BISCATES – “A contra-corrente” – por Carlos de Matos Gomes

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A centralidade do partido Socialista e o problema de deslocar o centro

Ao contrário do que alguns possam pensar, julgo que a vitória do Não no referendo da Grécia contra as políticas da troika e do directório da União Europeia, faz ressaltar a centralidade do Partido Socialista no sistema político português. Isto porque, apesar das tranquibérnias deste governo e da austeridade que impôs em nome da troika, não surgiu em Portugal nenhum movimento do tipo do Syriza da Grécia, nem do Podemos de Espanha, nem mesmo da coligação Olivo de Itália, que substituísse o tradicional Partido Socialista e se apresentasse como força de mudança. Nem qualquer dos atores políticos que há anos apresentam alternativas ultrapassou as suas mais que conhecidas e comprovadas limitações.

A questão da centralidade do Partido Socialista assenta na realidade lapalisseana: os portugueses não são gregos. Por isso, tudo como dantes, quartel-general em Abrantes. Nenhum dos velhos partidos ou dos novos movimentos políticos e sociais gerou ondas de entusiasmo, de confiança ou sequer de credibilidade que, daqui a três meses, pareçam capazes de conquistar os eleitores não militantes. Esta realidade é tão mais evidente quando posta em contraste com a campanha do Syriza antes das eleições na Grécia e com a corajosa acção que o seu governo conduziu junto das instituições da União Europeia desde que chegou ao poder. O Syriza atraiu, uniu, lutou e arriscou pelas suas ideias de bom governo para a Grécia. Nada de semelhante acontece em Portugal.

Apesar de todas as críticas sobre o caminho que percorreu desde do 25 de Abril de 1974 até hoje, das suas opções estratégicas, ou de desenvolvimento, do seu fascínio pela riqueza fácil e pelos ricos sem escrúpulos, pelos negócios duvidosos, feitas todas as análises do passado, do presente e do futuro, goste-se ou não, o Partido Socialista estará no centro de qualquer novo quadro de exercício do poder. Muito provavelmente só, mais uma vez. Os vários proto-syriza nacionais estarão, mais uma vez, de fora, a aguardar pelas condições objectivas e subjectivas para a sua revolução.

A centralidade do Partido Socialista coloca a questão da mudança no seu interior, mas é um problema da sociedade portuguesa. Os medíocres e aparentemente contraditórios resultados nas mais recentes sondagens, que dão um empate em intenções de voto com a actual coligação, enquanto uma larga maioria dos inquiridos acredita na sua vitória, devem-se à conjugação de senso comum dos portugueses na apreciação das suas fragilidades, com a resignação de quem não vê uma alternativa viável nos outros. Os resultados da sondagem caraterizam um produto de marca branca, que não provoca reacções fortes, mas iluminam a saída de emergência: Quem não tem cão – e eles não apareceram – tem de caçar com o velho gato.

O Partido Socialista nunca será um Syriza, por não ser da sua natureza, mas os outros partidos que pretendem representar esse papel também o não são, nem se antevê a possibilidade de criar no curto prazo uma força desse tipo que ponha fim ao deboche do actual governo. Resta fazer sair o Partido Socialista da alcofa onde se sente confortável, com os seus apparatchiks de boas falas e melhores modos. Uma tarefa tanto para os que, dentro dele, compreendem a indispensabilidade de ruturas, de definições, como para os que, no exterior, aceitam a sua centralidade, mas reconhecem a necessidade de deslocar o seu centro.

É pouco? Para os militantes políticos mais exigentes, para aqueles que não se satisfazem com nada menos que tudo, continua a existir um mundo como lugar para os sonhadores, para os redentores, para os puros, para os fiéis. Para os dirigentes políticos mais batidos e mais céticos, continua a existir o mundo dos perversos, dos acusadores, dos impuros, dos hereges. Para os cidadãos comuns sobra a ementa do costume, em que o Partido Socialista é o prato do dia e pode ser servido com mais ou menos molho, com mais ou menos salada, mais ou menos bem passado…

Variações sobre o tempero é o melhor que se pode arranjar. Nós não somos gregos.

3 Comments

  1. É curioso q nem uma só vez se faz alusão ao PCP ! Os grupelhos esquerdistas continuam a existir, já não com características ultra revolucionárias, mas avançando agora, tal como o Syriza, com propostas social democratas. Quanto ao PCP, nestas apreciações, dá a impressão q não continua a ser uma força de contenção da fúria neo liberal. Dá mesmo a impressão de q o PCP não é uma realidade ! Deixou de existir sem ter sido registado o seu óbito…

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