A CANETA MÁGICA – A Literatura grega moderna – uma bela odisseia – 6 – por Carlos Loures

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Já alguém comparou a Grécia de Julho de 2015 à Espanha republicana dos anos 30 e ao Portugal de Abril de 1974. Nesta Europa onde se tem experimentado toda a espécie de sistemas e regimes, quando parece que tudo está perdido, a esperança reacende-se. O contrário também é verdade – quando a esperança parece florescer, uma realidade sombria abate-se sobre as suas pétalas. E, naquela época em que a saudação romana, o passo de ganso, as camisas ideológicas – negras, castanhas, azuis, verdes… alastravam pelo continente como mancha de óleo, Espanha concentrava as atenções dos amantes da liberdade.

De súbito, naquele dia 18 de Julho de 1936, o inferno abateu-se sobre a Península – o Exército de África comandado pelos generais traidores, cães raivosos, mastins da velha ordem, desembarcou e desencadeou um conflito que iria durar três anos e provocar centenas de milhares de mortos. Em L’Espoir, André Malraux recria com simplicidade e lirismo o clima de esperança vivido nesse Julho, de convicção de que a vitória das forças republicanas era um dado adquirido.

Meses depois, em Novembro, um escritor grego passeava por Salamanca, capital provisória dos rebeldes fascistas e anotava «É meio dia. Passeio pelas ruas de Salamanca. Catedral, universidade, mansões medievais […] o jogo do homem livre desapareceu totalmente na fogueira da guerra civil. Correm velozes os automóveis, vêem-se sentinelas em todas as esquinas, oficiais sobem e descem os degraus do antigo paço episcopal onde, invisível, vigilante, silencioso, Franco governa agora o destino da jovem Espanha.[…] Sentado na antecâmara de Franco, onde aguardo que me seja entregue o salvo-conduto que me permitirá circular livremente, olho com atenção o que me rodeia, […] O chefe do Gabinete diplomático aproxima-se. É um jovem com traços distintos, olhos cansados pela falta de sono. Traz o salvo salvo conduto assinado por Franco. – Onde quer ir primeiro? […] Não quero sair de Salamanca sem entrevistar o formidável sujeito chamado Unamuno».

Este jornalista que se prepara para entrevistar Miguel de Unamuno, chama-se Nikos Kazantzákis.

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