THALYS: CAÇA AO ADVOGADO! MESMO OS TERRORISTAS TÊM DIREITO À SUA DEFESA – por RÉGIS DE CASTELNAU

 

O thalys, comboio de alta velocidade
O thalys, comboio de alta velocidade

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

thalys

Régis de Castelnau, Thalys: haro sur l’avocate! Même les terroristes ont droit à la défense

Revista Causeur, 26 de Agosto de 2015

A sequência que acaba de se  desenrolar depois da  tentativa terrorista do Thalys é reveladora. A irrupção na História dos três rapazes  que jogaram aos heróis, encarnam  à perfeição o que a América pode ter de simpático, deu ao  que teria podido ser uma tremenda tragédia uma dimensão de frescura  que consola nestes em tempos difíceis. Como estes jovens tinham colocado a fasquia muito alta, não era necessário de resto ser assim.  Excepto este pobre Jean-Hugues Anglade imediatamente ao lado da sorte, não houve muitas notas a soarem em falso . Os políticas recuperaram sem fazerem grande coisa, o antiamericanismo fez-se discreto, “o padamalgam” intempestivo foi minoritário, e os defensores da ideia de conspiração a ficarem numa situação de muito  incomodados. Até a François Hollande, por uma vez no tom certo. Haver ocasionalmente alguns dias  de consensos, não é nada de desagradável. Então, para atenuar a melancolia da rentrée política, uma semana de  “ será que todos somos gentis,  que toda a gente é agradável ”? Nem mesmo em   sonho. Um fim de semana, é já suficiente, senão ainda nos  habituamos.

Tinha lamentado nestas colunas a destruição do segredo profissional dos advogados sob os golpes de certos magistrados, do Partido socialista e do Conselho constitucional, que se apoiam  sobre uma opinião pública que tem maioritariamente os advogados como  cúmplices. É necessário considerar que doravante os advogados põem-se também?

A advogada  que assistiu  Ayoub El Khazzani aquando da sua guarda à vista em Arras não teve nenhuma possibilidade. Encontrava-se em mau lugar e no mau momento. Obrigada  automaticamente, teve que confirmar pelas  22 horas para assistir aquele que iria ser  ”a grande notícia” dos meios de comunicação social do mundo inteiro. Era o seu dever, cumpriu-o.  Mas se a presença do advogado na situação de  guarda à vista é qualquer coisa de  novo, o melhor seria mesmo assim não esquecer alguns aspectos fundamentais. A começar pelo segredo profissional, lembremo-lo,  que deve permanecer absoluto. E a este  é necessário acrescentar a minuta muito estrita do artigo 63-4-4 do Código de procedimento penal “sem prejuízo do exercício dos direitos da defesa, o advogado [que assistiu alguém guardado à vista] não pode dizer nada a ninguém durante todo o tempo em que dure a situação de  guarda à vista nem das entrevistas com a pessoa que  ele assiste, nem de informações que recolheu consultando as actas e assistindo às audições e as confrontações.” Ora, tivemos erradamente direito a uma rajada  de entrevistas no mínimo inoportunas.

O mundo inteiro foi imediatamente  informado do conteúdo da entrevista do presumido terrorista com o seu advogado! Não nos foi escondido. O seu estado, as suas tomadas de tranquilizantes, as suas explicações e justificações. O seu primeiro sistema de defesa sobre o projecto de um ataque de comboio à  antiga, com armas de guerra encontradas numa praça. Explosão do blogoesfera  não para censurar esta violação das regras, mas para insultar a advogada por, supostamente, como todo e qualquer comerciante manhoso,  ter  tido esta ideia e de a soprado ao ouvido do seu cliente. Tendo em conta a violência do clamor, a infeliz advogada julgou oportuno  bater em retirada, e justificar-se por não dar novas entrevistas. Para dizer que não acreditava na  tese do SDF! Disparando sobre as costas daquele que era suposto estar a  defender, tratou-o  de mentiroso. E história de se ter  desembaraçado desta história, recordar que Ayoub El Khazzani  foi transferido para  Paris, um outro confrade terá assim vindo substituí-la.  Ufa!

Tendo em conta o turbilhão e a pressão devidos a um acontecimento fora de todas as  normas, esta advogada tem todas as desculpas do mundo Mas o mais tristemente significativo foi a reacção dos meios de comunicação social das redes sociais. Esta acreditou como correcto  reflectir a posição do seu cliente? Imediatamente, um enorme furor,  escárnios e ofensas. Linchagem mediática em regra. Não para lamentar a violação dos princípios, mas para contestar uma vez mais as regras de um Estado de direito. Em França, os advogados são cúmplices. Estava efectivamente correcta a  censura feita à infeliz nomeada como defensora oficial. Não por  ter maltratado desajeitadamente  estas regras imperativas mas por as ter aceite, aplicando-as, de defender um tal sujeito .

A pequena frescura dispensada pelas três comparsas de  Sacramento rapidamente se  dissipou. E isto, tanto mais quanto um jornalista foi à  capital da Califórnia para assistir com as famílias dos heróis à entrega da medalha  da Legião de Honra. Ouve-se no zunzum no fim da emissão a voz de um dos irmãos levantar a seguinte  pergunta: “ quem é o mestre de cerimónia, o que entregou as medalhas? ” Resposta ligeiramente incomodada do jornalista francês: “é o presidente francês”. Nova réplica  incrédula: “Ah,  é o Obama deles. ”

A montagem acabou, regresso à realidade.

Régis de Castelnau, Revista Causeur, Thalys: haro sur l’avocate!Même les terroristes ont droit à la défense. Texto disponível em :

http://www.causeur.fr/thalys-khazzani-avocate-justice-34292.html

 

 

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