A IDEIA – ANTÓNIO TELMO E TEIXEIRA DE PASCOAES: SETE NOTAS E UMA OITAVA, ACIMA, PARA UMA KABBALAH PÓS-ATLÂNTICA – 4 – por Pedro Martins

ideia1E, neste ponto, logo um novo passo nos conduz à consideração da árvore sefirótica. É quando Telmo, em pleno exercício da razão poética, referindo-se ao vespertino pôr do dia, asserta: “Entre nós, o Sol não se sepulta no horizonte, mas casa-se com a terra porque se põe nela”[17]. Aqui, o Sol está pela sexta sefira, Tipheret, como a terra (note-se que o filósofo desvaloriza imageticamente o pôr-do-sol oceânico, de flagrante observação finistérrea) está pela décima e última sefira, Malcuth. O pôr-se o Sol na terra envolve afinal alusiva referência à relação hierogâmica que, através da fecundante mediação yesódica (isto é, da sefira Yesod), une Tipheret, o Esposo, e Malcuth, a Esposa, na coluna central da Árvore da Vida. Fora de dúvida, por outro lado, que a doutrina cabalística consente outrossim o estabelecimento de analogias entre o Sol e a sexta sefira[18], e entre a Lua e a décima. Num texto posto no início da Viagem a Granada, António Telmo evidencia aliás este último aspecto, bem que permutando aí Tipheret por Metraton (ou seja, pela hipóstase arcangélica que lhe corresponde). Sublinhe-se, enfim, que na árvore sefirótica o lugar de Malcuth está referido ao Ocidente, como o de Kether ao Oriente[19].

  1. Entre as iluminações camoninas que genialmente inscreveu a crédito, o filósofo comprazia-se sobretudo com a do Velho do Restelo como uma representação cifrada da Velha Aliança, ou do Velho Testamento, e, por conseguinte, do judaísmo. A hipótese hermenêutica robustece-se como tese nas páginas tardias, bem mais escoradas, das Congeminações de um Neopitagórico e de A Aventura Maçónica; mas é no prefácio a Pascoaes que encontramos a sua primeira marcação teórica. Neste se assinala en passant que «o Velho do Restelo não é o que se tem julgado até agora», para logo se aditar: «Ele condena, como Dante Ulisses, aqueles que, imitando Prometeu ou Ícaro, seguem uma via ilegítima»[20]. Em síntese sumária, importa reter que os lusos nautas, com o Gama à cabeça – note-se bem: os representantes da gnose templária da Ordem de Cristo –, nos surgem aqui como titãs que, replicando Ícaro, forçam heroicamente em escalada as portas do Céu; e, imitando Prometeu, rebelam-se contra os deuses que intentam usurpar. Ao abandonarem o firme chão terroso para se aventurarem no elemento húmido, idealmente determinativo, em sua significação simbólica, de um outro, superior plano de existência, ei-los incursos na infração de vedados términos.

Indo algo além do argumentário, arguto e minucioso, que António Telmo empregou, dir-se-á, recuperando a lição de André Benzimra, que o Velho do Restelo, exarando um apólogo do elemento terra, responde bem ao judaísmo como uma religião sobretudo terrena, por oposição ao cristianismo, sobremaneira uma religião do Céu[21]. O confronto, acima aludido, entre Elohim (aquele aspecto do Divino, como Deus criador, que o judaísmo preferencialmente cultua) e o cristianíssimo El Elyon, continua aqui a fazer toda a diferença. E se o filósofo, n’A Aventura Maçónica, frisou haver o Velho afirmado, na estrofe 91 do canto IV d’Os Lusíadas, que até Cristo perdeu temer a vida[22], haveria também de subscrever, em abono da tese própria, a alheia adução de Benzimra: o primado da vida constitui um traço essencial do judaísmo, tradição para a qual a vida humana é o maior dos bens, o mais sagrado – e a tal ponto isto assim é que para o judeu a única felicidade concebível será a que ele pode construir neste mundo. Ademais, as próprias prescrições mais expressas do Schabath ficam suspensas se o seu cumprimento arriscar comprometer a vida de um ser humano[23].

