A IDEIA – SÁBADO FESTA – por Virgílio Martinho

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Imagem1Podemos dizer: ele é de orgulhos desmedidos, as suas desrazões são neuróticas. Entretanto ouve o murmurar búzio da cidade e lacrimeja coisas passadas. Está bêbado, mas não irremediavelmente. Por isso insiste no seu alvo, quer conquistar o destino com a raiva que um tipo como ele acumula nos dias, tentar neste emaranhado tornar habitável a sua única noite livre, arremetendo por motivos bem definidos contra o sono honrado de cada qual praguejando, danando-se, deslumbrando-se entretanto com os fantasmas pacatos que são os candeeiros municipais, os barcos atracados ou em seco nos declives escorregadios limosos da muralha e, sobretudo, com o cheiro a parto que o mar às vezes tem. E atravessa (está) o jardim da celeste, estende-se entre duas fragatas desmanteladas. Sofre. Coze a carraspana, desfiando amolecido a sua história de sábado. Ele sabe-a, vive-a. Abre os olhos na noite. Jesus, lá na outra margem do rio, enfrenta o escuro com os braços abertos e fosforescentes, como se lhe pagassem para isso ou tivesse nascido assim. E ele resmunga, supõe: vai levantar voo, subir ao céu, é mosca de pedra. E prossegue, prosseguirá: grande mosca entre lantejoulas (três, quatro estrelas outonais, distantes distantes), mais os olhos de gato vazio, mais os morrões de cigarro aqui e ali. Visões apenas. Que há na sua cabeça? Que há por detrás das suas pálpebras? Que há entre os seus lábios? Acaso alfinetes? Acaso punhais? Não, o dia a dia, percebem vossas excelências? Diga-se: aguenta menino, no sábado tiras a forra! Vinho, claro. Mas, senhores, não interpreteis mal. Ele sonha na pele, tem esperanças como qualquer outro. É simplesmente uma máquina que falha. Porque gosta de cismar, de se rir de vocês, de muitos de vocês. É isso loucuras de bebedolas. Está certo, o vinho é mau desde o princípio, desde o nascimento. E cá o temos. Todo ele no pináculo da pirâmide, fazendo prodígios para não se estatelar, caindo a toda a hora, levantando-se a toda a hora, cumprindo a visão, dizendo como nestas circunstâncias se diz: vou-me aliviar… tou por um fio… é agora… E alivia-se, alivia-se, ergue a tola, respira até ao estômago, feliz, cantarola: nobre povo… mosca valente… pássaro bisnau… grandes asas… nunca mais fazer contas de cabeça… E ele fecha os olhos cinzentos, de rato, quer descansar, mudar de vida. Se possível beber um pouco mais se vossas excelências não se importam, já que hoje é sábado e amanhã não há trabalhinho. É domingo do pai, da mãe, da missa, do frango, de Deus Nosso Senhor. Não o dele porém. Amanhã dormirá, estará de ressaca, terá olheiras até aos queixos. Sentir-se-á à beira da morte, arrepender-se-á (hipócrita) dos desmandos da véspera. Mas quê, sábado é sábado, é noite livre no mundo dos cidadãos. E diz, dirá lá com os seus botões: o coração pulsa… a vidinha está pelos cabelos… vou roubar o espírito santo e comercial de Lisboa… vou enricar… enricar até ficar podre… Ergue-se então, está de pé agora. Recorda coisas: salpiquei os caranguejos da muralha com tinta-da-china, apedrejei um cão com tanta fúria que o bicho deitou sangue. Estes os pequenos crimes. Os grandes? Quem pode tê-los No horizonte dos seus olhos, atracado ao pontão de pedra, a sombra do rebocador, a caixa oblonga marítima, lar sobre o líquido, onde o marinheiro envelhece e ao alvorecer parte. Mas a história não é esta, é muito outra. Ele arrasta-se até à beira-rio, ajoelha-se, demanda o fresco, o frio da água. A onda vem e molha-o. E ele refila, diz impropérios contra a cidade, o império onde vive, o sítio, o nicho, o duque maneta que é estátua no largo, o jardim da Celeste coito de amores clandestinos, o cais do sodré jogo da glória de prostitutas, poetas, vadios, nautas e luzes. Também polícias. Aqui ele tece, entrança. Aqui pensa o hino, o cartaz: as cobras venenosas silvam, regurgitam tudo, mas deviam guardar, guardar! E com tal expansão sábado mete o grande e o anelar entre a língua e o palato, bem até ao fundo, às campainhas. Segue-se o dilúvio, o barulhento pensamento-cartaz referido atravessa-lhe a caixa craniana e após expurgar tudo regressa à mãe água. Então pensa: graça plena! Então recupera saúde. O pesadelo semanal é longo, dura seis dias e seis noites. Pesada carga, senhores doutores! Mas não se julguem ilesos!

[texto dactilografado, espólio de Virgílio Marinho (1928-94)

e aqui por gentileza de Rui Martinho]

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