PRAÇA DA REVOLTA – “Por Quem os Sinos Dobram” – por Carlos Loures

No seu  discurso de ontem, comentando a posição da União Europeia perante a proposta grega, disse Alexis Tsipras: «A Europa está hoje perante uma encruzilhada. Após o governo grego ter feito enormes concessões, a decisão não está já nas mãos das instituições da troika – que, exceptuando a Comissão Europeia, não têm representantes eleitos nem prestam contas ao povo, estando nas mãos dos governantes europeus. Qual a estratégia predominante? A Europa da solidariedade, igualdade e democracia, ou a Europa da ruptura e, principalmente, da divisão? […] Se há quem pense, ou nos queira fazer crer, que essa questão apenas diz respeito à Grécia, está gravemente errado E recomendo-lhes a leitura da obra-prima de Ernest Hemingway, Por Quem os Sinos Dobram».

Foi num trecho de uma prédica de John Donne,  clérigo anglicano inglês do século XVIII, que Ernst Hemingway se inspirou  para dar nome ao romance Por Quem os Sinos Dobram (For Whom the Bells Tolls) que publicou em 1940.  É por certo esse parágrafo que serve de pórtico à obra do ficcionista norte-americano, que se justifica a recomendação do primeiro-ministro da Grécia. Mas o próprio conteúdo da obra vai no sentido de denunciar o papel da comunidade internacional, deixando as mãos livres à  Alemanha nazi  para ensaiar a sua brutal  agressão contra a Humanidade, a atitude supostamente ortodoxa de uma União Soviética mais estalinista do que comunista, a cobardia das potências ocidentais que olharam para o lado e assobiaram enquanto a barbárie fascista protagonizada pela figura  sinistra que dava pelo nome de Francisco Franco  destruía um estado europeu e, não menos grave, as múltiplas agressões contra a democracia perpetradas pelas ideologias que compunham o mosaico ideológico da República.  Estas numerosas traições ao espírito de solidariedade redundaram em centenas de milhares de mortos e não evitaram a guerra mundial que começou logo que o “ensaio geral” terminou na Península. Eis as palavras de John Donne sob cuja égide Hemingway coloca Por Quem os Sinos Dobram.

Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do Continente, uma parte da Terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do género humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.

John Donne

(Por Quem os Sinos Dobram, tradução de Monteiro Lobato e Alfredo Margarido, edição portuguesa de Livros do Brasil)

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