A ADEGA DE FUNCK – CONTO FUNDADO DAS NOTAS DE HOFFMANN – de TEÓFILO BRAGA

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(1843 - 1924)
(1843 – 1924)

A adega de Funck

CONTO FUNDADO DAS NOTAS DE HOFFMANN

A ironia, quando não é despertada pela lucta incessante de contrariedades imprevistas, que cercam o espirito de duvidas e desesperos, e o deixam na prostração da indifferença e do cynismo, é uma doença, uma febre lenta, que vae devorando a existencia, depois de a ter despido de todas as alegrias. Observa-se no pessimismo do poeta. O riso com que a ironia se traduz, que é a expressão que mais de prompto lhe acode no accesso do phrenesi suscitado pela vista repentina de um contraste, para quem o comprehende, é uma visagem infernal, um esgar que gela, um arremedilho de cadaver sacudido por uma pilha galvanica. É uma descarga nervosa pela via muscular, como uma compensação, como notaram os physiologistas.{118}

A gargalhada é tambem a linguagem das grandes agonias; é esta polaridade mysteriosa da nossa natureza dupla, constituida já em aphorismo: os extremos tocam-se. A ironia, derivada do mesmo principio supremo, é a impressão abrupta de uma idéa infinita que se compara com outra finita, cuja disparidade intuitiva desperta em nós todas as vibrações do sentimento comico. A primeira manifestação do comico na vida foi por certo o grotesco; Susarion e Thespis caracterisavam os seus personagens com borras de vinho. Elle apparece-nos no mundo moderno como uma arma da burguezia contra a pressão do clero e as extorsões dos senhores feudaes, na Festa do Asno, nos serviços, nos fabliaux, nos baixos relêvos e goteiras das cathedraes. O pico, a agudeza do pensamento estão completamente materialisadas na imagem; eis o comico pela sua parte visivel ou objectiva, tanto da sympathia popular.

O humour é um gráo elevado; no contraste que se funda na antithese da acção e o pensamento, a fórma não corresponde, contraría mesmo a expressão da idéa, d’onde resulta uma monotonia triste; o esforço do que procura alegrar-se infunde nos que o contemplam uma melancholia indefinida, como na Viagem de Sterne.

A ironia é a impossibilidade de conciliar os elementos da antithese, ou o contraste mental que gera todo o sentimento comico: tal é o desespero{119} de Hamlet propondo ao seu espirito o problema insoluvel e eterno:

To be or not to be that is the question.

A imaginação de Hoffmann similha um kaleidoscopo onde estas trez cambiantes do sentimento se reflectem, confundem, se cruzam em direcções infinitas, formando um espectro a que chamamos o phantastico. A ironia, o humorismo e o grotesco succedem-se, como phases da sua inspiração. Quando elle sente estas inversões do systema nervoso, annuncio da tabes dorsalis que progride de um modo irremissivel, o pensamento então dá fórma a todas as vertigens; a dôr torna a creação pessoal, caprichosa; os retratos que elle faz são quasi sempre caricaturas, a incarnação de um riso de desespero. As bebidas e o seu cachimbo de Kumer vêm distrail-o da consumpção que elle observa a cada instante em si. O fumo que se ennovella em fórmas extravagantes no ár, e se dissipa como uma chimera fugitiva, representa-lhe os typos que reproduz nos seus contos. Ao fogão, na concentração intima da familia, o cachimbo povoa-lhe o aposento de sylphos e gnomons, que embalam a phantasia enlevada em sonhos incriveis, com musicas estranhas que o deliciam no egoismo do soffrimento que o corróe. Elle tem uma affeição particular ás pessoas espirituosas, porque lhes suppõe talvez a veia sarcastica proveniente de algum estado morbido. Quando se retrata caricaturisa-se.{120}

Muitas vezes acceita-se uma creação comica, rimo-nos, sem saber que a inspiração que a produziu foi a doença que arrebatou Molière, o desalento de Gil Vicente, a resignação de Scarron. Porque não procuraria Hoffmann distrair-se com o vinho, afogar n’elle a preoccupação do mal irremediavel, que lhe atacava a espinha dorsal?

O seu editor Funck, homem estimavel de caracter, a quem a especulação não poz em guerra com os que têm a infelicidade de precisar escrever, convidou-o para passar alguns dias na sua residencia em Bamberg. Funck tinha uma magnifica adega e lembrava-se perfeitamente d’aquellas expressões de Hoffmann: «Fala-se muito do enthusiasmo que procuram os artistas no uso das bebidas fortes; citam-se musicos, poetas que não podem trabalhar senão assim; eu não sei, mas é certo que com esta feliz disposição, direi, quasi sob a constellação favoravel, em que se está quando o espirito passa da concepção á realisação, as bebidas espirituosas acceleram a torrente das idéas.»

