A IDEIA -Para uma Arqueologia do Pensamento Libertário Contemporâneo: Nota de Leitura de “Negras Tormentas” de A. Samis – (2) por Paulo Guimarães

ideia1

O capítulo sobre Comuna de Paris segue a narrativa cronológica dos factos políticos que a antecedem: um breve apontamento sobre a guerra Franco-Prussiana, o papel (secundário) da Internacional e a experiência da Comuna de Lião (p.201). No essencial, a narrativa do historiador sustenta, “explica” ou permite “compreender” a natureza dos debates e das clivagens ideológicas subsequentes. Daí que muita informação essencial carreada pela investigação histórica, como o grau de implantação da A.I.T. junto dos trabalhadores europeus e americanos, medida pelo número de quotizantes efectivos, ou a capacidade real de mobilização dos trabalhadores surja por vezes em apontamentos de nota de rodapé. Interessou mais ao autor a forma como Marx via a Internacional: uma organização que não passaria de uma etapa a favor da centralização política (p. 203); ou a oposição movida a Bakunine no Congresso de Basileia. Por isso, Samis realça as diferentes leituras de Marx e Bakunine face à guerra prussiana e as suas consequências: para Bakunine, a guerra seria principalmente uma oportunidade para o levantamento das massas; para Marx, seria uma oportunidade dos proletários alemães ganharem uma posição de domínio na A.I.T. e futuramente numa Europa comunista (pp. 206-207). Para ele, a emancipação do proletariado não subordina a nação (que estava reduzida à categoria de identidade cultural no programa da AIT) mas antes se dilui na nação. Surge-nos assim um Marx assustadoramente mais próximo de um socialismo nacional, de matriz republicana, que se realizou historicamente nas democracias populares do século XX, e que configura, na ordem internacional, num futuro comunista imaginado, uma hierarquia de diferentes nações proletárias. Em suma, a doutrina de Marx, com pretensa com base científica, encontra-se distante do humanismo revolucionário de Bakunine, que é um crítico da violência jacobina e da ditadura dos igualitários, e um adepto do federalismo, das possibilidades de auto-organização das sociedades a partir de princípios corporativos libertários. Temos, pois, duas perspectivas irreconciliáveis sobre o devir histórico e sobre a natureza das organizações operárias que “explicam” a cisão futura no seio da A.I.T. No entanto, ao contrário do que Samis afirma, não é evidente que a Internacional tenha sido destroçada pela guerra prussiana (p.220), visto ter ainda uma influência relevante durante a guerra civil em França e nos levantamentos urbanos. O facto do apelo da AIT, dirigido ao povo alemão, em 1871, para que retirasse do solo francês, não ter produzido quaisquer resultados nas hostes prussianas, sugere antes que a sua capacidade de influência era deveras limitada na sociedade alemã. A enorme redução nos efectivos ocorre depois das matanças de Paris pelas tropas de Thiers.

A última parte da obra incide sobre a Comuna de Paris (p. 229 e ss.) sendo a narrativa muito apoiada nas análises críticas feita por contemporâneos como Lissagarey, Gustave Lefrançais (1826-1901), por historiadores do movimento operário francês como Jean Bruhat (1905-1985), Maurice Dommarget (1888-1986), Henrich Koechlin (1918-1996), por testemunhos como a de Louise Michel ou por textos de Jules Vallés (1832-1885), que foi jornalista do Le Cri du Peuple, um dos jornais mais lidos no período da Comuna. A narrativa esclarece sobre o alcance socialista da política da Comuna no contexto da guerra civil (pp.269) bem como sobre as divisões no seio dos revolucionários que enxameavam os clubes de Paris, e que opunham os seguidores de Blanqui aos jacobinos. Atenta depois sobre a dimensão revolucionária da Comuna, dando destaque às organizações de mulheres, à federação dos artistas e dos camponeses (p. 293).

O final da obra é dedicado à violenta repressão do exército de Versalhes que se abateu sobre os revolucionários (“Prisões, tribunais e deportações”, p. 325) e à avaliação histórica dessa experiência socialista que foi a Comuna de Paris, feita por contemporâneos à esquerda após o seu malogro. Entre estes encontramos Vítor Hugo, Emílio Zola, Elisée Reclus, Carlos Marx, Frederico Engels (p.346), Miguel Bakunine, que viu nessa experiência “uma negação audaciosa, bem pronunciada, do Estado” (“A Comuna e o Socialismo Revolucionário”, p.339) ou, mais recentemente, Cornelius Castoriadis (1922-1997). Samis descreve a violência desencadeada pela burguesia contra os revolucionários de Paris, violência essa que, pela sua intensidade e dimensão sanguinária, iria caracterizar as guerras de classe que marcaram o século XX, desde a guerra civil russa (1917-1922) até à Revolução Espanhola (1936-1939). Marcou essa violência também a actuação internacional concertada das polícias políticas especializadas, entretanto criadas, com vista à manutenção da ordem pública, à eliminação das ameaças revolucionárias e à contenção do movimento operário como força revolucionária.

Alexandre Samis conclui a sua narrativa histórica, afirmando que a Comuna de Paris não foi o fim de um ciclo, menos ainda o início de outro; mas a fronteira, um marco que não se presta a transformar-se em linha de chegada ou partida, mas que definiu nas suas práticas concretas os elementos fundamentais da democracia popular do século XIX (p. 359). Deste modo, a sua conclusão faz-nos regressar ao terreno estéril dos velhos debates marxistas sobre a maturidade histórica das “manifestações de classe”, tomados como processos evolutivos que acompanhariam o desenvolvimento das forças produtivas. Apesar do que se disse, Negras Tormentas permite ao leitor inscrever e compreender as referências históricas doutrinárias do obreirismo socialista libertário no quadro, não de um panteão de pensadores iluminados, mas no conhecimento reflexivo que adveio da experiência histórica dos operários europeus e que alguns souberam talvez expressar melhor. Foi esta experiência marcada pela capacidade de sonhar a realização colectiva da felicidade na Terra, manifestou-se na rebeldia dos espíritos críticos, na resistência a todas as formas de autoridade, na rejeição dos valores burgueses da propriedade, da família e dos Estados-nações, emergiu acidentalmente na euforia dos breves momentos de libertação, mas nela se encontra também o sofrimento indescritível vivido colectivamente nos momentos de repressão

Paulo Guimarães [Setúbal, 10 de abril de 2014]

Leave a Reply