LIVRO & LIVROS – NOS QUATROCENTOS ANOS DA PUBLICAÇÃO DE PEREGRINAÇÃO, DE FERNÃO MENDES PINTO – por Manuel Simões

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Em 1614, precisamente 31 anos após a morte do autor (1583), publicou-se finalmente o extraordinário texto de Fernão Mendes Pinto, Peregrinação, que ao longo da história das ideias haveria de despertar paixões e controvérsias relativamente à veracidade das acções narradas. E não poucas vezes a obra foi vítima de preconceitos e de estereótipos de uma forma de pensar distorcida e sumamente interessada em minimizar uma obra que se apresentava como discurso anti-épico ou epopeia às avessas, usando um material que uma ortodoxia conservadora e inquisitorial só pressupunha digno de tratamento épico. A famosa fórmula “Fernão, mentes? Minto!” obedece sem dúvida a um mecanismo perverso posto a circular provavelmente pelos jesuítas, revelando a longa mão do poder político e religioso, o que acabou por condicionar a leitura duma das obras mais fascinantes do nosso século XVI.

E, no entanto, o próprio texto fornece não poucos “avisos” à navegação, como se o autor tivesse pressentido a hostilidade de que a sua narrativa havia se ser objecto, marcada como foi pelo anátema de se tratar de obra de ficção. De facto, não raro Fernão Mendes Pinto tem a percepção de que a sua obra será lida com incredulidade ao ponto de advertir: «por entre o arvoredo do mato muito grande quantidade de cobras e de bichos de tão admiráveis grandezas e feições que é muito para arrecear contá-lo, ao menos a gente que viu pouco do mundo» (vol. I, cap. XIV).

Tem sido notado como a sátira parece marcar o discurso de Peregrinação através do uso da “máscara” ou fala do “Outro”. Em rigor, Fernão Mendes Pinto serve-se duma técnica mista, usando quer a sátira aberta quer o processo retórico de colocar o narrador em posição “neutra”, fazendo deslizar gradualmente o acento do “eu” narrante para a máscara. O caso mais extremo é talvez o do Menino (figura inocente) que intervém desta maneira: «Bendita seja, Senhor, a Tua paciência, que sofre haver na terra gente que fale tão bem de Ti, e use tão pouco da Tua lei, como estes miseráveis e cegos, que cuidam que furtar e pregar Te pode satisfazer como aos príncipes tiranos que reinam na terra» (vol. I, cap. LV).

Neste sentido, sendo Peregrinação uma obra muitas vezes apresentada como autobiografia, surpreende a frequente intervenção da palavra do “Outro”, à qual é concedido um espaço e um tratamento que se distinguem no interior do texto. Na organização da narrativa, o “Outro” deixa de ser submisso e mudo, dócil espectador da máquina teatral encenada pelos portugueses; o autor reconhece-lhe o discurso, a distonia dos códigos sócio-culturais, com original processo narrativo e não como mera ilustração exótica.

Postas em contacto as duas culturas, a concentração bipolar ameaça de preferência a estrutura do “eu” (ou do “nós”), à qual se opõe uma série de elementos que distinguem a palavra desviante e originalíssima do “Outro”. Veja-se, por exemplo, o famoso fragmento conhecido como a “Carta da noiva”, inserido a meio do cap. XLVII. A carta é precedida da narração do encontro entre os três juncos e a lorcha dos portugueses com «quatro lanteás de remo (que são como fustas) em que ia uma noiva» ao encontro do prometido esposo, a qual, tomando a armada de António de Faria como a de seu noivo que a vinha esperar e vendo que «o noivo a não mandava visitar como estava em rezão» (prisioneiro nos barcos portugueses) lhe envia a carta que o autor “transcreve” deste modo: «Se a fraca e mulheril natureza me dera licença para daqui onde fico ir ver a tua face, sem com isso pôr nódoa no meu honesto viver, crê que assim voaria meu corpo a ir beijar esses teus vagarosos pés, como o esfaimado açor no primeiro ímpeto da sua soltura. Mas já, senhor meu, que eu de casa de meu pai atéqui te vim buscar, vem tu daí donde estás a esta embarcação onde eu já não estou…». A carta evidencia, desde o exórdio, uma mudança de registo linguístico em relação à porção de texto que a precede, e representa uma espécie de ilha, com um alto índice expressivo, situada a meio do inteiro capítulo. Revela também uma série de recursos retórico-estilísticos não indiferentes, seguro indício do tratamento literário a que foi submetida e da função que o autor lhe atribui no contexto verbal em que se inscreve. É um texto belíssimo, até pela poeticidade do discurso, dos mais belos (e talvez menos lidos) da literatura portuguesa. Devia ser de leitura obrigatória nos cursos de português.

O que é inegável é que, ao sublimar uma parte do texto, o autor degrada a outra parte, do mesmo modo que ao definir a religião como a coisa melhor, identifica na sua corrupção a coisa pior. Produz-se então, a meu ver, o mecanismo do desvio satírico: enquanto o autor faz apelo à invenção sugestiva, a sátira vai-se formando como espelho da desordem mental da sociedade (portuguesa, neste caso).

(Texto reescrito e adaptado do ensaio “A construção da sátira na ‘Peregrinação’: o ‘Outro’ como máscara de Fernão Mendes Pinto”, in O Olhar Suspeitoso. Viagens e discurso literário, Lisboa, Colibri, 2001, pp. 115-124).

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