Funck tinha o mais excellente de todos os vinhos, como lhe chamava Hoffmann, o Porto, que no seu nome traz o segredo da sua força. O escriptor original era esperado com anciedade em Bamberg. Chegou por uma tarde fria. O céo estava escuro, carregado de nuvens; relampejava a espaços, como o preludio de uma grande trovoada nocturna. Quando a natureza é triste sentimos uma vontade de nos reconcentrarmos; o{121} lar domestico é a grande poesia do norte. Um dos maiores castigos no antigo direito germanico era a pena severa expressa n’aquella formula romana interdictio tecti; o banido é comparado ao lobo solitario; a casa era arrasada, tapado o poço, extincto para sempre o fogo do lar.

Hoffmann esquecia todas as dôres ao abraçar aquelle amigo; com toda a liberdade de uma confiança intima sentou-se logo ao piano. O phrenesi da inspiração fazia-o percorrer desesperadamente o teclado. Era a sua ultima composição, meio improvisada com o jubilo que sentia. Começou um canto com uma voz desentoada, que fazia arripiar os nervos; parecia que estava em delirio. N’isto um trovão rebentou com um estampido soturno.

—A natureza, disse elle para Funck, escarnece-se de mim, parodia-me a voz roufenha. Ha bastantes dias que tenho sentido humor para o romantico religioso. Jovis omnia plena! Hoje, não sei se é o excesso da alegria, predomina em mim uma exaltação humoristica levada até á idéa da aberração.

Funck continuava silencioso. Hoffmann permaneceu alheiado alguns instantes, como levado por uma serie de deducções, que absorvem fatalmente toda a contenção do espirito. Estava a diagnosticar-se; a prolongada doença dera-lhe um certo conhecimento do seu estado. Depois proseguiu:

—É notavel! Que diversidade de sensações agora. Disposições humoristicas, colericas, com{122} um humor musical exaltado, e sentimento de um bem estar com indifferença. Como conciliar tudo isto? O systhema nervoso inverte-se-me de dia para dia.

Restrugia um aguaceiro espesso. Ha no cair da agua uma magia, que adormece.

—Vamos, disse Funck, interrompendo aquella reflexão penosa, eu tenho um excellente remedio. Vejo-te tiritar com frio, de um modo que me tira a satisfação do agasalho que presto a um amigo. O seio de Abrahão deve estar com uma temperatura suave; refugiemo-nos lá.

—Como isso era bom! mas infelizmente as azas da poesia não nos desprendem da terra; a realidade é peior do que o sol para as azas de Icaro; ella toca-nos o corpo com mais aspereza do que o velho Satan quando experimentava o desgraçado varão da terra de Hus. Agora acho-me divorciado com a poesia, com a musica, com a pintura; são as tres furias que sob uma apparencia seductora surgiram das sombras do paganismo para attribularem-me o espirito.

—E por que não havemos de refugiar-nos, em uma tarde d’estas, no seio de Abrahão?—disse Funck procurando interromper a corrente das idéas afflictivas.—Não é tão dificil como pensas. Nem são precizas azas para ir lá. Para descermos basta obedecer á lei eterna da gravidade, que sobre nós pésa. Não sabias ainda que a gravidade é o nosso peccado original?

Hoffmann sorriu-se; o seu amigo tomou um{123} tom humoristico para se adequar ao caracter d’elle n’esse dia.

— Apesar da facilidade que apresentas ainda não resolvi o problema. Como iremos nós procurar conforto ao seio de Abrahão?

— Segue-me.

Funck caminhava adiante com um ár victorioso. Hoffmann sorria-se com um modo duvidoso, para que o riso o defendesse do logro que esperava. Desceram uma escadaria escura; uns ferrolhos pesados gemeram, como se se abaixasse uma ponte levadiça. Entraram. Era um subterraneo fundo, allumiado por um lampadario de bronze. Depois de affeito á sombra, Hoffmann pôde discriminar grandes toneis dispostos, como uma longa fila de cachaci-pansudos conegos.

Era a adega do seu amigo Funck. De facto havia ali uma temperatura tepida, de fermentação. Nenhum olhar importuno através da abobada calada.

—Se os velhos patriarchas, principalmente nosso pae Noé, não trocariam de boa vontade a tua adega pelo seio de Abrahão!—Hoffmann estava animado de uma alegria indisivel; era um homem de extremos; a sensibilidade excessiva deixava-lhe apreciar os mais desapercebidos contrastes, era por isto que elle possuía mais do que ninguem o genus irritabile vatum.

