CARTA DO RIO – 52 por Rachel Gutiérrez

riojaneiro2

A Carta é do Rio, mas desejo falar de Londres, que pude revisitar recentemente em sua deslumbrante Primavera.

Para quem se afasta da cidade carioca, cada vez mais violenta e inóspita, o choque cultural é inevitável. Já na chegada ao aeroporto de Heathrow, pude observar o movimento constante e fervilhante de passageiros extraordinariamente silenciosos, se pensarmos no número imenso de pessoas que circulam com malas, crianças, carrinhos etc. Ninguém se choca com ninguém, como se um balé tivesse sido coreografado e ensaiado suficientemente para que tudo transcorra na mais perfeita e tranquila ordem. Às vezes, um atrasado parece correr mais do que os outros, mas há pouca agitação, embora todos caminhem de forma acelerada. Enquanto minha irmã e minhas sobrinhas procuravam obter informações para garantir nosso retorno bem orientado e tranquilo, fiquei tomando conta das malas e mais uma vez me surpreendi com um certo ar de eficiente segurança que admiro, em geral, nos europeus. Eles me dão a impressão, que pode ser falsa, é claro, de que dominam mais a arte de viver.

Costumamos nos hospedar em Hampstead, no bourough de Camden, não muito longe do centro, mas suficientemente afastadas para que o silêncio seja ainda mais repousante e se deixe despertar apenas pelos muitos passarinhos da manhã. O hotel é uma velha casa vitoriana, que se harmoniza perfeitamente com as mansões dos ricos moradores do bairro que abriga a Casa de Freud, o comovente museu de John Keats, que percorri demoradamente, e o amplo parque Hampstead Heath.

John_Keats_(4625082560)

Só carreguei comigo um pequeno livro de Virginia Woolf, composto por Reminiscências, um Esboço do Passado e Lembranças de sua casa da esquina do Hyde Park e dos encantos de Bloomsbury. Em uma página do Sketch (Esboço), ela se queixa de que o Passado, que está procurando evocar, é constantemente afetado pelo presente de sua vida daquele momento de jovem escritora principiante. O livro, aliás, chama-se Moments of Being, que adquiri em 1988, quando frequentei um curso de Women’s Studies na Universidade de Londres. Tratava-se agora de uma releitura, um reencontro com um texto quase esquecido. E percebi que no meu momento, o que estava acontecendo, ao contrário, é que eu fui me deixando afetar pelas lembranças de outras experiências londrinas, que inspiraram até mesmo uns versos um tanto tristes:

       (…) O mundo é outro aqui

        – so civilized

       (…) Londres, devo partir

       Meu mundo é outro

       Lá onde beleza e encanto

        Ocultam o escândalo

        – a miséria

       (…) E sonharei contigo pensando na parcela

       De culpa que há em tua beleza

       No que fizeste ao mundo criando o teu império

       No que te faz o mundo

      Passada a tua realeza. (…).

Mesmo apaixonada pela cultura inglesa, sempre tive consciência de sua responsabilidade histórica, que agora se exacerba com o problema da imigração indesejada e difícil de conter, e o de seus desentendimentos com a União Europeia.  Mas isso não importa agora.

Os tempos são duros no mundo inteiro. E uma viagem de férias é uma lufada de ar fresco, um moment of being de se guardar com carinho na memória. A primeira ida ao centro da cidade, na parte alta daqueles ônibus vermelhos, foi puro encantamento. Londres está toda verde, toda florida, as árvores pouco podadas são frondosas, protetoras; as flores colorem as sacadas, os jardins, os parques, que se sucedem, um após o outro, cada vez mais verdes, generosos pulmões da cidade cujo ar parece puríssimo. Ah! os jardins de nomes delicados: Kew Gardens, Kensington Gardens, e o grandioso Hyde Park, que abriga o palácio da rainha.

Não se ouvem businas, o trânsito é silencioso e flui com eficiência.  Sempre penso em Londres como uma cidade majestosa. Não no sentido de imperial ou esmagadora, mas como uma nobre mãe ou avó acolhedora e boa, que nos embala e mima. É confortável como o estilo das casas e dos móveis ingleses. Basta lembrarmos a decoração dos interiores do Palácio de Buckingham, que o filme A Rainha, com Helen Mirren, mostrou claramente. O conceito inglês de conforto, nos palácios e fora deles, também em seus hotéis, restaurantes e pubs é simples, depurado, essencial.

 Voltei à Cafeteria da Russell Square, quase em frente ao Russell Hotel, que Virginia Woolf, T.S.Eliot e muitos outros frequentavam, onde já tive a oportunidade de tomar o chá das 16,30, com todos os seus britânicos requintes. Fica bem perto do monumental Museu Britânico, onde desta feita só visitei a exposição sobre o Enlightnenment (o Iluminismo), e pude constatar mais uma vez a potência dos ingleses nas áreas do saber, sua inesgotável curiosidade, sua vontade imperiosa de possuir o mundo também no nível mental da ciência e do pensamento. O poder econômico propiciou seu domínio enciclopédico do conhecimento e alimentou sua paixão pelas artes. Isso transparece igualmente no esplendoroso acervo do Victoria & Albert Museum, que só agora tive a oportunidade de conhecer. Do New Globe Theatre, reconstituição do teatro original de Shakespeare,  infelizmente, vimos apenas a parte externa porque os horários de visitas guiadas não coincidiam com os nossos, mas nos consolamos desfrutando de um belo almoço à beira do Tâmisa, no restaurante The Swan, que fica ao lado.  Outro desencontro foi com a Dulwich Picture Gallery, de que gosto muito e que visitamos em outras ocasiões. É um pequeno museu do início do século XVIII, com a característica de se poder apreciar os quadros à luz do dia porque ousadas claraboias, concebidas para esse fim, fazem parte de sua arquitetura. O fato é que chegando ao bairro de East Dulwich, descobrimos um bistrô francês numa antiga casa vitoriana restaurada com sofisticada decoração, que nos seduziu e acolheu para outro lauto almoço regado com um Rouge Maison honesto e aveludado. Afinal, Londres, cuja comida já teve má fama durante tantos anos, de uns tempos para cá oferece todo tipo de bons restaurantes. E em lugares mais comuns, não deixamos de apreciar seus populares peixes com batatas fritas.

Preciso ainda falar no reencontro com a Bath de Jane Austen e a descoberta de Colchester, a mais antiga cidade do Reino Unido. Fica para a próxima Carta.

 

3 Comments

  1. “…a potência dos ingleses nas áreas do saber, sua inesgotável curiosidade, sua vontade imperiosa de possuir o mundo também no nível mental da ciência e do pensamento …”
    Tenho pelos Ingleses uma admiração enorme, aceitando os seus defeitos e aclamando as suas virtudes. Londres é a minha cidade por excelência, depois do meu Porto.
    Ao ler esta sua crónica, transportei-me para a cidade que já não visito há quatro anos.
    E que saudades senti!

  2. Com prazer , e uma ponta de inveja leio sua carta/crônica.Ah Rachel,você é uma sofisticada.Tudo o que vc escreve tem uma propriedade e um conhecimento ,sem pedantismo , que me encanta.! Que bom sair deste Rio que está se tornando um mar de desencantos e angústias. Quando terminará isso.? Nem preciso querer, sei que vcs aproveitarão tudo.bjs

  3. Querida Raquel,viaje com você nessa sua carta. me vi tomando chá vendo a paisagem Londrina.Meu filho também adorou conhecer Londres.Saboreio suas sábias palavras.Um grande abraço.Ana Sousa

Leave a Reply