Grécia: é necessário despedir Christine Lagarde – por Jean Quatremer

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Grécia: é necessário despedir Christine Lagarde

JEAN QUATREMER

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É necessário despedir Christine Lagarde, a directora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI). As suas exigências de novos e severos cortes orçamentais são politicamente inaceitáveis para a Grécia, o que torna cada vez mais um provável um malogro das actuais negociações e um incumprimento no fim do mês ou nas semanas que se seguem (há sempre meios técnicos para alargar o prazo). Não é por nada que em 2010, Jean-Claude Trichet, então presidente do Banco Central Europeu (BCE), tinha lutado contra a presença do FMI no resgate dos países atacados pelos mercados: para ele, a zona euro tinha os meios para responder e se ocupar dos “seus patos coxos”, o que lhe evitaria que lhe viessem a impor uma agenda decidida noutros lugares. Os factos dão-lhe razão: é doravante claro que a lógica da organização de Washington é incompatível com a da zona euro.

O FMI obedece a considerações unicamente orçamentais: quando intervém, condiciona os seus empréstimos a um equilíbrio orçamental (corte nas despesas, aumento dos impostos) e impõe um abandono de dívida afim de a tornar sustentável. Ora, se a dívida grega foi em parte reestruturada, por um montante de 115 mil milhões de euros, isto foi feito muito tardiamente, em 2012, e os 220 mil milhões de empréstimos atribuídos pela zona euro não foram referidos. Sobretudo, o FMI não se preocupou nada quanto à manutenção da Grécia no euro, da mesma forma que não se preocupou nada quanto à perenidade do projecto europeu: são questões políticas que lhe são estranhas.

Para a zona euro, é o inverso: a sua prioridade é política, evitar “um Grexit” que ameaçaria a perenidade da moeda única. Mas continua a fingir acreditar que a Grécia poderá reembolsar as suas dívidas a partir de 2023 (nada não é exigível antes), enquanto que sabe muito bem que esse nunca será o caso. O facto que o FMI e a zona euro negociem em conjunto leva cada um à intransigência e conduza a exigir de Atenas o impossível: cortes orçamentais que visam não somente o equilíbrio, mas a um excedente primário irrealista suposto permitir o reembolso de uma dívida “de enormíssima dimensão”. Duas lógicas inconciliáveis que ameaçam toda a Europa de uma catástrofe sem precedentes.

JEAN QUATREMER, Libération, Grèce: il faut licencier Christine Lagarde !, 17 de Junho de 2015. Texto disponível em :

http://bruxelles.blogs.liberation.fr/2015/06/17/grece-il-faut-licencier-christine-lagarde/

 

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