Mal acabava de proferir aquellas palavras, quando se atirou de um salto, com uma loucura de criança, e se escarranchou em um tonel.{124}

Funck seguiu o exemplo.

—A vida é um grande mar, que estua em convulsões interminaveis; felizes os que caindo na voragem encontram d’estes delphins, que os tomam sobre si e os levam a porto seguro.

—Foste feliz na imagem, principalmente, porque o vinho desperta-me o humor erotico-musical, e os delphins, se dermos credito a antigos fabuladores, eram levados pela magia da musica.

E começou a cantar alguns trechos da sua opera a Ondina, que só interrompeu para levar á bocca o sifão de lata que estava mergulhado na pipa. Hoffmann tocava a realidade dos seus contos.

—Este não dá pelos calcanhares do teu dilecto Porto?—accudiu Funck; o vinho de Nuits é dos melhores de Borgonha, e, graças ao céo, podemos nadar em mar de rosas.

A noite corria tempestuosa e tetrica: os trovões rebentavam com uma detonação tremenda. Nos áres, coriscou um relampago repentino e veiu illuminar com um clarão pallido o rosto dos dois amigos, que tocavam n’este momento os copos espumantes. Era um quadro com toda a verdade e simplicidade de Teniers, como o proprio Funck, em uma nota de uma edição do seu amigo, confessa com aquella ingenuidade allemã.

Hoffmann ficou deslumbrado com o fulgor instantaneo; tinha a mudez do terror.

—Em que pensas?

—Um conto, um conto horrivel!{125}

—Mais uma saude, e narra-me essa historia ponto por ponto.

—Historia? dizes bem; porque tem muita verdade, ao menos a verdade da arte. Nunca te fallaram n’isso? Admira! Foi tão notorio. Quem a não conheceu! Bella, como era, ninguem podia fital-a sem experimentar o pasmo da admiração. As linhas do semblante tinham uma irradiação etherea, perdiam-se no ár. Era uma visão suspensa, a incarnação de um sonho indizivel de amor.

A tristeza realçava-lhe a candura angelica. Para ella, a vida era um desterro no mundo. Passava, alheia de tudo, distraida, sem saber que levava apoz si todas as aspirações que um olhar de relance, fortuito, gerava na alma. Um dia vi-a pelo braço de um homem feio, que a conduzia com burlesca familiaridade! Disseram-me que era o marido.

Perscrutei o segredo de uma união para mim impossivel, inexplicavel. Não tinha sido arrojada a hypothese: viviam com uma certa paz artificial, um accordo de convenção ante a sociedade. O marido bem conhecia, que a familia da engraçada criança a forçara áquella união desegual; a consciencia da riqueza não conseguira persuadil-o de que a merecesse; e espreitava, espiava-lhe todos os olhares, interpretava-lhe cada gesto insensivel.

O que não idearia o ciume? O ciume que não tem a franqueza selvagem de Othello é vil, infame.{126} Um dia, a infeliz senhora, começou a sentir-se indisposta; não faltavam carinhos da parte do esposo, não poupava esforços para consolal-a, com uma solicitude hypocrita. O mal progredia, convulsões violentas a accommettiam, vertigens assombrosas, dores intensas, como se lhe retalhassem as entranhas. O marido escutava os gemidos com um pungimento affectado.

Conhecera que morria:—«Sabes, disse ella tomando-lhe uma das mãos, eu deixo a vida, mas custa-me baixar á frieza do sepulchro sem te dizer uma palavra. Oh! nem sei como revelar-te esse segredo, esse desvario de uma paixão infantil. Não soube guardar a fidelidade do thalamo.» O marido ouviu a confidencia solemne com um ár estupido de imbecilidade:—És n’este momento tão generosa e grande! A verdade nos teus labios vibra-me de um modo que tudo te perdôo. Choras? escuta. Deixa tambem fazer-te uma revelação tremenda: envenenei-te.

Hoffmann não pôde tirar do conto a moralidade que se espera, e caiu, esquecido do mundo, entre os toneis do seu amigo.

***

In Contos Phantasticos, de Teófilo Braga, segunda edição, 1894, do editor António Maria Pereira

 

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Title: Contos Phantasticos       segunda edição correcta e ampliada

Author: Teófilo Braga

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Notas de transcrição:

O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1894.

Mantivemos a grafia usada na edição impressa, tendo sido corrigidos alguns pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a leitura do texto, e que por isso não considerámos necessário assinalá-los. Os erros tipográficos que nos suscitaram dúvidas foram também corrigidos, e foram assinalados com um comentário do tipo: texto corrigido.

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