O emigrante, quando não se deixa capturar completamente pelas armadilhas dos sentimentos e as miragens das saudades tem o raro privilégio de contemplar e registar as mudanças no lugar de origem. Em função da capacidade de análise, da introspeção e da habilidade para a observação, as imagens, os sabores, a linguagem, as pessoas são ondas de dados desassossegadores que batem uma e outra vez com essa necessidade da gente termos elementos fixos com que nos defendermos do rejeitamento psicológico às mudanças.Mas, as cousas mudam. A desfeita urbanística e paisagística, a substituição linguística, os progressos que acabam com modos e formas, com hábitos e comportamentos, com estéticas que tínhamos por mais seguras.
O tempo passa nos rostos e corpos da gente, nas fachadas das casas, nos traçados das ruas, a mobília urbana transforma-se e mesmo as árvores dos recantos queridos, dos jardins e dos passeios nos que passamos horas pervagando sucumbem a enfermidades, ou a traçados urbanos que inconscientes ou bárbaros decepam raízes.
Após anos e anos e logo de 8 meses seguidos entre Douro e Tejo castelhano, com algum percurso de férias em Portugal, A Crunha percebe-se diferente, e por que não dizer exótica, ao olho afeito a outros climas, a outros hábitos, a outras comidas, comportamentos, construções.
O tato da pedra, cor da madeira pintada, os movimentos, o corte, colocação e cor das roupas, os hábitos, rotinas, as recriminações em forma de pergunta e as respostas relativas conforme, os jeitos em que os corpos em coletivo e individual interatuam e comunicam, a estética dos prédios, das lojas, dos barezinhos e restaurantes, são diferentes.
A minha mulher diz subitamente que tudo parece mais Portugal que qualquer cousa. Eu nunca reparara nisso. As cousas seguramente, são mais subtis e complexas. Percebemos uma atmosfera, mas se saber não sabemos exatamente como em tantas cousas que somos, temos, sim, seguro apenas a que não assemelha.
Um viajante português, ou um galego emigrado em Portugal talvez veja justo o contrário. Porém e com a globalização geral uma cousa não anula a outra, complementa. Nem tudo é a língua.
Sentado numa explanada de uma linda taberna, que há uns anos era loja de roupa e antes alfaiate de cavaleiros, do que conserva elementos, com um ribeiro na mão observo a gente que bole arredor colorida e movimentando-se, conversando, sob este céu cinzento de agosto, num jeito não castelhano.
