“O que é o neo-abjeccionismo” não é nenhuma pergunta. Nem nenhuma interrogativa indireta. Antes se afigura à entrada de um verbete de um dicionário; um dicionário pachecal, ainda por existir. Poderia dizer-se “O neo-abjeccionismo”, simplesmente, que o paralelo com o manifesto de Pedro Oom continuaria a ser evidente; mas a introdução desse magistral verbo “ser” é desejo de transparência, busca de essência, anúncio de algo. Com Luiz Pacheco, tudo tem de ser límpido – pão, pão, queijo, queijo. Com Luiz Pacheco, tudo tem de ser limpo, e não nos surpreenda este adjetivo naquele que tão bem cultivou a degenerescência pessoal e social entre o gesto obsceno e os fluidos sujos brotando-lhe de uma orgânica gritante, numa alma insatisfeita. É aqui que começa tudo: na insatisfação, na falta de cumplicidade com um fazer de conta social que nada no vómito, o famoso vómito de Pedro Oom. Perante tamanha impureza, as impurezas miúdas de Luiz Pacheco mais não são do que bactéria contra a proliferação de micróbios. Nasce assim o libertino, aquele que exerce a liberdade até à abjeção. Perdeu, roubou, foi desumano, foi um tipo bera, nas suas palavras, um sacana. E depois? E depois, para ele, não quer nada. Mas para os filhos, sim, aquelas crianças (uma ainda por nascer, do corpo de uma mãe também ela criança) que têm fome do pão desprovido das metáforas da literatura, esse pão tão alheio aos “ismos” dos movimentos literários, esse pão que na sua dureza do dia seguinte Luiz Pacheco decompõe até ao diminutivo, por aflição, é certo, mas também por escárnio do mundo.
“O que é o neo-abjeccionismo” foi publicado pela primeira vez em 1967, em Textos Locais, e depois, em 1971, em Exercícios de Estilo. Mas já em 1963, tinha sido lido por Mário Cesariny, na Casa da Imprensa. Mais recentemente, foi soberbamente declamado num documentário de António José de Almeida, intitulado “Mais um dia de noite”. O ator, do cimo de um escadote, saco de plástico numa das mãos, em plena rua, suplica até à rouquidão uma esmola, e a súplica torna-se propaganda quando recorre ao altifalante a lembrar o dos feirantes de há algumas décadas, a vender produtos domésticos fazendo-se valer das histórias de Janete Clair celebrizadas pelo pequeno ecrã. Mas Luiz Pacheco nada tem para vender: a máquina de escrever, que é a sua charrua, não a pode empenhar porque nunca a pagou. Nem a samarra, porque, com o calor e a traça, não a aceitam no prego. O sempre tão urbano Luiz Pacheco recorre, através destes dois elementos, ao mundo rural, para chegar à metáfora dessa realidade pura pela qual aspira, realidade que é celeiro, pão e verdade. Sempre o pão: o corpo. A verdade: no corpo.
O miserabilismo de Luiz Pacheco está, no entanto, longe do termo literário cunhado por Jean Schlumberger, em 1937. Se é verdade que o nosso escritor maldito cultivou a mendicidade à custa de uma vocação sem pudores para a “pedincha” e de uma forma negligé de estar na vida, é certo também que nunca se sentiu cativo dessa sua miséria: pelo contrário, era o preço a pagar pela sua liberdade. A má alimentação e o excesso de álcool foram talvez cúmplices na construção desse perfil delgado, vestido com umas calças improváveis para umas pernas tão altas, mas quantos antes, melhor resolvidos talvez, não tiveram essa aparência esguia e as calças ridículas? Pacheco não é antecipação do cadáver de que se vestem os protagonistas desesperados e cheios de angústia da literatura passível de ser lida à luz do miserabilismo. De cadavérico, só tem a caveira risonha. Ele sabe rir enquanto pede. O “bacalhau” de letras maiúsculas de “O Cachecol do Artista” (1964) ou o “Jornal de Letras e Artes” a negrito, do mesmo texto, são exemplos dessa desenvoltura a roçar a troça. Haverá nota de sobranceira nessa peculiar forma de pedir? A avaliar pela leitura de duas das frases de “O que é o neo-abjeccionismo” – “Sim, porque eu não faço (…) todos os trabalhos que vocês querem” e “Nem quero vê-los a vocês, todos os dias!” – a avaliar pela leitura destas duas frases, dizíamos, dir-se-ia que sim, mas esta é, a nosso ver, a forma que Luiz Pacheco tem de manter a sua dignidade, de defender a sua integridade de homem livre, de se manter fiel a uma determinada forma de se ser verdadeiro ou de se ser verdade, enfim, simples estratégia poética, talvez em suma. E repete várias vezes que para ele não quer nada. Contudo, a distância de alguns anos entre um e outro texto é suficiente para nos mostrar uma maneira de pedir que vai assumindo outras feições. A nota de humor daquele que “estende a pata” em “O Cachecol do Artista” converte-se numa nota de angústia naquele que diz já ter “estendido a mão” à caridade pública. A pata, a mão, o pão. Aproximados pela fonia que permite esta estranha gradação, somos levados até a uma espécie de substancialização dessa verdade que é produto da terra. Luiz Pacheco recusa-se a deixar de trabalhar na sua charrua – “eu quero trabalhar na minha máquina” – porque só assim “se consubstancializa” também nessa “verdade de celeiro” (a expressão é nossa) que pede para os filhos. Pretende assim matar a fome aos filhos com aquilo que sabe e gosta de fazer. Este seria, de resto, o ideário de qualquer chefe de família integrado no mundo laboral: fazer pela vida, fazendo o que gosta, sem abdicar de uma folha de vencimento, sem ter de criar personagens ou, pelo contrário, sem ter de despir máscaras, como o enunciou de, modo aproximado, Agostinho da Silva, a propósito de Fernando Pessoa, numa das entrevistas de “Conversas Vadias”, dirigida por Alice Cruz nos anos 90. Luiz Pacheco foi, nesta ótica, não um poeta mas um poema, não um reivindicador mas a reivindicação.
