para o Daniel Pires, fraternalmente
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A introdução de António Telmo ao volume de Pascoaes onde a Assírio & Alvim reuniu os livros Londres. Cantos Indecisos. Cânticos[1] instaura certa mudança na abordagem do filósofo à obra do poeta. Este escrito constitui-se, pois, como documento precioso na cartografia do seu movimento mental. Oferece o registo seguro de uma inflexão que pude já qualificar como pensamento pós-atlântico[2].
Com o emprego desta expressão, significa-se o trajecto rectificador da excessiva ênfase gnóstica que Telmo, confessadamente, admite ter emprestado à sua História Secreta de Portugal, livro onde a “Teixeira de Pascoaes, o Poeta da Natureza”, aparece dedicado, no Ciclo do Povo, todo um capítulo.
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Por mais de uma vez lamentou António Telmo o prestígio – o falso brilho – da sua obra mais célebre, e o descaminho por que se terá extraviado entre o vulgo, amarrado ao fascínio do esotérico. Sem um módico de autocomplacência, o filósofo via nela um «agradável mentira»[3], pois que ali houvesse menosprezado a via vital da kabbalah e, por conseguinte, do vector judaico com que, subconscientemente, o nosso consciente cristão se compõe. Hipertrofiado este por uma gnose da fuga mundi, desumanização a que conduz a ingénita tendência titanesca com que o cristianismo força as portas do Céu[4], todo o equilíbrio se rompe. André Benzimra explica isto por força de um culto preferencial dos cristãos a El Elyon, o Altíssimo, nome de Deus hostil a toda a manifestação, e assistido pela soberania da Vontade que a morada de Kether, a Coroa, lhe infunde[5].

