crescimento fundado sobre o investimento, levando assim a que a máquina comercial alemã comece a marcar passo. A sua parte nas exportações mundiais caiu de 9,07% em 2007 para 8,01% em 2013 – e deste modo reencontram o seu nível do início dos anos 2000.

Pior ainda, nos primeiros tempos, a forte expansão das vendas no estrangeiro fez-se sobre as costas dos assalariados alemães. Devido à pressão à baixa sobre as remunerações – que começou com o acordo tripartido de 1999 entre o Estado, as empresas e os sindicatos,  antes da reforma do mercado do trabalho conduzida pelo antigo chanceler Gerhard Schröder entre 2003 e 2005 – e da ausência de salário mínimo legal, certos alemães ganham cerca de 4 euros por hora. De acordo com o Instituto alemão para o mercado do trabalho e a investigação de emprego, cerca de um quarto da população activa obtém uma remuneração inferior aos dois terços do salário mediano, uma proporção de trabalhadores mais elevada que em dezasseis dos dezassete países europeus para os quais este tipo de dados está disponível.

O problema, não é somente que alguns são muito mal pagos. É que o alemão médio não recebe os dividendos dos ganhos de produtividade que ele próprio realiza. O assalariado tipo produz 17,8% mais por hora que em 1999, mas ganha um pouquinho menos do que nessa altura. Se certos responsáveis políticos deploram esta estagnação, nomeadamente os Verdes e Die Linke (partido à esquerda da esquerda), a maior parte das instâncias de decisão felicita-se com isso. Apesar  de tudo, manter baixos custos salariais favorece a competitividade dos produtos alemães. Mas uma política que tem sentido à escala do dirigente de empresa individual não é necessariamente relevante à à escala da economia como um todo: as remunerações não são custos que é necessário reduzir, mas um benefício que é necessário maximizar – na condição de que a produtividade o justifique. Se os baixos salários são necessários quando a eficácia da mão-de-obra é fraca, é perverso não reflectir os aumentos de produtividade sobre as remunerações. Se forem mantidas a um nível artificialmente baixo, os assalariados são menos incitados a porem em dia as suas competências e as empresas a investir no país e a subir na gama do que produzem. E se a Alemanha não subir na gama, a nova produção de elevado valor acrescentado exigente em competências e os salários superiores  passará cada vez  mais a ser feita noutros lugares. “O rigor salarial não é uma estratégia de crescimento vencedora para o futuro da Alemanha e da Europa”, afirma Posen.

(continua)

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Notas

1| Em Janeiro de 2012, a Alemanha emitiu obrigações a  seis meses remuneradas à taxa média negativa de ( – 0,0122 %). Por outras palavras, são  os investidores que pagam  ao país juros para poderem estar na posse de títulos da dívida alemã [ ou dito de outra maneira, os investidores pagam à Alemanha juros por esta lhes guardar o seu dinheiro.

2| O terceiro trimestre registou um crescimento nulo.

3| normalmente utilizado por 35 000 navios ao ano .

4| De acordo com a famosa (e contestada)   classificação Shanghai,  Munique está  ex æquo com a universidade de Heidelberg, no 49ª lugar. A primeira Universidade francesa, a universidade Pierre e Marie-Cúria (Paris 6) é nº trinta-quinto.

5| Ela passou  de e 21,6 % do  PIB em  1997 a  22,4 % em  2012.

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Philippe Legrain,  Don’t envy Germany-Its success is lauded by politicians of all stripes, but the model is breaking down. Texto disponível em:

http://www.prospectmagazine.co.uk/features/dont-envy-germany

Publicado igualmente em francês com o título  Le colosse aux semelles de plomb em:

http://www.books.fr/le-colosse-aux-semelles-de-plomb/

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