Bem certo que na abordagem télmica ao tríptico poético de Pascoaes o cripto-judaísmo do Velho do Restelo aparece apenas sugerido; mas não deixa de ser significativo que esta sua indecisa intuição houvesse de alvorecer num contexto fortemente cabalístico como é o do escrito prefacial.

  1. A propósito de Londres, o primeiro dos livros prefaciados, António Telmo aproxima Tâmega e Tamisa.

O mistério do rio transmontano mostra a mágoa da alma portuguesa: “a tristeza própria do puro anoitecer”[24] envolvendo os que se entregam à cognitio vespertina, para nesta experimentarem – tal como nos Cantos Indecisos sucede – a indefinição crepuscular de um mundo que sofre por haver nele Deus longe de Deus. Eis a pura ideação de Sampaio Bruno, philosophe inconnu do Saudosismo…

O Tamisa convoca a tristeza declinante da civilização ocidental, sentimento em que Telmo entrevê “a tristeza sórdida do Inferno”, pois “em Londres há tudo o que o deus Baal traz consigo e o nevoeiro é a sua respiração feita de vapor, de ruído, de vício, de fumo e de uma dor imensa”[25]. E é já no exercício de uma Themuria tão imprópria (à luz da puridade hebraica) quão sedutora que o filósofo pode escrever: “O Tâmega e o Tamisa! Uma metade igual, uma metade diferente! Quão perto e quão longe!”[26]. A permutação da primeira e da segunda vogais há-de revelar-se determinante num autor para quem os fonemas são altamente significativos (já a comutação da consoante g pela consoante s induz à impropriedade da Themuria). Não por acaso, n’A Aventura Maçónica, pela meia voz hebraica – Natan – do alter ego Tomé Natanael, afirma António Telmo a propósito de alguns versos de António Nobre, que ali sujeita ao crivo de uma hermenêutica cripto-judaica: “A luz incorporada no som é o sentido”[27].

No texto prefacial de Pascoaes não explicita Telmo quaisquer princípios ou regras cuja aplicação, porém, se pressente subjacente às operações permutativas; mas está bem de ver que o caso é de gramática, e secreta, por sagrada.

Na cava cerração do a submisso à circunflexão acentual na palavra Tâmega dar-se-á porventura a nota do húmido véu umbroso que tolda o rio de Amarante ao cair da tarde. A tarde cai assim, aliás, como uma poalha dada pela névoa noctívaga que do leito fluvial se ergue – e isto num paradoxo tão aparente quão belos são os versos, convergentes, da outonal Elegia do Amor: “a folha que tombava/ era alma que subia”.

Depois, nas segundas sílabas das palavras, há o flébil e emudecido pelo i ridente – aspecto comutativo que não poderei deixar de assinalar –, e a este respeito muito ganharia o leitor em verificar, nas Congeminações de um Neopitagórico – naquela precisa parte onde o autor conclui dizendo que a arte poética é a Cabala dos loucos –, por que motivos, em plano análogo, no final da Idade Média portuguesa tal como Gil Vicente no-la dá em seus autos, “onde o cristão diz agouro diz o judeu agoiro”[28]. Um pouco adiante, Telmo esclarece-nos, acenando com a chave: “o i, décima letra, enquanto yod, do alfabeto hebraico, é aquele ponto luminoso irradiante (Tipheret) para oito direcções”[29]. Ciente, o judeu, de que aur, em hebreu, significa luz, jamais poderia aceitar que o latim aurum desse ouro e não oiro. Trata-se, para a gente de nação, de interpretar com exacção a palavra aurum na sua relação com a luz. Tanto mais que o vau, ou seja, o u, corresponde a Malcuth, “ali onde a luz toca o abismo e as trevas”[30].

