Destruir para tudo recomeçar foi o modelo primigénio que o Homem, na sua intolerável estultícia, ainda não aprendeu a sublimar. E, no entanto, se o artifício da Arca teve origem na violência do mundo, tudo podia ter acabado nesse preciso momento, até porque as gerações futuras só recuperaram o ciclo da desarmonia, inspiradas que foram pela bíblica confusão das línguas ou caos instituído.
Nem se percebe o porquê de tanta piedade conferida a tantos e tantos amadores da violência do após-dilúvio; e a radical maldição sobre os que viveram antes.
Deus devia saber que, na Arca, acabaria por germinar a semente do mal; e que os que quis salvar traziam no sangue a sede do ódio, da dor infinita que se sedimentou ao longo dos tempos: corpo de fragmentos que tem simultaneamente a sugestão do mito e da História, o fascínio da génese e da catástrofe.