MOEDA ÚNICA E EMERGÊNCIA DO IMPÉRIO GERMÂNICO – por JEAN CLAUDE WERREBROUCK

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

euro - IV

 

Moeda única e emergência  do  império germânico

Jean Claude Werrebrouck, Monnaie unique et émergence du nouvel empire germanique

Blogue la crise des années 2010, 20 de Março de 2015 

 

O texto que se segue apresenta em 14  pontos a  lógica monetária  que  leva  gradualmente a uma dominação alemã num espaço  de vassalagem assim criado.

Partamos de uma relação de troca simples que iremos gradualmente enriquecendo

(1) A  circulação  de dinheiro entre bancos

Quando A  paga um bem ou um serviço fornecido por B, a moeda vai  fluir do banco do sujeito A para o banco do sujeito B. Claro, operações inversas também ocorrem diariamente e o equilíbrio pode ser mais ou menos garantido.

 (2) o mercado monetário.

Ainda se um desequilíbrio permanente se  manifesta, a moeda circula maciçamente, por exemplo, de  um banco   A  para o  banco   B, e a questão  é, então, a de se o banco  A tem suficiente liquidez ou títulos de dívida, que poderiam servir como garantia para o banco B. Na prática os bancos podem concedem uns aos outros créditos. Isto é o que acontece no que é chamado o mercado monetário ou da moeda.

Os bancos também têm também moeda que figura na conta que cada um deles tem no Banco Central e neste caso figura no passivo deste último banco. Na prática, quando a moeda flui massivamente  do  banco A para o  banco B, a conta do primeiro junto do Banco Central reduz-se enquanto a conta de banco B junto desta mesma entidade central aumenta  Se o dinheiro acaba por faltar,  então o Banco Central pode conceder crédito ao banco vítima da fuga de moeda .

(3) A circulação da moeda entre países.

Este pequeno exemplo pode ser retomado  quando A e B são países e não bancos como no caso anterior. Se então A tem  um défice na  sua  balança comercial, a moeda vai fluir em direcção a B, que se torna o país com excedente.  Compreende-se que A representa talvez a Grécia e B  pode representar  a Alemanha.

(4) Circulação de  moeda e variabilidade das taxas de câmbio.

Quando as moedas são diferentes,  uma operação cambial deve ser realizada. Teoricamente, se todos pagarem na moeda do outro, a moeda de B é muito solicitada, todos a procuram, é o nosso caso presente : ao país  A,  país deficitário ou pais importador líquido,  é necessária muita moeda de B. Inversamente,  a moeda  de A  não é procurada uma vez que   B compra muito pouco ao país  A. Porque a moeda de B é muito procurada , a sua procura no mercado cambial aumenta … e, portanto, aumenta o seu preço. Inversamente, a  moeda de A é desvalorizada… ou seja,  o seu preço desce. O resultado é que a taxa de câmbio é afectada pelo desequilíbrio  comercial . Claramente, a Grécia deve sofrer uma desvalorização e a Alemanha uma reavaliação.

(5) Os mercados monetários e o espaço internacional .

Se um país está numa situação onde as taxas de câmbio são administradas pelas autoridades públicas (Estado, ou até mesmo Banco Central submetido ao Estado ) a situação é rapidamente bloqueada, porque os bancos gregos, tornam-se  progressivamente ilíquidos e devem pagar os prémios de risco mais elevados pelo  crédito que lhes é concedido pelos bancos alemães. Claramente, isto manifesta-se por taxas cada vez mais altas  no mercado monetário e, em última análise, por um risco de bloqueio: as taxas de juro na Grécia tornar-se-ão cada vez mais altas e os importadores terão cada vez mais dificuldade em financiarem as  suas importações.

(6) A  circulação de  moeda no contexto do  “défice sem lágrimas”.

Portanto, esse mecanismo não pode intervir se a Alemanha aceita a moeda grega  em pagamento do défice. A situação seria interessante para a Grécia, porque seria suficiente que os bancos gregos emitam  créditos ( o equivalente a emitir  dinheiro) para pagar as importações da Alemanha. É precisamente o que fazem  os Estados Unidos com dólares que (emitem) imprimem destinados à China, país que  tem um excedente comercial relativamente aos  EUA.

(7) Mas a Grécia sofre  de um “défice com  lágrimas”.

No entanto, uma tal situação, ou seja, uma relação Grécia/Alemanha formalmente idêntica à dos Estados Unidos em  relação à  China é impensável: a moeda dos Estados Unidos é uma moeda perfeitamente líquida (trocável sem demora e em quantidades consideráveis em qualquer ponto do planeta), enquanto a moeda grega é particularmente ilíquida  claramente não se pode  fazer muita coisa com os Dracmas).

E, por conseguinte, o comércio alemão na Grécia é muito dificultado  por esta situação: os bancos alemães não vão acumular Dracmas , uma vez que  estes  não são activos procurados. E se os bancos alemães exigirem outra coisa que os  Dracmas, por exemplo, se exigirem  dólares, esta injunção só  pode ser honrada se e só se  a Grécia  tiver  uma balança externa positiva com os americanos, o  que não é o caso.

É   aí que a moeda única se pode tornar  pelo menos parcialmente interessante.

8) A solução manca da moeda única.

A partir da existência da moeda única, já não há nenhuma desvalorização/reavaliação que penalize os exportadores alemães… os quais beneficiam de uma garantia de terem  assegurados estes  mercados. Esta garantia é também uma outra: a ver a sua vantagem de produtividade compensada por uma guerra das moedas.

