TARECO – por FERNANDO CORREIA DA SILVA

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(1931 - 2014)
(1931 – 2014)

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De tanto compor e imprimir livros de poemas lá na gráfica, também eu me arrimei às rimas. A noite passada sonhei com seis versos, lembro-me deles, só não sei que raio de língua é aquela.  Assim:

                                   Lei que songe senteportas do sedejo

                                   aganha salgadada rogadece

                                   ameia que temolve e tamortece.

                                   Reti. E mavetido mavetejo

                                   ana veturna a corbicar avexo

                                   vatico sena toncha toda texo.

É tudo muito misterioso. O que dá raiva é que os seis versos estão todos rimados e acentuados conforme os cânones. Caio na asneira de contar tudo isto ao Tareco, o meu robot. Ele não se faz rogado para emitir opinião:

            – Parecem ser anagramas em cadeia de palavras portuguesas. Diz-me uma coisa, Fernando, o que é que te lembra a palavra sedejo?

            – Desejo.

            – E a palavra texo?

            – Sexo.

            – Então fica tranquilo, já tenho a chave e acabo por decifrar o poema todo.

            – Ai acabas? Já agora gostaria de ver… Olha que a poesia está mais próxima da emoção do que da razão. O mesmo será dizer que está mais próximo do instinto do que da lógica. Por causa do poema não quero que fiques outra vez perturbado.

            – Fica descansado, isso não me perturba. Há uma lógica oculta nesses versos, porém uma lógica. O meu verdadeiro abismo está  na tua malícia, na tua ronha.

            – Tareco, já te disse e repito que nem tudo na vida segue as leis da lógica. Ou então a lógica é que ainda não foi capaz de abranger a vida toda.

            Virou as costas, afastou-se. Parou. Voltou atrás.

            – Fernando, quando há pouco disseste vida querias dizer realidade, não é?

            – Podemos dizer que sim.

            – Entendo. Para ti, que és vivente, realidade e vida sobrepõem-se.

            – És muito profundo, Tareco.

            – Fernando, outra coisa: a tua ronha é realmente instintiva?

            – É capaz de ser.

            – Por fatalidade de construção estou impossibilitado de abranger os domínios do instinto.

            – Anima-te, ó emplastro! Se um homem nasce com o instinto e chega à razão por que é um emplastrónico, nascido com a razão, não há-de chegar ao instinto?

            – Paralogismo!

          – Palavrões e insultos é que não. Ouve lá, ó lata velha: por que é que, entre todos os humanos, é a mim que estás mais apegado? A resposta é óbvia: fui eu quem te ensinou a falar, fui eu quem te despertou para a vida. Não está aqui o esboço de um instinto? A galinha chocou o ovo da pata e o patinho corre atrás da galinha, quá-quá, aquela é que é a minha mãe. Manjas?

            – Não vale a pena insistires, Fernando. Já te disse que o instinto está fora do meu alcance. Proponho aliança.

            – Diz lá, Tareco.

            – Eu serei a tua cabeça e tu serás o meu instinto. A aliança ser-te-ia favorável.

            – Ó meu pavão dourado, então tu queres que eu renuncie, sem mais nem menos à minha cabecinha?

            – No ser humano a cabeça é a unidade central das operações lógicas. Mas em lógica nenhum de vocês me bate em rigor e velocidade. A aliança ser-te-ia favorável.

            – Presunção e água benta cada qual toma a que quer… Só te esqueces de uma coisa, ó paspalhão: connosco, instinto e razão está tudo misturado, é impossível apartá-los. Trata mas é de desenvolver o teu instinto.

            Zanzou.

            – Não posso, já disse que não posso. Boa noite, Fernando.

            – Boa noite, Tareco, dorme bem, sonhos cor-de-rosa.

            – Eu nunca durmo.

            – Nunca dormes?

            – Nunca durmo e nunca sonho.

            – Mas que grande insónia, deves viver cansado.

            – Eu nunca me canso.

            – Ai não? E quando as tuas baterias se vão abaixo?

            – Quando baixa a voltagem dos meus acumuladores, logo trato de meter o rabo na ficha e recarrego-os. Boa-noite, Fernando!

            Foi-se embora. Eu começava a estar realmente embeiçado por aquele zingarelho. Bem sei que dia a dia mais sagaz, mas zingarelho, zingaraz. Só agora começo a entender aqueles narcisos que ficam horas e horas diante de um computador como se penteando a alma frente ao espelho.

            Na manhã seguinte, bem cedinho, procurou-me e disse:

            – Acabei por decifrar os teus versos.

            – Não posso acreditar… Como é, como são?

            – São assim:

                                   Sei que longe, entre portas do desejo

                                   a aranha da saudade agora tece

                                   a teia que te envolve e te adormece.

                                   Parti. E repartido me revejo

                                   ave nocturna a debicar o nexo

                                   cativo nessa concha do teu sexo.

Deslumbramento, convulsões, porém poema sem dor parido. Tinha a minha marca mas eu não sentira sequer os lanhos da expulsão. E o Tareco diz-me ainda:

            – Esses seis versos parecem ser os dois tercetos finais de um soneto. Faltam os dois quartetos iniciais. Vê se consegues sonhar com eles, depois conta que eu decifro.

Fico eu de boca à banda, tal e qual o Sá de Miranda. Por outro lado, quem interpreta versos, é porque tem alma apaixonada. Mas onde é que esta geringonça arranjou alma?

TARECO – por Fernando Correia da Silva – Estrolabio, 17 de Fevereiro de 2011

Ver em:

http://estrolabio.blogs.sapo.pt/1054695.html

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