CARTA DO RIO – 56 por Rachel Gutiérrez

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Tudo indica que o Vaticano está vivendo seus grandes dias de aggiornamento, de ampla atualização. No dia 9 deste mês, o Papa Francisco ordenou a criação de um tribunal para julgar padres e bispos pedófilos, ou acobertadores de pedófilos, denunciados por violência sexual, que ele qualifica como “abuso de poder”. Segundo Frei Betto, conhecido escritor e monge dominicano, também está convocado para outubro, em Roma, o Sínodo da Família, que vai debater “os novos perfis familiares” e “dar um basta na homofobia”. Avanços simplesmente inimagináveis nas últimas décadas.

Mas o Papa Francisco vai muito além. No dia 18, foi divulgada a encíclica Louvado Seja, nitidamente inspirada em São Francisco de Assis, que alerta sobre o aquecimento global, a devastação das florestas e o desperdício: “o aquecimento causado pelo enorme consumo de alguns países ricos tem repercussões nos lugares mais pobres da Terra (…) A dívida externa dos países pobres transformou-se num instrumento de controle, mas não se dá o mesmo com a dívida ecológica”, destacou O Globo em matéria de página inteira no dia 19. E o editorial do dia 20, do mesmo jornal,  se encerra com a afirmação de que “ao aproximar ciência e religião, Francisco convoca à ação, numa operação que contém em si mesma um pequeno milagre: amarra num documento profundamente teológico a consciência mais básica de que somos todos corresponsáveis pela saúde de um planeta ameaçado.”

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São Francisco de Assis, no século XIII, em seu Cântico das Criaturas, havia louvado especialmente “o irmão Sol, que faz o dia e nos ilumina”, fonte  inesgotável de energia que os países do Norte aprenderam a explorar, “e ele  é belo e com grande esplendor”; o santo louva também a irmã Lua e as estrelas, “claras, preciosas e belas, acesas no céu”;  louva o Ar e as nuvens e o Vento, que pouco a pouco aprendemos a utilizar; e louva “a irmã Água, humilde e útil”, que tanto temos desperdiçado e poluído;  e também louva o Fogo, que nos aquece e em seu tempo iluminava a noite. Mas acima de tudo, louva a Terra, que chama de Irmã e de “Mãe que nos sustenta e produz variados frutos, flores coloridas e verduras”… A Terra, que o Papa Francisco agora chama de Casa Comum e nos convoca para que a defendamos e aprendamos a preservar, limitando “ o mais possível, o uso dos recursos não renováveis, moderando o seu consumo, maximizando a eficiência no seu aproveitamento, reutilizando e reciclando-os.”

Ouçamos Frei Betto: “O texto se constitui num apelo urgente para a Humanidade sair da ‘espiral da autodestruição’”. De acordo com o dominicano, o Papa denuncia “a incoerência de quem luta contra o tráfico de animais (…) mas fica completamente indiferente perante o tráfico de pessoas,  e desinteressa-se dos pobres (…)” porque “salvar o planeta é salvar os pobres, clama Francisco. Eles são as principais vítimas   das sequelas deixadas por invasões de terras indígenas, destruição de florestas, contaminação de rios e mares, uso abusivo de agrotóxicos e de energia fóssil.”

Os padres latino-americanos da Teologia da Libertação, que o Vaticano tanto hostilizou, têm hoje em Francisco um interlocutor e um possível aliado. Esse novo Papa tem a coragem de criticar a “idolatria do mercado” dos nossos sistemas econômicos, pois entende que a fome e a miséria não vão acabar “simplesmente com o crescimento do mercado” (…), que “não garante o desenvolvimento humano integral nem a inclusão social.”

Em seu comentário, Frei Betto diz que de acordo com o que se lê na nova encíclica,  “não há desenvolvimento social e avanço científico positivo (…) sem o respaldo da ética e a centralidade do bem comum em tudo que se pesquisa e planeja.” E acrescenta que para o Papa “todo o Universo material é uma linguagem do amor de Deus. O solo, a água, as montanhas: tudo é carícia de Deus.” Poesia com ecos da Úmbria e de Assis tantos séculos depois.

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A impressão que tenho é a de que o padre argentino Jorge Mario Bergoglio, que escolheu o nome de Francisco ao ser eleito Papa, está chegando ao que Carl Jung chamou de “individuação”, pois está se parecendo cada vez mais com o nome que adotou, ou ainda, como diria o ateu Nietzsche, está se tornando naquilo que é.  E isso o transforma em alguém que, concordem os nietzscheanos ou não, também sabe dizer um grande, sonoro e contagiante Sim à Vida!

 

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