Sem esse pão, o pedido da criança com fome é, para Luiz Pacheco, música horrível que entra pelo ouvido e endoidece. A carência, a privação, torna-se loucura. E o nosso escritor maldito, maugrado a miopia profunda, consegue, através desse género de lucidez elétrica, ter uma visão espelhista, quixotesca, da realidade que o coloca à curtíssima distância (a de uma mão estendida) daqueles que partilharam consigo uma época, mas também à tremenda distância do intocável, do apenas conciliável pelo que há de inconciliável: na sua verdade, o pão; na verdade dos outros, outra papa – a fecal. O objeto e o dejeto. Reside aqui, parece-nos, uma aparente contradição de Luiz Pacheco: ele é tão mais igual a si mesmo, mais pachecal, mais visceral, quanto maior for a imundice em que os outros se movem, que é como quem diz, ele é tão mais objeto/sujeito quanto mais os outros forem dejeto. Mas ele precisa dessa matéria alheia para se erigir contra ela e construir o seu universo literário. Ele precisa do húmus dos outros para a sua charrua, para ganhar o seu pão. E no entanto, – novo paradoxo – ele é que é o marginal, o que está fora do mundo, o imundo. Mas o paradoxo dilui-se rapidamente para nos darmos conta desta evidência: ele precisa dessa matéria para mostrar, precisamente, o que ele, homem e escritor, não é. E fá-lo sendo ele mesmo abjeto, à sua maneira. Em “Guerrilla” afirma inclusivamente (e citamo-lo a partir da página 248 da sua biografia, assinada por João Pedro George) que a escrita não é nenhuma carreira, mas “um tapete sangrento”: “quando se escreve lá vai o nosso sangue a correr”.
“O que é o neo-abjeccionismo” é, em suma, um texto forte, pungente, que poderia ter o subtítulo de “Comunicação”, se o escritor não guardasse a palavra para o final do seu texto. Trata-se de um vocábulo todo ele solene, de letra maiúscula, imponente. Fecha uma longa declaração que começa com a identificação do que outorga – nome completo, idade, estado civil, naturalidade – e que anuncia um remate final, um pedido curto que é, no entanto, frase inteira, capaz de caber na mesma métrica de “Comunicação”: “Peço uma esmola.”
“O que é o neo-abjeccionismo” é um texto sério que envereda, de um modo aparentemente inocente e com um grande sentido do visceral, pela senda de diferentes temáticas que vão da perda à solidão, passando pela fome e pela miséria, para convergir na ideia de uma liberdade feita de inteireza moral, mas também do corpóreo, do abjeto, como crítica a uma liberdade artificial que se vive quando se está do lado do poder instituído. Imerso em toda uma estética da mendicidade, da pelintrice, Luiz Pacheco volta a mostrar-nos com o exemplo pessoal, enquanto patriarca de uma tribo vivendo na privação, que essa mesma estética está pronta a ser ultrapassada pela realidade na qual se move, e que tem, afinal, um único propósito: o de o levar a poder salvar-se (por metonímia, entenda-se poder salvar os seus também) no meio de tanta gente que, por não ter força, ou por não querer, já não o pode fazer.
Referências:
GEORGE, João Pedro, Puta que os pariu! a Biografia de Luiz Pacheco, Tinta-da-china, Lisboa, 2011.
PACHECO, Luiz, “O que é o neo-abjecionismo”, Exercícios de Estilo, Editorial Estampa, Lisboa, 1971.
PACHECO, Luiz, “O cachecol do artista”, Exercícios de Estilo, Editorial Estampa, Lisboa, 1971.
Internet:
ALMEIDA, António José de (realização) e ALMEIDA, Anabela de (guião), Luiz Pacheco – Mais Um Dia de Noite, Panavídeo, RTP2, 22 de Julho de 2005. Disponível em: http://vimeo.com/50425477