REFLEXÃO – Excesso de exercício – por Adão Cruz*

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*Médico cardiologista

Tivemos há dias na reunião semanal do Serviço de Cardiologia do Hospital de Vila Nova de Gaia uma palestra muito útil sobre exercício físico.

Vários estudos credíveis mostram que o exercício considerado moderado diminui a mortalidade, aumentando a longevidade em 6-7 anos. O excesso de exercício funciona ao contrário. Não só se perdem esses benefícios, como aumenta a mortalidade e diminui a longevidade.

O problema reside na dificuldade em estabelecer o limite entre o exercício moderado e o excesso de exercício. Já não entramos em linha de conta com o exercício violento, como no desporto de competição. Pelo que hoje se sabe, que é muito mas está longe de ser tudo, e pela nossa experiência, o desporto violento não traz qualquer benefício físico, pelo contrário, dele podem decorrer muitos malefícios, mesmo não falando nas situações dramáticas que todos conhecemos.

O ser humano tem as características próprias da sua espécie, e cada pessoa, por sua vez, tem as suas características individuais, diferentes de pessoa para pessoa. Em minha opinião, o homem não foi feito para correr. Feitos para correr foram o leão, o leopardo e tantos outros. O homem também não foi feito para estar parado como o cágado. Daí que deva fazer exercício físico compatível com as suas capacidades e necessidades e nunca de forma irracional e massificada.

Todos os dias em todos os lugares, vemos montes de gente a correr, novos e velhos, como se fossem acudir a um incêndio. Esfalfados, suados, obcecados, eles lá seguem não se sabe bem à procura de quê. Penso que não é saúde o que vão encontrar no fim da corrida. Nada demonstra que irão colher benefícios, e a nossa experiência tem mostrado que em muitos casos vão ao encontro de malefícios. Como disse atrás, as pessoas não têm todas a mesma preparação e as mesmas capacidades, daí podendo resultar, para além de uma ausência de benefícios, consequências mais graves ou menos graves.

Onde estará então o limite para além do qual o exercício não será benéfico? Em sentido prático, deitando mão do que sabemos e de muitas dúvidas que a investigação nos deixa, e também de algum bom senso, eu atrevo-me a acreditar que o limite está onde começa a corrida e todo o esforço que se lhe assemelhe. Por isso, nunca aconselhei nenhum paciente meu, novo ou velho, ainda que uma avaliação e estudo correctos tivessem mostrado ausência de patologia, a correr ou a praticar qualquer desporto violento. Sempre disse que é bom mexer-se, andar, caminhar, fazer ginástica, piscina, andar de bicicleta, pequenos desportos de entretenimento e muitas outras coisas de que se goste, mas sem aquela ideia macaquinha de querer saber do que se é capaz ou de querer ultrapassar-se a si mesmo.

                                                                                                                                                             Adão Cruz

 

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