GRÉCIA, UMA LIÇÃO PARA A ESQUERDA – de FELICE ROBERTO PIZZUTI

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Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota

pizzuti - introdução

Grécia, uma lição para a esquerda

Felice Roberto Pizzuti, Grecia, una lezione per la sinistra

Sbilanciamoci,info, 4 de Agosto de 2015

 

 

A Esquerda tem a tarefa “de desmascarar” quer a contradição do europeismo iníquo, quer a perigosa regressão histórica que se desencadeou a partir das deficiências   iniciais da construção do euro.

Nas últimas semanas, a questão  grega teve desenvolvimentos importantes não somente do ponto de vista quer das  condições imediatas quer do  futuro deste país mas, sobretudo, do ponto de vista  da construção europeia. Pela  importância histórica deste processo, os efeitos sobre o seu êxito constituem  uma referência obrigatória  para avaliar as posições das forças de esquerda, quer das que  já estão estruturadas quer ainda para aquelas  forças de   esquerda ainda  em formação,  mesmo  em Itália

Nas negociações com a Troika (ou como a queiram  chamar), a brusca decisão de organizar o referendo e a vitória seguinte do  Não  parecia poder  vir a reforçar as posições do governo grego e – mais  ainda  – e vir a favorecer uma reformulação   positiva do projecto unitário europeu; em contrapartida, os acontecimentos seguintes desmentiram estas esperanças. Recapitulemo-los esquematicamente

1) O governo alemão irritou-se acentuando a lógica míope das relações  de força (uma aptidão histórica de  efeitos trágicos que, por outro lado, sempre se revelou  perdedora): embora subordinando sempre as decisões comunitárias à  validação pelo seu  Tribunal constitucional, irritou-se porque o governo grego pediu ao seu povo a confirmação da sua posição; entretanto, a Alemanha obstina-se em condicionar a retoma europeia (sobretudo a dos outros países) ao respeito da regra dos  3% para o  rácio da divida relativamente ao PIB, mas o seu excedente  comercial desde há treze anos que ultrapassa  o limite estabelecido no Pack Six de 6%,  aumentando os desequilíbrios e prejudicando o crescimento de toda a União Europeia.

2) Os outros países da zona euro  seguiram conscientemente  e  com   muita complacência a posição alemã fazendo  relembrar (com todas as diferenças), o espírito do acordo de Munique do ano de 1938

3) O governo grego, inevitavelmente condicionado por estes  comportamentos, alterou o seu comportamento negocial  mas o resultado final foi um acordo pior (hoje para a Grécia, e em perspectiva  para a construção europeia) do que aquele que foi  recusado pelos  eleitores gregos.

Esta evolução da questão  grega reforçou duas das   possibilidades expostas aos países “periféricos”: a) a continuar a secundar/sofrer a via  “ alemã” imposta à União europeia e de qualquer modo validar as relações de força que a apoiam; b) sair da Zona euro.

Na Itália, a primeira posição  tem sido a do  Governo (mesmo dos governos precedentes) e do seu partido maioritário. A segunda posição encontra sempre o apoio tradicional  das posições  antieuropeístas de  tipo nacionalista/local/populista; mas vai encontrando consensos autênticos  entre os que defendem que fazer parte da Zona euro se tornou irremediavelmente  lesivo dos interesses dos trabalhadores e da democracia, ou seja incompatível com o programa e os  valores da esquerda.

Na segunda posição começa a estabelecer-se  por conseguinte uma convergência de motivações para se  sair do euro que, contudo, para a esquerda é mortalmente embaraçante porque a faz  perder a conotação  de força progressiva, de modo  a conjugar sobre o plano estratégico os  valores que  tipicamente são os seus – como os do trabalho,  da igualdade, dos direitos, os equilíbrios ambientais e da democracia – com o interesse geral como por exemplo o  crescimento económico.

Em toda a esquerda e entre as forças  progressistas  seria necessário ter conta que

  • A globalização dos mercados tornou mesmo muito mais necessária , do ponto de vista económico, a existência  da União europeia. Uma instituição e um sistema económico de dimensão continental permite ganhar  margem  de autonomia e possibilidades  de  maiores  sucessos  pelas escolhas políticas, económicas, sociais e ambientais colectivamente partilhadas;  isto vale especialmente pelas  políticas progressistas contrapostas  aos  interesses restritos  mas fortes, enraizados nos mercados e as nas suas correntes especulativas.

Na União europeia podem mesmo prevalecer, como está a acontecer, posições altamente lesivas do trabalho, da equidade, da democracia e geralmente regressivas, mas este é um dos resultados sempre possível nos confrontos sociais e políticos. O problema é que em cada  país europeu, os principais vínculos económicos e políticos que derivam da sua reduzida  dimensão  tornam-se um obstáculo  ou são mesmo  impeditivos das escolhas  progressistas  bem diferentes das que são  impostas  pelos  grandes países e pelos mercados internacionais. A dimensão   europeia  é  então potencialmente mais favorável à realização dos objectivos da esquerda.

  • Naturalmente, subsistem margens de liberdade a nível nacional  e local, mas elas são cada vez mais reduzidas. Em todo o caso, no que diz respeito ao nosso país, aqueles que pensam que se podem libertar das políticas liberais saindo do euro, também devem reflectir sobre o facto de que, enquanto na segunda metade do século XX  éramos considerados anormais pela  presença do maior partido comunista do ocidente , agora nós somos anormais pela  representação política mais pequena da esquerda. Devemos evitar cair numa lógica “defensiva” que pode empurrar-nos para um  localismo de tipo  irrealista (em Junho de 1940, o prefeito de uma cidade no Castelli Romani convocou os cidadãos às ruas para os  informar  de que a Itália tinha entrado em  guerra e, em seguida, perguntou-lhes: “Nós, o  que vamos fazer ?”

  • Hoje, está já fora de discussão  proceder-se  à criação da moeda única e da União europeia (com  as características erradas largamente  previstas), mas sim se é  vantajoso voltar à  moeda nacional (e sair do euro) e se é  possível fazê-lo pelo menos de forma   É lícito imaginar que a ruptura da Zona euro mesmo que seja  apenas parcial– com os seus reflexos negativos sobre a União – não poderia acontecer  sem traumatismos (não somente económicos) tendo em conta que para os evitar  seria necessário mais cooperação do que a que se tem verificado até ao presente para se poder alcançar  uma verdadeira  união capaz de melhorar as condições dos cidadãos de cada  um dos seus Estados membros.

A Esquerda  tem a obrigação  “de desmascarar” quer a contradição do europeismo iníquo,  antidemocrático  e contraproducente  sendo este apoiado pelos  partidos conservadores, quer a perigosa   regressão histórica que seria iniciada e desencadeada  pela falha da arquitectura do euro  e alimentada  em  seguida pelo  regresso aos nacionalismos. Empenhar-se  nesta direcção e neste trabalho de desmistificação  não é uma mania auto-referencial    mas um dever primário e dignificante   para uma força política que seja progressista.

Felice Roberto Pizzuti, Sbilanciamo,   Grecia, una lezione per la sinistra. Texto disponível em :

http://www.sbilanciamoci.info/Sezioni/alter/Grecia-una-lezione-per-la-sinistra-30943

ou em Il Manifesto, em:

 http://ilmanifesto.info/lorizzonte-europeo-e-la-vera-sfida-della-sinistra/

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