CARTA DO RIO – 58 por Rachel Gutiérrez

riojaneiro2

“Sem a música a vida seria um erro”, disse o filósofo e poeta Friedrich Nietzsche. Por seu lado, Herbert Read, poeta e crítico inglês, que muitas vezes abordou o papel da arte na educação, escreveu, em um de seus mais belos livros, The meaning of Art (O Significado da Arte), que uma criança que não tem a oportunidade de desenhar, ou de mexer com tintas e pintar, cresce como se lhe faltasse uma dimensão, ou como se tivesse tido um braço ou uma perna amputados. E Dylan Thomas, o maior poeta galês, revelou numa entrevista concedida a um jovem estudante norte-americano, que desde menino, por ouvir histórias contadas em versos, as nursery rhymes de seu país, se apaixonara pelas palavras.

Esta manhã, numa caminhada pela praia, lembrei versos que o mar inspirou a dois poetas mineiros que o Rio de Janeiro assimilou e adotou: Carlos Drummond de Andrade e Paulo Mendes Campos. De Drummond, ressoava o verso No mar estava escrita uma cidade e, de Paulo Mendes Campos reverberava O domingo azul do mar… A poesia é este mistério e esta alquimia: palavras misturadas de outra forma ou simplesmente colocadas numa ordem inusitada ressoam, reverberam, cantam. E emocionam. Se, prosaicamente, nos referimos ao azul do mar num dia de domingo, ou mesmo a um domingo de mar azul, não teremos feito poesia, mas quando o poeta diz o domingo azul do mar transfigura não só o domingo, mas também o mar e o próprio azul. Na poesia, as palavras resplandecem com brilho diferente, como se um esplendor lhes desse alma nova, uma outra vida.

Sem poesia, a vida também seria um erro. E assim como “todas as artes aspiram à perfeição da Música”, como disse Schopenhauer, a poesia, ou o poético habita todas as formas de arte. Em seus melhores momentos, o teatro é poesia, assim como a dança é poesia e há poesia e musicalidade  na pintura, na escultura e até mesmo na arquitetura.

E o devaneio me leva a sonhar com escolas de arte ao lado das outras, ou cursos inseridos em todas as escolas. Aulas de dança, como as da Casa dos Sonhos, de São Paulo, oficinas de artes plásticas, workshops de teatro, cursos de iniciação musical, ou simplesmente de apreciação artística para que as nossas crianças pudessem se tornar seres humanos completos, capazes de fruir e assimilar as visões de todas essas formas de expressão  ricas e fecundas. E orquestras sinfônicas, formadas por jovens ou não, poderiam tocar nos parques e nas praças, no aterro, ou nas praias, onde só temos shows de rock, ou espetáculos esportivos, além de alguns bons shows de samba, é preciso dizer. Mas teríamos também, em grandes telões, óperas inteiras. Por que não?  Ou recitais de poesia: seriam ouvidos repentistas do nordeste; ou poemas de nossos grandes poetas, antigos e novos; e histórias infanto-juvenis. E teríamos oportunidade de ouvir até mesmo os “miguilins”, que recitam tão bem os contos de Guimarães Rosa. Como é fácil sonhar!

E as crianças e os jovens estudantes teriam mais uma disciplina em seus currículos: seriam acompanhados em visitas aos museus, às salas de concertos, aos teatros de drama e de comédia. Por que não? Não acredito que tenhamos perdido o direito de sonhar. Portanto, como diria Fernando Pessoa, “enquanto o destino me permitir, continuarei (sonhando)”…

Pois sonho ainda com uma educação que inclua noções de Política, ou de filosofia da História e da Política, junto com a História Universal e a Nacional. Uma educação que ajude a desenvolver o espírito republicano e democrático, o respeito ao patrimônio cultural e histórico, além, evidentemente, do respeito à natureza. E como disse Mathieu Ricard, em congresso no Rio sobre Educação e Políticas Sustentáveis, “que se comece a ensinar, em todas as escolas infantis – (e eu acrescentaria: em quaisquer escolas) – a Compaixão.” Sim, a compaixão que gera a tolerância, o respeito ao outro, o desmonte de todos os preconceitos, racismos e sexismos, e gera, portanto, a solidariedade e a generosidade.

Lemos nesta semana que um príncipe bilionário da Arábia Saudita, à exemplo de Bill Gates, prometeu doar à caridade, “após sua morte”,  toda a sua fortuna estimada em 32 bilhões de dólares. Pena que não tenha doado já, em vida,  ao menos a metade de todo esse dinheiro para a educação igualitária de meninos e meninas do seu país e de países vizinhos. E pena também que milionários brasileiros jamais tenham pensado em doar nem que fosse um décimo de suas fortunas à educação das crianças do nosso país, carentes de tanta coisa e também de música, de poesia, de dança e de artes plásticas, que contribuiriam para torná-las seres humanos mais completos e felizes.

1 Comment

  1. O SONHO E A MÚSICA
    “E o devaneio me leva a sonhar com escolas de arte ao lado das outras, ou cursos inseridos em todas as escolas. Aulas de dança,…, oficinas de artes plásticas, workshops de teatro, cursos de iniciação musical, ou simplesmente de apreciação artística”
    É lindo sonhar assim…
    António Gedeão escreveu a “Pedra Filosofal”, assim cantada e imortalizada por Manuel Freire
    [youtube http://www.youtube.com/watch?v=At2J563hOvw&w=560&h=315%5D

Leave a Reply