Em contrapartida, permanece o problema  da  iliquidez  dos bancos gregos sangrados por um fluxo constante de euros que se dirigem para os bancos alemães, em contrapartida de  importações sempre crescentes provenientes deste mesmo país. Os problemas vistos nos pontos 4 e 5 (cf. acima) permanecem por conseguinte postos.

9) TARGET: uma prótese provisória.

Mas é possível imaginar um dispositivo que mobiliza os bancos centrais nacionais e em que  se que permita  aos bancos gregos continuarem  a financiar o défice das  suas  trocas externas, e aos bancos alemães continuarem a receber os euros gregos dos seus clientes. Resumidamente um dispositivo que mascara o défice e permite   uma fluidez sem constrangimentos das trocas entre países da zona, particularmente entre os países com  défice e os países  com excedente.

Este dispositivo é o que é retido pelo  sistema TARGET. Porque os bancos gregos são permanentemente vítimas de falta de liquidez, vão contrair empréstimos da  moeda central (a do BCE) contra a entrega de   activos (dívida pública por exemplo) que permitirá saldar as trocas com os bancos alemães. Na prática, foi decidido que o trabalho é  realizado pelos bancos centrais nacionais. O dispositivo significa por conseguinte que o sistema euro se encarrega dos  activos gregos cujo valor se torna  cada vez mais duvidoso: são sinais de riqueza em quantidade crescente que não assentam senão sobre   uma economia fragilizada pela sua incapacidade em equilibrar as suas trocas externas.

Normalmente o dispositivo é auto – bloqueante, excepto se for decidido, o que foi feito, que o colateral da moeda emitida, os activos gregos, sejam considerados de boa qualidade. Tanto quanto a confiança existir, as coisas podem-se perpetuar. É necessário, por conseguinte,  compreender efectivamente que o excedente  alemão no que diz respeito à Grécia assenta  numa   uma acumulação de créditos duvidosos no Eurosistema. O que nos reenvia  aos pontos 6 e 7 acima.

10) Os Alemães não são Chineses.

A grande diferença entre o par  China/USA e o par  Alemanha/ Grécia é que no primeiro caso a China acumula sem demasiado dificuldades os cupões do Tesouro americano, enquanto que a visão alemã do Banco central faz temer a  todo  um  povo (o povo alemão) que um dia será necessário recapitalizar  o BCE devido aos seus créditos duvidosos. Como a recapitalização é feita pelos  Estados, por conseguinte, pelos  contribuintes,  compreende-se  que os  alemães temam um aumento da fiscalidade.

11)As reformas estruturais ou a matraca alemã.

Ainda que este medo seja  errado (um banco central é sempre refinanciador em  última instância) é necessário compreender que o governo alemão vela para que os países deficitários que sobrecarregam pesadamente  o Eurosistema em activos duvidosos, caminhem para um equilíbrio das suas contas externas. Este equilíbrio corresponde ao conjunto do campo das reformas ditas   estruturais,  as quais passam necessariamente por uma desvalorização interna  uma vez que uma desvalorização externa é uma impossibilidade lógica no quadro da  moeda única.

12) A manteiga e o dinheiro da manteiga.

Os alemães querem assim a manteiga: poder exportar maciçamente e sem constrangimentos e querem igualmente o  dinheiro da manteiga: não serem  vítimas dos efeitos perversos em termos de activos duvidosos que se acumulam no activo de um BCE de que são os  accionistas principais. Querem manter as suas exportações e exigem “reformas estruturais” na Grécia para não terem que   recapitalizar  o BCE. Exigem que os países do Sul fiquem  competitivos para não fragilizar as contas  do euro sistema, por conseguinte todos devem exportar….mas então quem vai importar se todos devem exportar ? O resto do mundo pode aceitar uma zona euro muito excedentária, espaço que afasta à escala do planeta as suas contradições internas?

13) Evitar a matraca: é necessário partir.

Os gregos gostariam de serem bem  tratados pelos Alemães como os EUA o são pelos  Chineses: os americanos podem emitir livremente  moeda e  activos duvidosos, os gregos não.

O futuro da Grécia assenta sobre a escolha entre a continuidade da desvalorização interna: a matraca e a miséria correspondente ou então  a saída do espaço da moeda única.

14) “Não às transferências!”: a condição do restabelecimento de um império germânico.

A pressão actual sobre a Grécia é fundamental numa lógica alemã  que não quer e não pode, de  nenhuma maneira,  aceitar um sistema de transferências entre Estados europeus. Se a Alemanha tiver êxito em  impor o seu regime, para além da Grécia,  a toda a Europa, ela  estará à cabeça e no centro de um império cuja periferia conhecerá uma imensa  regressão em torno de progresso económico e social.  Além de um regime de vassalos   no interior do  império, pôr-se-ia  a questão  da emergência de inimigos fora do império. Os EUA, a China, etc.…. podem aceitar uma deslocação das suas procuras internas pelo colossal excedente   externo europeu assim constituído para fortalecer  a dominação alemão na Europa? Muito  felizmente responder-se-á que  o risco será limitado por uma forte apreciação do euro. Uma apreciação que, infelizmente, exigirá ainda mais competitividade no Sul e por conseguinte um  regime de vassalagem ainda mais violento ….

 

Jean Claude Werrebrouck, Monnaie unique et émergence du nouvel empire germanique.

Texto publicado em La crise des années 2010      e disponível em :

http://www.lacrisedesannees2010.com/2015/03/monnaie-unique-et-emergence-du-nouvel-empire-germanique.html

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