PARA ONDE VAI A MINHA ENERGIA? por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

Em casa não devo correr porque posso cair, não posso saltar de uma cadeira porque posso magoar-me, não posso saltar à corda porque não tenho espaço.

Só tenho espaço para me sentar a fazer os trabalhos de casa e a jogar no ipad.

Mas agora digo eu, não corro, não salto, ai que me magoei bem cá dentro, a minha energia faz-me mexer seja de que maneira for, por isso me chamam hiperactivo.

Hiperactivo é insuportável para os adultos.

O que terei para estar sempre em actividade e de qualquer maneira?

Mexo as mãos, torço os braços, saltito com os pés e por vezes até tenho tiques nervosos. O meu corpo está preso numa gaiola de Faraday.

A energia seve-se de uma guerrilha corporal e quem ganha é ela. Como?

Os adultos já não conseguem estar comigo, ficam cansados, por isso estar na escola é bom. É bom para quem?

Quando saio da escola fazem com que gaste energia na natação.

Fico todo molhado de desespero. Eu quero correr riscos, fazer aventuras, subir a uma árvore, correr atrás dos meus amigos. Eu nasci para me tornar autónomo!

Os adultos têm medo da minha autonomia, da minha liberdade de movimentos, da falta de controlo do meu tempo, de não poderem gerir-me à sua imagem e semelhança.

Já sou grande, quando tenho emprego só sei trabalhar, trabalhar para lá do tempo desejável.

A energia de criança fugiu para a barriga e eu para o ginásio.

A energia de criança apoderou-se da minha incapacidade de gerir emoções, por isso bato, dou pontapés e até posso matar porque não sei lidar com a frustração.

A violência, que sabemos haver no espaço privado e no público, não é filha desta minha energia, mas se calhar influenciou as minhas reacções emotivas.

É discutível, eu sei. Nunca conquistei nada por mim, tudo me foi dado já feito, como vou aceitar pacificamente que a “minha mulher” não queira viver comigo, que os meus filhos estejam com o amante dela? Não, não vou aceitar vou reagir energicamente!

Às vezes apetece-me ter de novo o meu doudou, para o abraçar e ficar tranquilo.

Se a minha energia não tivesse sido tão dirigida, tão prisioneira eu saberia gerir melhor as minhas emoções.

 É discutível eu sei, mas porque não repensar a minha educação motora e espacial?

Para além de uma nova educação teríamos uma sociedade menos violenta, menos consumista, teríamos mais pessoas e menos gente…

 

 

 

 

 

 

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