Há dias, nos seus Biscates, Carlos de Matos Gomes ofereceu-nos um excelente artigo baseado na magnum opus de Aldous Huxley, “O Admirável Mundo Novo” e aludia a uma outra obra distópica – o “1984” de George Orwell. Obras de 1932 e 1948, em plena vigência do estalinismo, houve quem situasse ambas as ficções num mundo dominado por um capitalismo despótico, levado ao extremo de um racionalismo absoluto, próximo da assepsia emocional. O mundo que Huxley situa no ano 634 depois de Ford e Orwell 36 anos depois de 1948, com estados totalitaristas e regidos cientificamente vigiando e zelando por todos, não existe com os contornos de pesadelo descritos quer por um quer por outro. Mas muito do que ambos previram veio a confirmar-se. Não na forma, mas na essência. Dir-se-ia que não previram, mas que inventaram…
Frederik Pohl, (1919-2013), escritor norte-americano, um dos grandes mestres da chamada ficção científica, autor de uma saga de grande sucesso – “Gateway” – afirmou numa entrevista que não é possível prever o futuro e que, portanto, só resta aos escritores e aos seres humanos em geral, inventá-lo. Inventar o futuro parece ser um projecto que, quer a nível literário, quer no plano político, faz todo o sentido.
Os movimentos políticos baseiam a sua luta em objectivos que vão buscar ao passado, a conceitos de justiça social que remontam aos desideratos da Revolução Francesa. No debate que há anos ocorreu em Porto Alegre, no Brasil, entre Eduardo Galeano e José Saramago, a posição do autor de Ensaio sobre a cegueira, parece menos bela, mas mais realista. A utopia leva-nos a desejar para as gerações vindouras aquilo que entendemos hoje como bom. Mas, perguntava Saramago, quem nos garante que os vindouros consideram bom o que para eles desejamos?
Não se trata de inventar um futuro que recuse todos os pressupostos morais (tal como nas distopias de Huxley e de Orwell), mas da criação de uma nova moral, de um novo paradigma, com valores diferentes. Não de um caos, mas de uma nova ordem baseada no que a Humanidade tem de genuinamente bom. Não perguntem o quê – para responder, teríamos de usar um critério – o do passado, recusamo-lo; o do futuro, ainda o temos de inventar.
E depois saber como o construir.