A IDEIA – MANUEL DE CASTRO & O CAFÉ GELO VISTOS POR VASCO – Entrevista de António Cândido Franco

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[Agostinho Vasco de Castro, que assina Vasco, pintor, cartoonista e escritor, nasceu em 1935. Filho do poeta Afonso de Castro, esteve em Lisboa na segunda metade da década de 50 do século XX, altura em que conheceu Manuel de Castro e frequentou o café Gelo. Partiu para Paris no início da década de 60.]

 

Conheceu Manuel de Castro?

Conheci-o bem – e conheci o irmão fascista e a mulher. Fomos íntimos no Gelo e no Royal. O pai alto funcionário no Ministério das Finanças, de Ulisses Cortês, odiava-o. O irmão Pedro também; nos anos 60 seria líder do “Jovem Portugal”, de inspiração fascista. Com o Manuel fomos passar a Páscoa de 1959 na casa da minha avó numa aldeia vizinha da Samardã camiliana, no Vale d’Aguiar, serra do Alvão, Trás-os-Montes, divertida viagem em auto stop. Depois de Cesariny era o poeta mais dotado. Lembro-me quando saiu o Parelelo W à conta do autor e o Pacheco com remorsos por não o ter editado na Contraponto. Vi-o uma última vez em 1964, Abril ou Maio, em Paris; estivera antes na Alemanha.

 Frequentou o café Gelo?

Frequentei o Gelo entre 1955 e 58, e também o Royal, de Pepe Blanco, em nome da família proprietária. O René Bértholo levou-me lá; meses havia, todavia, que não punha lá os pés, por outros destinos mais folgados.

 Que foi para si o café Gelo de Manuel de Castro, de Helder Macedo, de Luiz Pacheco, de Mário Cesariny, de João Rodrigues, de Forte, de Ernesto Sampaio, de Virgílio Martinho ou de Raul Leal?

A lista é incompleta, faltam os pintores, Bértholo, Gonçalo, Escada, Costa Pinheiro, Carrilho e Lopes Alves, estes dois últimos cedo derivando para a publicidade, e o Lopes Alves, no PREC 74/76, para os murais do MRPP. E mais o José Manuel Simões, poeta, que morreu alcoolizado em Paris há uma dezena de anos, o Carlos Loures, episódico, o Adriano de Carvalho, jornalista depois na Capital, os manos Fernandes, João (o Zanaga) e o Toninho, que seriam jornalistas na imprensa colonial de Luanda – Notícia – e acolhidos no Diabo, após o 25 de Abril, um como chefe de redacção e outro até, talvez (?) … director. Ainda o Granjeio Crespo, inválido de nascença, que o Luiz Pacheco alcunhou de general rodinhas pela cadeira de rodas dos seus anos na década de 70/80. Tinha projectos de filmes e editava manifestos políticos anarquistas, em tempo de eleições. E o Henrique Tavares e o Saldanha da Gama, que poetavam. Do José Sebag, meu colega em Direito, não conheço obra. Esteve na imprensa de Luanda, 74/75; muito prolixo sobre feitos em reportagens pelos cafés em Lisboa, chamei-lhe de Hemingway de Luanda. Quanto ao José Manuel Pressler, não tenho ideia do que tenha feito. Um nome mais – Liberto Cruz, então estudante em Letras, escreveu uma biografia de Júlio Diniz e é administrador da Fundação Oriente.

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