Vários comentadores da nossa praça vêm a público com afirmações do tipo “o referendo de 5 de Julho é contra o euro”, “Tsipras rompeu unilateralmente as negociações” e outras no mesmo sentido: responsabilizar o actual governo grego por não haver acordo com os “credores”. É óbvio para quem tem acompanhado mais de perto o assunto que aquelas alegações não são verdadeiras e que o governo grego não pretende deixar o euro, pelo menos por agora, e que só o fará se não lhe deixarem outra saída. A única coisa que para Tsipras, Varoufakis e os outros governantes tem prioridade sobre a permanência na União Europeia e na zona euro é não ser obrigado a continuar a maltratar o seu povo, ao contrário dos governos que o têm antecedido.
É óbvio também que os credores sabem disto. Simplesmente querem que o governo continue a martelar em cima dos gregos. E procurarão inviabilizar todas as suas políticas em prol da população por várias razões. Primeiro, para não desautorizar os “bons alunos”, que até queriam ir mais longe que os mestres, e que agora andam por aí com o credo na boca, a ver se quem andaram a maltratar vai votar neles nas próximas eleições. Em segundo lugar, para defender os privilégios de sempre, mesmo tolerando uns desaires, como os que têm ocorrido na banca portuguesa, em relação aos quais é de chamar a atenção para a pouca mossa que tem sido feita entre os seus responsáveis. Os mais atentos terão notado que importantes figuras, como Schäuble e Cameron, têm sugerido aos responsáveis gregos o grexit, isto é, em linguagem corrente, que desamparem a loja, convictos de que se eles seguissem esse caminho lhes causariam menos problemas. As dívidas, logo se veria. Há muitas maneiras de sangrar gente indefesa.
É importante também ter presente que a ruptura das negociações que ocorreu na sexta-feira passada, 26 de Junho, teve como origem o tom de ultimato dos responsáveis europeus, estilo pegar ou largar, a começar por Angela Merkel. O tom dela na televisão foi muito claro. O objectivo destes responsáveis (se assim se podem chamar), desde Fevereiro, era obrigar à rendição: ou abdicas dos teus princípios, ou não há acordo. Tsipras só tinha uma saída: pedir a opinião de quem o elegeu.
Claro que os grandes problemas que estão realmente a destruir a Europa nunca são discutidos nos organismos europeus. Por exemplo, o peso excessivo da Alemanha sobre os outros países. Há quem aponte que é muito mais grave que a Grécia, Portugal e outros, e não é por causa dos tamanhos maiores ou menores dos vários países. Não será que a razão principal da insistência na austeridade leva sobretudo a manter as diferenças entre os níveis de desenvolvimento dos vários países?
Sugerimos a leitura de um artigo de Wolfgang Munchau, editor do Finantial Times, e que não cremos que seja, nem de longe, simpatizante do Syriza. Podemos não concordar com tudo o que ele diz, mas a sua abordagem é indiscutivelmente do maior interesse, sobretudo no campo político.

