NESTE DIA… Em 1756, foi criada a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro

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Em 10 de Setembro de 1756,  por  Alvará Régio de D. José I, mas por iniciativa do seu ministro Sebastião José de Carvalho e Melo, foi criada a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro – conhecida popularmente por Real Companhia Velha – medida de grande alcance económico. Com ela foi delimitada a região dos vinhos de Feitoria do Douro, a mais antiga região demarcada do mundo. A Companhia detinha o exclusivo da produção e distribuição do vinho do Porto, produto com grande procura no mercado britânico e que, pelo crescente volume das exportações para Inglaterra, ia assumindo um papel cada vez mais importante na balança comercial do nosso País  O tratado de Methuen, firmado em 1703 entre Portugal e Inglaterra, acordava tarifas aduaneiras preferenciais ao Vinho do Porto vendido em Inglaterra em consequência do embargo comercial imposto pelos ingleses a França. O vinho do Porto era considerado britânico e conta-se mesmo que Nelson antes da Batalha de Trafalgar, desenhou o plano de batalha numa mesa do navio almirante, com um dedo molhado em vinho do Porto.

O protagonismo  assumido por aquele produto nas exportações,  dava aos importadores britânicos uma importância que o Marquês, pouco receptivo a esse tipo de subordinações às arrogâncias de estrangeiros (fora ministro de Portugal em Londres, mas recusara-se sempre a falar inglês, obrigando os diplomatas britânicos a falar em francês) decidiu disciplinar a situação,  estabelecendo a primeira região vinícola demarcada do mundo, com a instalação dos famosos  «marcos pombalinos». A reacção hostil dos ingleses e dos comerciantes portuenses face à formação da Companhia e às regras que ela vinha introduzir no negócio, levaram-no a tomar medidas repressivas que, obrigando os ingleses e a burguesia comercial do Porto a cumprir essas regras impostas pelo  Alvará Régio, tornaram possível o seu funcionamento. 

Em 23 de Fevereiro de 1757, eclodiu no Porto um motim popular contestando a fundação da Companhia. Manipulados por ingleses e comerciantes, populares cercaram a casa do Juiz Conservador da Companhia, Bernardo Duarte de Figueiredo, sendo contidos e detidos por forças militares. Entre Abril a Outubro de 1757, foram julgados no processo 478 acusados, dos quais apenas 36 foram absolvidos, sendo os restantes punidos pelo crime de lesa-majestade. 30 foram executados.

O facto histórico é comentado em O Motim, uma peça de teatro de Miguel Franco publicada em 1963 e levada à cena em 1965 no Teatro Avenida, pela companhia do Teatro Nacional D. Maria II.  Baseada no romance histórico de Arnaldo Gama Um Motim há Cem Anos, publicado em 1861,  esta peça histórica tem como tema o levantamento no Porto. A dureza com que a rebelião foi punida por ordem de Sebastião José de Carvalho e Melo, as torturas e execuções, tudo foi feito em defesa dos interesses nacionais. No entanto, o encarceramento, os interrogatórios e a coragem com que um dos acusados, Tomás Pinto, enfrentou torcionários e juízes, configurava uma atitude de resistência e de dignidade que, aludindo à repressão salazarista, desagradava à polícia política. A exibição da peça foi proibida após a sexta representação.

O vinho do Porto e a Real Companhia Velha, peças fundamentais do comércio internacional português a partir de então, foram factores decisivos no crescimento da região do Porto, a área urbana do nosso País que mais se desenvolveu ao longo do século XIX. Tal como Lisboa deve ao Marquês a sua reconstrução, o Porto, sem a Companhia e sem as medidas disciplinadoras que ela veio impor a  partir de 10 de Setembro de 1756, não seria a grande e bela cidade que hoje é.

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