CARTA DE ÉVORA – Histórias de Évora – O Juiz e o Enforcado -(II) – por Joaquim Palminha Silva

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O Juiz e o Enforcado

II

Depois, noite dentro, João da Silva regressava à casa que lhe fora encontrada como aposentadoria, numa quinta fora da cidade, muito para lá do Chafariz das Bravas, depois de ultrapassada a igreja de S. Sebastião que a iluminura do Foral manuelino de 1501, muito bem mostra ao leitor…

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 Sofreriam os seus nervos destrambelhamentos com o drama diário vivido na «Casa da Suplicação», no Tribunal, com o espectáculo da miséria em carne viva e ossos quebrados? Segundo a nossa fonte, parece que não! A humanidade existente em João da Silva manifestava-se pela indiferença, e pelo obséquio corcovado face a el-rei!

Uma manhã sentenciou à morte um homem na Casa da Suplicação. – Ouviu o juiz João da Silva a maré cheia de desgraça, que seriam as palavras desse sentenciado? O que se consegue apurar é que não perdeu tempo com apuramentos, dando rápido a sentença fatídica, talvez acreditando que o homem era tronco de má lenha e, por isso, ninguém sentira falta da luz dos seus olhos… – E o pobre foi pendurado de imediato na forca à saída da cidade!

Fosse porque fosse, naquele dia e após terminada a tarefa do exercício da Lei, o juiz-regedor demorou-se um pouco mais na cidade, de forma que quando recolheu a casa era quase noite cerrada. João da Silva encetou o caminho acompanhado de um criado que, com consciência do seu valor, lhe transportava o bastão de magistrado, cujo peso não conseguimos apurar. Indiferente aos caminhos mal augurados por lances perigosos, seguro da sua importância e julgando-se imune aos maus lances, o juiz-regedor e o seu criado la seguiram estrada fora, cada qual montando seu cavalo, deixando atrás das costas coruchéus e torreões da velha urbe…

Em tranquila jornada, quando passavam junto ao Chafariz das Bravas, ao olhar para o seu lado esquerdo e vendo erguida forca, João da Silva não se conteve e, como quem folheia um índice de grosso calhamaço de letras góticas, exclamou para o criado: – «Eis que lá estsá pendurado o homem que hoje enforcamos!» …

Olhou o criado para o local e, de facto, lá estava a cena fatídica a assombrar a noite: – O pobre homem pendurado, oscilando ao ritmo do vento, rodeado do grasnar dos corvos mais atrevidos, que aguardavam impacientes o amadurecimento das carnes…

Continuaram os dois cavalgando a caminho de casa. O minucioso criado, que ia uns quantos passos atrás do amo como mandava o costume, assestou de novo os olhos em direcção à forca e, numa voz encolhida de espanto, disse ao amo: – «Senhor, já lá não vejo o enforcado!». Parou a montada o juiz-regedor. Firmou-se nos estribos e volveu a cabeça para o local mencionado, dizendo talvez de si para si; “Vejam lá com que sonha o néscio… Pata ao léu e siso nenhum, já se vê!”.

Porque fazia um claro luar, João da Silva não teve mais remédio do que concordar com o criado: – «Nem eu o vejo lá! Porventura que se lhe quebrou o baraço e caiu ao chão. Não deve ser outra coisa.». E vá, trataram de picar as montadas, troteando mais um pouco. Eis que o criado, abelhudo como personagem de Auto vicentino, olhou de novo para trás. Com as pernas a tremer sobre o cavalo, sussurrou baixinho ao amo: – «Senhor, eis cá vem enforcado a correr!». Olhou o juiz-regedor na mesma direcção e viu o assombro: – Como carcaça fantoche, todo desengonçado, lá vinha o enforcado na sua direcção, envolto em vaga poeira, como a boiar.

João da Silva apertou as pernas ao cavalo e, esporando, galopou à rédea solta em direcção a casa. E o criado? – Ora adeus! Deve ter dito, «Salve-se quem puder!». O enforcado, parecia ter asas nos pés e, em breves instantes, estava junto ao cavalo de João da Silva. Uma vez aí, saltou-lhe para as ancas, abraçando o juiz-regedor por detrás. Entretanto, numa voz pastosa vindo dos fundos da alma, talvez misturando sentimentos de raiva e esforço de injustiçado, disse ao juiz-regedor: – «Agora sabereis se me mandaste enforcar justiça ou sem ela!».

 Figura do enforcado morto mas movendo-se, de tão real, aterrorizou o criado que, num sobressalto, parou de respirar e caiu do cavalo, ficando estendido no chão de olhos fixos para o nada. Como se fosse possível fugir de uma alma-penada, o cavalo do juiz-regedor suado de medo e de olhos vítreos, sentido sobre si o peso do enforcado como carga castigadora, lançou-se num galope histérico a caminho de casa. João da Silva, alucinado de todo, deve ter visto desfilar perante si todos os injustiçados que fabricou… Queria gritar e não conseguia. O abraço húmido e fétido do enforcado, já bastante picado dos corvos, parecia-lhe tenaz férrea que lhe apertava o corpo… Para afastar o terror, todo urinado numa cobarde agonia, chamava pelo nome de Jesus Cristo!

            A gente de sua casa já o esperava de tochas acesas. Ao ouvir o tropel correu para o pátio da entrada, viram então o amo, de olhar gazeado com o enforcado abraçado a si… Depois de muito esforço, após invocarem o nome de Jesus Cristo, lá conseguiram descolar do amo o enforcado que, como veio assim se foi num abrir e fechar de olhos, descavalgaram então o juiz-regedor, desgraçado de todo, emparedado num mutismo imbecil.

            Foram depois os serviçais estrada fora à procura do criado que tombara do cavalo. Lá o encontraram, estendido no chão e de olhos vidrados e a boca aberta num grande «Ah!» … O juiz-regedor ficou um náufrago para o resto da vida, de corpo e alma! – O remorso como sino badalando-lhe na cabeça, deve-lhe ter feito estalar o entendimento…

A narrativa coeva não nos chega a contar muito mais… Todavia, como somos apreciadores das histórias e proveito e exemplo, à maneira do século de quinhentos, sempre aventamos que provavelmente o juiz-regedor enlouqueceu definitivamente, com a obsessão da culpa a brocar-lhe o juízo…

            Depois de empilhar lenha para queimar judeus, só porque eram diferentes e… tinham dinheiro que era preciso extorquir, a urbe tão festejada pelos historiógrafos locais, merece bem esta história, contada por um livro velho…

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