Manuel de Castro, desaparecido aos 36 anos, que Mário Cesariny na sua resenha, “Para uma cronologia do surrealismo português” (1973), e a propósito do Café Gelo, coloca ao lado de Natália Correia, Luiz Pacheco, Manuel de Lima, Virgílio Martinho, Ernesto Sampaio, João Rodrigues, Alfredo Margarido, Afonso Cautela, José Sebag e outros, chamando-o ao surrealismo, deu a lume apenas dois livros, Paralelo W (1958) e A Estrela Rutilante (1960), havendo notícia dum anterior, Zona, também de 1958, e que o autor parece ter esquecido propositadamente. O derradeiro, A Estrela Rutilante, está presente em três das quatro cartas que damos a conhecer para Helder Macedo, então em trânsito para Londres, via África do Sul, e a quem agradecemos a oferta generosa de publicação, bem como a apresentação, que muito nos honra, agradecimento que estendemos a Carlos Loures, que também nos presenteou com um inédito. Por essas três cartas podemos precisar que a edição do livro aconteceu entre o final de Abril e o princípio de Maio. Não obstante a quantidade reduzida da obra, apenas três opúsculos, a que se junta um número ainda indeterminado de dispersos espalhados por publicações periódicas ou colectivas, o conjunto pode ser tomado por extremamente significativo, estando longe de ter a atenção que requer e merece, pois Manuel de Castro é hoje um desconhecido e a bibliografia sobre ele é quase inexistente. Entre a que existe, paga a pena registar o conjunto que Luiz Pacheco lhe dedicou um ano após o falecimento, com o título “Os Poetas Sonegados” (República, 19-10-1972; rep. em Literatura Comestível, 1972). O conjunto é formado por texto, de excelente recorte crítico, e por carta do poeta a Luiz Pacheco, datada de Heidenheim, 22-4-1966. Pacheco alinha aí Manuel de Castro e Herberto Helder, companheiros de convívio na quadra do café Gelo, cujo cara a cara familiar se encontra presente numa das cartas para Helder Macedo, a primeira, de Fevereiro de 1960.
Herberto Helder, seu próximo, incluiu-o no conglomerado da sua marcante escolha, Edoi Lelia Doura – antologia das vozes comunicantes da poesia moderna portuguesa (1985) preferindo-o a tantos outros nascidos na mesma época, ou pouco depois, alguns com vasta obra premiada, coisa que nem por excepção sucedeu ou podia ter sucedido a Manuel de Castro, que apenas deu a conhecer, em edições absolutamente marginais, por si financiadas, três curtos conjuntos de poemas. A inclusão na antologia de Herberto podia porém ter bastado para um editor responsável se preocupar em reunir os poemas e os dispersos em prosa que ele deixou, tudo em conjunto pouco mais do que um volume médio. Esse trabalho ficou infelizmente por fazer durante quase trinta anos e só agora, em Dezembro de 2013, se deu um primeiro passo nesse sentido, com a publicação do livro Bonjour, Madame, que reúne parte significativa da escrita em verso do autor. Fica ainda assim por recensear e recolher toda a colaboração em prosa que ele deu a inúmeras publicações durante a década de 60 do século passado. Neste número da revista, pretendemos chamar a atenção para a obra e para a figura de Manuel de Castro, dando se possível um passo para o resgate de tão singular criador. Em primeiro lugar com a publicação de 4 cartas inéditas para um seu companheiro de geração, Helder Macedo, a quem já havia consagrado a “Notícia pessoal para um Amigo em Londres”, poema incluído em Paralelo W, e uma outra, também inédita, para outro camarada de grupo, Carlos Loures. As cartas são riquíssimas de linguagem, mostrando por si só a expressiva verbal muito variada que nele havia. Em jeito de homenagem juntamos uma nota sobre os seus versos, outra sobre a sua geração – a do Café Gelo – e muitos elementos esparsos, em prosa e em poesia, de homenagem ao poeta de estrela rutilante e à sua geração. Prometemos para número próximo desta revista uma nova nota sobre os seus dispersos em prosa, em jeito de subsídio para que se possa fazer em breve a peça tipográfica que há muito devia estar feita, reunindo os seus trabalhos dispersos em prosa.