EDITORIAL – Um ano sem o Fernando

logo editorialFoi em 18 de Julho de 2014, faz hoje um ano, que fomos surpreendidos pela triste notícia de que Fernando Correia da Silva tinha falecido. Empreendera aquela derradeira viagem a que nenhum de nós se pode furtar. Com Sílvio Castro e com Amadeu Ferreira completa a nossa lista de baixas no combate que movemos à injustiça, à ignorância e à crueldade – três argonautas, três lutadores, três escritores de grande talento e, mais importante do que tudo, três excelentes pessoas.

Em poucas palavras se descreve a vida de Fernando Correia da Silva (podíamos também contá-la numa obra em vários volumes). Nasceu em Lisboa, em 1931. Militou na campanha do general Norton de Matos para as presidenciais de 1949 e integrou o MUD Juveni;l eesteve preso em Caxias. Cursou Ciências Económicas e Financeiras. Foi amigo de escritores como Orlando da Costa, Mário Henrique Leiria, António José Saraiva, Alexandre O’Neill e de políticos como Agostinho Neto, Marcelino dos Santos, Vasco Cabral… Em 1950 publicou o poemário Colheita e em 1952 a novela infantil, As Aventuras de Palhita, o Touro; nesse ano, com Alexandre O’Neill, editou A Pomba, jornal clandestino de poesia militante. Em 1954, perseguido pela PIDE, abandonou Económicas e foi para o Brasil. Colaborou na Folha de São Paulo e coordenou a edição de diversos livros Em S. Paulo, foi um dos fundadores do jornal antifascista Portugal Democrático. Com Jorge de Sena, Casais Monteiro, Sidónio Muralha, Cecília Meireles, fundou a Giroflé, editora infantil. Regressou a Portugal em 1974. Em 1986 publicou o romance Mata-Cães; seguindo-se Lord Canibal,(1986) e Querença (1996). Esta ficção foi passada ao cinema em 2004, com realização de Edgar Feldman. Em 1998 publicou Maresia..E em 2000 lançou Lianor.

Dizer-se que a morte faz parte da vida, o que sendo verdade e desdramatizando um acontecimento inevitável, não nos compensa pela ausência dos que partem. Para quem não acredita na sobrevivência para além desse limiar, fica a certeza de que enquanto alguém nos recordar, enquanto alguém ler o que escrevemos, não teremos morrido. Os criadores de arte, os escritores, só morrem quando deixam de ser lidos. Fernando Correia da Silva sobrevive na figura ímpar do seu alter ego o grande Mata-Cães.  Somos cerca de oito dezenas de argonautas. Posições políticas diversas, comungando todos no amor à liberdade; posições perante a vida e perante a morte também diversas – crentes, agnósticos, ateus… Há entre nós quem, sendo ateu, crê na sobrevivência do espírito como verdade científica; há quem afirme que a morte é o momento supremo da vida, a chegada do rio à foz, um momento de luz e beleza… Quando dizemos nós, fazemo-lo na tentativa de abranger um leque tão amplo quanto possível, de posições. Todos os que conheciam o Fernando, acreditem no que acreditarem, sentem saudades dele, do seu humor. Vive na nossa memória.

Não o deixaremos morrer.

 

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