Na Gramática Secreta da Língua Portuguesa, António Telmo é expresso em referir-se ao i, enquanto yod, posto no lugar de Tipheret, “como um Sol irradiante”[31], como “a luz ou o seu princípio”[32]. Neste momento, uma correspondência solar é algo que não nos deve já surpreender. Mas ajuda-nos a compreender que Telmo, confessadamente, tenha optado pelo plural da palavra Oiro em detrimento do plural da palavra Ouro, na hora de titular um dos seus Contos: “A Dama de Oiros está impregnada de uma luz que a Dama de Ouros não contém”[33].

Transponhamos agora para o nosso caso tudo o que vem de ser visto …

No i flamejante de Tamisa se significará, porventura, por contraste com o e esmaecido de um Tâmega cristãmente eterizado nos pegos abismáticos da noite da alma, o decaimento, pela materialização extremada, do arquétipo judaico da manifestação produtiva. O episódio bíblico do Bezerro de Ouro, sucessivamente notado por António Telmo[34] e André Benzimra[35], adverte-nos para o perigo ingénito que uma religião tão da terra como o judaísmo transporta consigo: o de sucumbirem os fiéis, ou a progénie que leguem ao porvir, no materialismo estreme, de que Londres, cingida pelo Tamisa, se ergueria como o paradigma. Uma certa fala da personagem do Judeu, no quarto quadro do Jesus Cristo em Lisboa, tragicomédia escrita a quatro mãos por Teixeira de Pascoaes e Raul Brandão, dá-nos disso um exemplo seguro: “Apoiado! Se ele é poeta, eu também sou poeta. Exaltando-se e batendo no peito com fúria: Eu também sou poeta. Crio como Deus. Quantos países tenho tornado férteis! Quantas fábricas construí! Quantos rios canalizei!” Quem fez Londres e Paris? Fui eu! Fui eu!”[36]

Ao Sol irradiando do yod que o nosso i vem afinal a ser, corresponde talvez uma certa noção do judaísmo – a de Moshe Idel – como “a religião do que se faz durante o dia e não do que se faz durante a noite” – tão certo nenhum mandamento fazer alusão ao meio da noite[37]. No indeciso cristianismo de Pascoaes, o Outono e o crepúsculo serão bem símbolos daquele limiar em que a Saudade se nos oferece em síntese compromissória. Por isso todo o Marános está – mas não está – nos dois primeiros cantos do poema: o primeiro, nocturno, rigorosamente cristão na etérea figuração de Eleonor; o segundo, diurno, judaico, na afirmação esplendorosa da Pastora. A Saudade vem depois…

  1. António Telmo faz ainda notar a analogia que pode ser estabelecida entre os vinte e dois Cânticos do livro com esse mesmo título e as vinte e duas letras do alfabeto hebraico ou as vinte e duas lâminas do arcano maior do Tarot, matéria profundamente impregnada pela kabbalah. “Claro que o autor dos Cânticos não deve ter pensado minimamente nisso” – acrescenta o filósofo[38]. Mas talvez nos devamos em seguida interrogar quanto ao motivo por que são igualmente vinte e dois os cantos por que se reparte um livro de Pascoaes tão comprovadamente marcado pela tradição hebraica como seja o seu Regresso ao Paraíso. Tudo isto foi por mim tratado em O Anjo e a Sombra – Teixeira de Pascoaes e a Filosofia Portuguesa[39], e é para lá que remeto agora o leitor.

