Ao agilizar o processo de declaração judicial de nulidade do matrimónio e ao torná-lo gratuito para os casais pobres, a igreja católica abre, finalmente, a porta ao divórcio, ao modo do papa Francisco, para os casamentos canónicos. A formação estrutural jesuítica do papa dá para ele tirar da manga, no Ano Jubilar da Misericórdia, dois documentos institucionais, graças aos quais, o que continua a ser canonicamente pecado, passe a ser pastoralmente virtude, e o que continua a ser canonicamente divórcio, por isso, proibido pela igreja, passe a ser pastoralmente permitido, até, estimulado. Os casamentos canónicos têm contribuído para perpetuar, ao longo dos séculos de domínio católico sobre as consciências dos seus membros leigos, horríveis quotidianos de inferno, suportados em silêncio por inúmeros casais, devido à indissolubilidade. A legalização do divórcio civil, inclusive para os casamentos canónicos, tem contribuído para o crescente aumento de divórcios civis de casais católicos e a concretização de novas uniões civis, tidas pela igreja como situações de pecado, que impede esses casais católicos, não de irem às missas de domingo (bem melhor seria que os impedisse), mas de comungarem nelas. O que perfaz para esses casais um suplício semelhante ao de Tântalo, uma vez que, quando as hóstias são distribuídas, eles não podem comungá-las. Tudo, em consequência de perversas doutrinas dos clérigos moralistas católicos, proibidos por lei eclesiástica de casar canonicamente, ainda que não de terem filhas, filhos, desde que não haja escândalo. A Cúria romana não chama divórcio ao que resulta das inesperadas alterações papais nos processos de nulidade do sacramento do matrimónio. Continua a chamar-lhe declarações de nulidade, quando, na prática, são declarações eclesiásticas de divórcio, ao modo do papa Francisco. Teria sido muito menos hipócrita, se o papa Francisco tivesse proclamado, perante o mundo, o fim puro e simples dos casamentos canónicos. Uma vez que casar pela igreja é sinal de submissão ao poder. E Isto tem um nome – prepotência eclesiástica, por isso, pecado grave!
11 Setembro 2015

