Recebi estas cartas do Manuel de Castro quando estava em Johanesburgo, num trânsito lento e complicado entre Lisboa e Londres. Mantive, durante esse tempo e nos anos 60, em Londres, uma intensa correspondência com os amigos em Lisboa e em Paris (Fernando Gil, João Vieira, José Manuel Simões, João Rodrigues, Gonçalo Duarte, Lourdes Castro, vários outros associados ao chamado Grupo do Gelo e ao KWY) de quem tenho as cartas. Das minhas, é claro, não tenho cópias. Por esse tempo também escrevi meia dúzia de contos, uma novela e um romance que, por razões de vária ordem (entre as quais a Censura em Portugal), nunca publiquei.
Em Dezembro de 1959, tinha saído em Paris o KWY 5 que, inusitadamente, além das habituais serigrafias (nesse número, de João Vieira, Lourdes Castro, Jan Voss e Jorge Martins), incluía uma separata com poemas de Manuel de Castro, José Manuel Simões, Mário Cesariny de Vasconcelos e António Ramos Rosa, além de, em “extra-texto”, poemas de Luiz de Macedo e de Pedro Tamen e um artigo de Vicente Aguilera-Cerni (El Problema Social en el Arte Abstracto). Se recordo correctamente, considerei que a apresentação gráfica algo banal dos poemas era inadequada à revista, mas do mal o menos. Escrevi aos amigos a dizer o que achava e, sobretudo, a ironizar a inclusão de Luiz de Macedo (se calhar um senhor perfeitamente estimável) pelo facto extra-literário de ele ser (salvo erro) o director da Casa de Portugal em Paris. Compromissos nesse tempo inaceitáveis?
Devo também ter feito uma “descrição” irónica do Manuel de Castro de que ele não gostou. Como não gostou do comentário que eu depois teria feito ao seu incongruente emprego burocrático na Câmara Municipal de Lisboa. A primeira carta aqui transcrita (datada de “8 ou 9 de Fevereiro de 1960”) é obviamente um contra-ataque, não menos irónico. Intransigências mútuas, como nos competia. Base da amizade possível num tempo impossível. Com as outras três cartas a mostrarem como “a cidade estava cada vez mais inclinada”. Incluindo um poema então inédito (e que me seria dedicado quando/se fosse publicado) a dizer porquê.
Helder Macedo
Londres, Julho de 2013
PRIMEIRA CARTA [manuscrita; 4 páginas]
Lisboa 8 ou 9 de Fevereiro 1960
Caríssimo:
Li crítica tua a KWY – e parece-me pouco grata [justa?] embora aceitável; a partir de certos limites as opiniões têm a validade do critério crítico através do qual são formuladas – e é por isso que digo aceitável. Pouco justa porque não se identifica inteiramente com a minha. A este respeito – é tudo.
Muito certa e bem apanhada [sublinhado no texto] é a tua de mim descrição. Bastante próxima e por vezes exacta. E para mim surpreendente. Porque é que não te dedicas a isso? A obra, rapaz, a obra. O que me parece é que a preguiça te toma tempo demasiado. Continuas a escrever poemas e rebentas com a vocação: novela, ensaio, romance, biografia (porque não?). Biografia. Pensa nisso. (sem muito humour).
A cidade, aqui, declina. Quero dizer – inclina-se mais.
Eu – sobrevivo. Vagas actividades burlescas – emprego – várias actividades menos burlescas – literárias. Tudo numa mais ou menos forte miséria. O desencanto – sabes? O punho que esmurra poeiras, a sordidez de pactuar, a covardia da inércia. O herói está neste momento agarrado às coxas do soldado e lambe-lhe sofregamente a glande. Como é de ver – há pouca hipótese.
Aguardo a chegada de José à cave do Martinho. Sinto-me abúlico.
No dia seguinte:
Sinto-me abúlico.
Ainda a propósito KWY: foi patusco. Da cidade: inclina-se mais. Fala-me de Johanesburg; das pretas: que tal as pretas?; dos bifes! Da vida ai ai intelectual dos pretos.
A sério: sempre me pareceste um rigorista dotado do sentido da medida, mas barroco. Internamente barroco. O que escreves está sempre cuidadosamente construído, mas umas vezes tem a força da convicção, outras perde-se no pó dos medalhões.
Refiro-me ao livro, aos contos – só conheço dois – e ao último poema que li. Sem ironia: estavas a calhar para uma Academia Portuguesa que fosse suficientemente francesa para caberes lá à maneira do Cocteau na outra.
Da cidade: está inclinadíssima.
Sinto-me realmente abúlico.
João Vieira trabalha. João Vieira é honestíssimo, capacíssimo de se aldrabar a si próprio segundo conveniências e pronto.
José Manuel parece que parte. Zanaga regressou. Herberto regressou. Herberto: veio mais santo. Está em estado de graça. Forte casou. Pepe casou (conheces o Pepe?).
A cidade está num incrível ângulo de inclinação.
Sinto-me abúlico.
Escreve – palavra.
Abraça-te o Manuel
SEGUNDA CARTA [dactilografada, última linha manuscrita; 4 páginas]
Lisboa Março 1960
Caro:
Estive para não te escrever – até porque teria razão para o fazer.
A minha carta era ligeira, brincalhona – mas não continha a mínima intenção ofensiva. Eu não me estava a pagar de coisíssima nenhuma. Refiro-me às pequenas críticas literatas. Estou-me borrando. Tenho mais em que pensar… as literaturas… bem vês…é um que se lixe…
Se o não percebeste a culpa é tua… guarda-a…
Mas é pena… até porque sinceramente…
Vê se me entendes e deixemos isso…
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Disse-te que Lisboa estava inclinadíssima – e continua. Num ângulo verdadeiramente incrível.
De novo: fim de mês sai meu próximo livro, neste momento a imprimir, denominado: A Estrela Rutilante. É um livro hermético (no sentido religioso-poético do termo) e bastante bom. Não tem intestinos – já que isso te causa náuseas plutocratas. Enviar-to-ei lá para o Pó Boxe.
José ao que parece parte. Zanaga chegou. Eu fico-me, até ver. Há a hipótese de uma longa viagem à Ásia. Talvez Macau, talvez a Índia. É apenas uma questão de impulso. Se eu quiser… não sei bem se quero… Depende… Estou indeciso… Veremos…
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Por aqui – nada. Revistas? Ora, ora, ora… Panfletos? Ora. Pintura? Cinema? Teatro? Poesia talvez? Ora. Saiu n.º 5 Ramos Rosa, Cadernos Meio-Meio-Meio-Dia; com duas poemas minhas. Boas poemas palavra! Tates bitates. Cada vez pior. Cada vez menos paciência.
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