“A corrente de religiosidade portuguesa onde Pascoaes pôs a navegar o seu barco tem a remota origem em Prisciliano, mas foi com Sampaio Bruno que se revestiu de forma filosófica”[40]. A despeito da continuidade por António Telmo invocada entre estes dois vultos – e aqui a virtude explicativa da comum matriz persa, por remota que esta seja, deve bem ser levada em conta –, não se pode negar que entre elas se verifica uma mudança considerável de acento tónico: de uma gnose sobretudo apoiada na Natureza para uma kabbalah em que as energias espirituais prorrompem, irresistíveis, na criação externada pela manifestação espácio-temporal. Pelo menos, não será outro o sentido último da obra-prima brunina, a fazer fé na leitura que d’A Ideia de Deus nos oferece Telmo no seu escrito, já citado, sobre “Sampaio Bruno, “O Encoberto”. Será, de resto, da mesma ordem a variação (não mera cambiante, tão-pouco ruptura abrupta) verificável no trânsito da História Secreta de Portugal, onde Pascoaes nos surge como “O poeta da Natureza”, ou da conferência da década de 80 sobre o Regresso ao Paraíso, arquivada em Filosofia e Kabbalah – casos em que a verticalidade aprofundante de uma gnose associada ao suporte das formas naturais se impõe sobremaneira –, para o escrito prefacial que viemos singelamente anotando. Entre um e outro pólo transcorre o fluxo íntimo de uma tensão indecisa, que é a do marrano que António Telmo confessou ser. Nada nele afinal se nega, perde ou contraria: na grande arte da síntese se revê Velho no Restelo o navegador ancião que, enriquecido por todas as viagens, volta a pisar terra firme.

 Notas:.

[17] Idem, p. 10.

[18] Cfr., a este propósito, Carlos Aurélio, Mapa Metafísico da Europa, Lisboa, Fundação Lusíada, 2003, pp. 95-97.

[19] Cfr., a este respeito, Les Cahiers de la Franc-Maçonnerie – n.º 16: Franc-Maçonnerie et Kabbale, Editions Oxus, 2012, pp. 47 e ss.; e o iluminante ensaio de André Benzimra, Exploration du temple maçonnique à la lumière de la kabbale, Paris, Dervy, 2007.

[20] António Telmo, “Introdução” a Londres. Cantos Indecisos. Cânticos, de Teixeira de Pascoaes, p. 11.

[21] André Benzimra, Contribution maçonnique au dialogue entre les religions du Livre – le gardn secret de réconciliation, pp. 60 e ss.

[22] António Telmo, A Aventura Maçónica – Viagens à volta de um tapete, seguido de: Autobiografia e Sobrenatural em Luís de Camões, Sintra, Zéfiro, 2011, pp. 112-113.

[23] André Benzimra, Op. cit., p. 60.

[24] António Telmo, “Introdução” a Londres. Cantos Indecisos. Cânticos, de Teixeira de Pascoaes, p. 12.

[25] Idem, p. 14.

[26] Idem, p. 13.

[27] António Telmo, A Aventura Maçónica – Viagens à volta de um tapete, seguido de Autobiografia e Sobrenatural em Luís de Camões, p. 92.

[28] António Telmo, Congeminações de um Neopitagórico, p. 140.

[29] Idem, p. 141.

[30] Idem, ibidem.

[31] António Telmo, Gramática Secreta da Língua Portuguesa, Lisboa, Guimarães, 1981, p. 40.

[32] Idem, p. 49.

[33] António Telmo, Congeminações de um Neopitagórico, p. 141.

[34] António Telmo, Prefácio a Barros Basto – A Miragem Marrana, de Alexandre Teixeira Mendes, Porto, Ladina, 2007, pp. 10-11.

[35] Op. cit., p. 61.

[36] Raul Brandão e Teixeira de Pascoaes, Jesus Cristo em Lisboa – tragicomédia em sete quadros, Lisboa, Assírio & Alvim, 2007, p. 79.

[37] Moshe Idel, Cábala hebrea y cábala cristiana, Buenos Aires, Lilmod, 2010, p. 58.

[38] António Telmo, “Introdução” a Londres. Cantos Indecisos. Cânticos, de Teixeira de Pascoaes, p. 17.

[39] Pedro Martins, O Anjo e a Sombra – Teixeira de Pascoaes e a Filosofia Portuguesa, s/l, Pena Perfeita, 2007, pp. 177 e ss.

[40] António Telmo, “Introdução” a Londres. Cantos Indecisos. Cânticos, de Teixeira de Pascoaes, p. 18.

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